Histórias do Luar: O Rio das antigas

Éramos felizes, mesmo não abrigando mais a capital da República

Por Luarlindo Ernesto

Luarlindo Ernesto
Luarlindo Ernesto -

Em 1963, o governador da recém-criada cidade-estado da Guanabara, Carlos Lacerda, extinguiu o serviço de bondes. Criou uma nova empresa de transportes, a CTC (Companhia de Transportes Coletivos), mas não conseguiu empregar todos os funcionários da antiga companhia. O resultado foi quase cômico: tinha piloto de bonde, e cobrador trabalhando como detetive na Delegacia de Homicídios, outros foram parar no Detran, outros para várias secretarias de governo.

Mas ainda cantávamos a "Garota de Ipanema", criada no ano anterior pior Tom e Vinícius, a música mais cantada e gravada no mundo até então. Jorge Ben embalava com "Mais que Nada" e Adílson Ramos aquecia corações com o "Sonhar Contigo". Éramos felizes, mesmo não abrigando mais a capital da República.

Ainda se usava terno e gravata. Tinha a Ducal, que vendia em 24 vezes, em parcelas fixas. Sucesso o terno com duas calças (daí o nome DUCAL). Mulheres com vestidos quase longos, nada ousados mas,em contrapartida, com as saias justas mostrando os joelhos - colírio aos olhos masculinos - e os penteados recheados de bombril.

Lacerda resolveu construir a Cidade de Deus - nome dado por Dom Hélder Câmara - para abrigar funcionários do estado. Mas o projeto não foi em frente e as moradias foram destinadas a moradores desalojados de várias favelas.

Mas o Flamengo levou a taça do Campeonato Carioca de 1963, mesmo com o empate de 0 x 0. O time, de Flávio Costa, entrou em campo com Marcial, Murilo Luiz Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Aírton Geraldo e Oswaldo. O Fluminense, de Fleitas Solich, entrou em campo com Castilho, Carlos Alberto Torres, Procópio, Dari, Altair, Oldair, Joaquinzinho, Edinho, Manuel, Evaldo e Escurinho. foi o segundo colocado, seguido por Bangu, Botafogo, América, Vasco, São Cristóvão, Campo Grande, Olaria, Portuguesa, Bonsucesso, Canto do Rio e, por último, em 13º lugar, o Madureira. Passaram nas roletas do Maracanã cerca de 195 mil pessoas. Notaram os clubes da época?

Nesse ano, ainda comíamos do cachorro quente "Geneal" e éramos atraídos ao Saara, o shopping a céu aberto no Centro do Rio, onde se reuniram árabes e judeus vendendo roupas a preços populares. Já no Méier, surgiu o primeiro shopping center do Brasil, um luxo só.

Ah, conseguimos passar pelo recém-inaugurado Túnel Santa Bárbara, que uniu os bairros do Catumbi a Laranjeiras sob o Morro do Cintra. Mas a obra matou 18 trabalhadores, e a artista Djanira fez painel de azulejos, em homenagem aos mortos, com a imagem de Santa Bárbara, padroeira dos trabalhadores em minas e túneis, logo logo esquecidos.

E tem mais, amigos. Um polonês acabou virando "alemão". O imigrante Leonard Kaczmarkiewicz, dono de terras em Ramos, resolveu vender porções de sua propriedade e logo o local começou a ser povoado. Virou o que? Morro do Alemão, claro! O cidadão de cabelos claros, quase loiros, olhos verdes, falando um sotaque atrapalhado só poderia ser alemão.

E assim ficou e agora virou complexo do Alemão numa referência a outras comunidades que foram se somando à região, atingindo até Inhaúma do outro lado do morro, onde funcionou uma pedreira.

E foi em setembro de 1963 que surgiu o restaurante-pensão-casa de samba e de bambas Zicartola, ali na Rua da Carioca, 53. Dona Zica cozinhava, Cartola compunha e cantava...

Não fiquem com inveja. Mas assisti, cara a cara, Nara Leão, Paulinho da Viola, Zé Keti, Élton Medeiros, Ismael Silva, Nélson Cavaquinho - saímos várias vezes, meio tocados por cerveja, em busca da "saideira", antes de voltarmos para casa.

É, vou parar por aqui. Tenho que respeitar o espaço que o editor me permite. Mas logo teríamos a Banda de Ipanema, no agitado ano seguinte, com revolução-golpe militar a bordo.

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