Histórias do Luar: 1962: Aquele bom ano

Mas, amigos, um mês depois, João Goulart, então presidente da República, emplacou a lei que criou o 13º salário no país. Alegria geral na nação

Por O Dia

Foi Nelson Rodrigues que, após se encantar com a exibição do jogador Amarildo, durante a Copa do Mundo de 1962, no Chile, lançou o adjetivo "O Possesso". Pelé, contundido, desfalcou a seleção brasileira. Ganhamos o bicampeonato com gols de Amarildo, Zito e Vavá, derrotando a seleção da Checoslováquia por 3 a 1, no Chile. Mas, amigos, um mês depois, João Goulart, então presidente da República, emplacou a lei que criou o 13º salário no país. Alegria geral na nação. Chiadeira, somente de alguns patrões.

E não parou aí: o Santos Futebol Clube ganhou o campeonato mundial de futebol de clubes, da Fifa, dando um "chocolate" no poderoso time do Benfica, pelo placar de 5 a 2, em Lisboa. Foi o primeiro time brasileiro a ganhar o campeonato mundial de clubes. Muita felicidade geral na nação. Quase que deixei passar em branco: fundada a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense. E o "Pagador de Promessas", filme de Anselmo Duarte (lembram dele?), ganhou a Palma de Ouro, em Cannes, na França. Eita ano dos bons. Eu era jovem, feliz e nem sabia. Pô, fazia curso de piano, clássico, estava já no terceiro ano. Apesar de tudo, ainda fui soldado raso no Exército, saindo reservista como Cavaleiro Blindado. Porreta !

E foi no Exército que encontrei um conhecido dos tempos de colégio. Não sei se lembram, pelo nome: Lúcio Flávio Vilar Lírio... Uma frase pinçada durante uma entrevista que fiz com ele, na Delegacia de Roubos e Furtos: "Polícia rouba, promotor rouba, juiz rouba... então, por que eu não posso roubar?". Ele, entre outras coisas, foi o campeão de fugas brasileiro. Trinta e uma escapadas dos presídios do país! Do Oiapoque ao Chuí. Logo no início, no quartel da Avenida Brasil, Bonsucesso, mandaram capinar a área no entorno. Dei uma de brincalhão e perguntei ao sargento se eu estava "servindo à Pátria ou capinando a Pátria". Foi o bastante para pegar dois dias de cadeia. É, pois foi lá que que encontrei o Lúcio Flávio, na cadeia do quartel.

Ele morreu assassinado em janeiro de 1975, na cadeia, aqui na Rua Frei caneca, em um dos presídios do complexo penitenciário. Fazia poemas, pintava quadros, era louro, olhos verdes e bandido. Diferente do bandido do Rio de janeiro. Ah, e não morava em favela (ou comunidade). Mas são coisas da vida. Em uma das investidas para roubar, ele e o bando que o acompanhava invadiram um restaurante famoso na Avenida Atlântica, no Leme. Eu estava lá, acompanhado de uma namorada. Todos os clientes e funcionários foram colocados encostados na parede. E começou o roubo.

Quando Lúcio me viu, sorriu e perguntou o que eu fazia ali, naquele momento. Pô, somente respondi que estava sendo assaltado. Ele me deu um abraço e mandou que voltasse à mesa que ocupava. Peguei a namorada, sentei e continuei comendo a pizza e bebendo um chope. E o roubo continuou, calmamente. Bem, eu não fui roubado nem a mulher que estava ao meu lado. Lúcio ainda perguntou pela minha família e eu perguntei pela mãe dele, a dona Zulma. Depois do roubo, fugiu com os comparsas. Aí começou meu problema.

Os funcionários e clientes que foram roubados não admitiam que eu não fosse da quadrilha. E partiram para me interrogar. Nisso chega a polícia. Hélio Vígio à frente. Que alívio. O policial me reconheceu e foi logo perguntando sobre o roubo. Expliquei tudo e fui liberado. Na saída do restaurante, diante da plateia de vítimas, dei um sorriso e falei, bem alto, para que todos escutassem: "Conheço os bandidos e ainda conheço os mocinhos!". A partir de então, quando eu resolvia ir ao tal restaurante, quase era recebido com festa... Nessa época, o saudoso Luiz Vieira, pernambucano, criado em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, que não gostava de ser chamado de cantor - "sou um cantador" - nos encantava com a melodia "Menino passarinho".

Na verdade, o nome da música é "Prelúdio para ninar gente grande", brigando nas paradas de sucesso com "Let's Twist Again", de Chubby Checker, e "Fica comigo esta noite", de Adelino Moreira, gravado por Nelson Gonçalves. A Portela ganhou o desfile do carnaval - ainda nem se pensava em Sambódromo - deixando a Império Serrano em segundo lugar, com 10 pontos de diferença. Salgueiro ficou em terceiro lugar. Vivíamos a era dos bicheiros no carnaval e no futebol. Lembram?

 

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