Vida nas cavernas

.

Por O Dia

Como vamos sobreviver em tempo de isolamento ? Hora de criar Protocolo de Sobrevivência, adaptação da vida em caverna, pedindo clemência aos credores, sem futebol, Fórmula 1, praia, baile funk, supermercados, viagens, compras em Nova Iorque e Assunção, e sexo só para procriação, sempre de costas para um não tossir no outro e, se possível, virtual.

Para quem mora em casa, sugiro, de imediato, plantação de verduras, frutas e legumes. Criar umas galinhas também é válido. Tanto para consumo próprio e, o que sobrar, para vender para vizinhos que moram em apartamentos. Também serve como moeda de troca para o açougue, padaria e farmácia (álcool gel). Fogão campeiro, a lenha, é o ideal. O dinheiro que gastaria no gás, você pode gastar com a Cedae e, talvez com a Light. A sogra pode ajudar nas outras despesas, afinal ela deve ser pensionista do, no barato, INSS.... Se o sogro estiver vivo, pode usa-lo como "espantalho" na horta. Ele será uma grande arma para afugentar vizinhos que aparecem pedindo tudo - "acho que está com o vírus", podem dizer - e também tem a pensão da Previdência.

Não esqueça do ferro de passar tipo "Maxambomba" , aquecido a carvão. Ah, não venham me xingar ou tentar me jogar pragas ou outras coisas. No momento, ainda estou sogro, pai, avô, marido, pensionista e tenho horta.

Aprendi desde cedo a consertar panelas velhas, amolar facas e tesouras. Aprimorei a arte de consertar sapatos. Tênis, não. Faço reparos em torneiras, fechaduras, e em marcenaria. Tô aprendendo mecânica em automóveis. Conto histórias para meus netos e, também, para adultos. Afinal, cheguei no tempo em que posso começar as histórias usando o jargão "Era uma vez, quando eu tinha cabelos pretos...".

No trabalho - eu ainda trabalho, principalmente para pagar o plano de doenças (alguns o chamam de Saúde)! - arranjei dois ou três netos postiços: Cadu, Thiago e o Athos, todos jornalistas. Os de sangue, pelo que noto, não têm ciúmes dos outros.

Mas, amigos, detesto usar as filas de idosos, ou não pagar ônibus, ou trem, ou VLT e barcas. Tô na guerra e, por tanto, quero fazer tudo quanto os mais novos. (Quase, homessa). Minhas filhas ficam me atazanando o juízo, dizendo o que posso ou não, que estou velho, que já passei por inúmeras crises, que devo parar de trabalhar, que tenho que ficar na cadeira de balanço. Pois fiquem sabendo: só uso o pijama para ir ao banco. Na fila dos novos! Para ir ao trabalho, uso calça de brim, tênis e visto camisa colorida, quase do tipo daquelas de turistas do Havaí.

Voltando ao Protocolo de Sobrevivência na atual crise epidêmica, estou envolto em bolha imaginária, cercado de crianças da vizinhança - cerca elétrica, mantendo crianças longe - lambuzado de álcool gel, sem máscara ou luvas, fico com dificuldade em trabalhar.

O silêncio aqui em casa é quase uma tortura. Tô longe do barulho da redação, dos gritos, som dos aparelhos de TVs e rádios, telefones tocando ao mesmo tempo, atendendo aos leitores que sempre têm razão e querem soluções que os governantes não dão...Esse silêncio de casa, ouvindo os pássaros que vêm comer alpiste que jogo no quintal, é terrível, um horror. Mas a chefe mandou eu praticar o home office. Como desobedecer? Me sinto no exílio - eu sei como é isso, o Hélio Fernandes me contou - com a televisão, computador, celular e o telefone fixo me mantendo ocupado. Descobri que eu sou um perigoso ser, sujeito a adquirir e repassar a Covid-19, ou quase um agent provocateur. Mas, cá estou, internado em casa, em "quarentona": uma pequena alusão à idade da patroa. Entenderam?

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O DiaFaça uma contribuição

Comentários