Histórias do Luar: A morte do urubu que voou no Maracanã

Às seis horas da matina, estava no estádio - não era chamado de arena - à procura do cadáver da ave que havia "invadido" o gramado do estádio Mário Filho com a bandeira do clube amarrada nas canelas

Por Luarlindo Ernesto

Madrugada em 2 junho de 1969, dia seguinte a vitória do Flamengo sobre o Botafogo ( 2 x 1), depois de dois anos de derrotas seguidas. Convenci o chefe de que seria importante procurar o urubu do Flamengo que voou no Maracanã. As seis horas da matina, estava no estádio - não era chamado de arena - à procura do cadáver da ave que havia "invadido" o gramado do estádio Mário Filho com a bandeira do clube amarrada nas canelas. A rapaziada que ainda fazia a faxina no "gigante adormecido" estranhou que eu, vestindo terno e gravata, procurasse o urubu. E ainda, acompanhado de fotógrafo, o Eurico. Em pouco tempo localizei o defunto,esquecido e jogado no fosso que separava o campo da geral, onde torcedores assistiam os jogos em pé.

Resgatei o cadáver do bicho em uma caixa de papelão da Kibon e bati em retirada. Às 8 horas estava no portão do Jardim Zoológico, na Quinta da Boa Vista. Procurei o hospital veterinário que cuida dos animais. O difícil foi conseguir autorização para que os médicos veterinários atendessem ao meu pedido um tanto quanto estranho: podem fazer a autópsia? Pô, isso tem 50 anos! O general Costa e Silva era o presidente de plantão, ainda na vigência do AI-5. Bem, um bom papo e convenci a todos que o exame cadavérico era de extrema importância diante de assunto de alta relevância. Tudo acertado, os médicos demoraram umas duas horas para chegarem à conclusão sobre a morte do animal. Enquanto aguardava o laudo cadavérico, dei uma vistoria no hospital do Zoo. Bem equipado, limpo, equipe médica da melhor qualidade. Incrível, já naquela época, o hospital dos animais era bem melhor do que os hospitais do estado e do município. Um mimo. Deu vontade de tentar alguns exames que precisava.

Lá pelas dez horas, os médicos me chamaram e passaram as novidades. O urubu usado por torcedores - um grupo de quatro amigos, jovens, que tivera a ideia de homenagear o Flamengo - conseguiu capturar o animal para, diante da plateia do Maracanã, consagrar o símbolo do Flamengo diante de emissoras de TVs e de rádios, além dos jornais, atingindo todo o Brasil e alguns países aí afora. Boa ideia..E deu certo. O voo, apesar de curto, chamou a atenção de meio mundo. E o assunto virou discussão do momento. Muita gente contra a ideia. Outros, claro, favoráveis. Nos botequins da vida, além da vitória do tal de Mengo, o urubu era a notícia.

Mas, vamos ao laudo do decujo: uma fêmea, de uns 8 meses de idade, com o papo vazio e com aparência de sofrência. Aparência prejudicada, com membros aparentando pequenos ferimentos, principalmente nas patas e pernas. O detalhe mais importante da história foi a causa mortis: caquexia. Homessa! Não havia o Google na ocasião. Sem querer demonstrar a minha santa ignorância em caquexia, enrolei o papo, alonguei a conversa, tirei dúvidas sobre a vida e a obra daquele bichos e, por fim, perguntei sobre a alimentação certa para o urubu. Ah, entrei pelo caminho certo.

Uma veterinária da equipe do plantão falou sobre a dieta dos urubus. Oh, maravilha! Explicou que é ave "lixeira", que se alimenta de restos, mesmo em decomposição. A fêmea, do nosso caso, deveria ter rejeitado a alimentação que lhe fora oferecida, ainda mais porque estava em cativeiro. Diante disso, entrou em um quadro de caquexia. Ih, lá vem a tal de caquexia... Ô doutora, que encrenca é essa ? Grau extremo de enfraquecimento ou, trocando em miúdos, morreu de fome! Na saída, fiz a última pergunta: e o destino do cadáver? Resposta curta e direta: incineração. Voltei à redação e consegui emplacar a chamada da matéria na primeira página com a foto do Eurico, na vertical, da médica e do urubu. Ah, a história saiu naquele jornal da Rua Irineu Marinho, 35.

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