Tenho plano de fuga

Por O Dia

Cá estamos, cada um em sua caverna. Parece que vamos continuar por algum tempo, ainda. Cavernas com ar condicionado, outras sem, algumas com dez pessoas, outras com apenas uma ou duas. Tudo dependendo do seu bolso, disposição ou mesmo do seu destino, ou praga. Chega, basta de Covid-19 !

Para encerrar de vez esse assunto, só queria lembrar aos amigos que, se aparecer alguma autoridade dizendo que gelo cura esse mal, vai faltar gelo nos Polos (Sul e Norte) e, alguém vai falsificar o "produto". Ah, não esqueçam que já venderam terreno na Lua (bom lugar para se morar, e ficar livre de várias pestes, enquanto não chegamos definitivamente por lá).

Isso posto, e lembrado, vamos à luta que o tempo é curto e estou tentando, desesperadamente, fugir de casa, das brigas conjugais, disfarçado de astronauta. Já bolei meu plano. Só falta resolver se vou de trem, metrô, ônibus, van, táxi, aplicativo, bicicleta, patinete,motocicleta, a pé ou Segway.

Não lembram desse último? Pois foi inventado em 2000, por um sujeito chamado Dean Kamen, em Nova Iorque, e muito usado por seguranças em shoppings aqui no Brasil. Duas rodinhas, movida à bateria elétrica, e você pilota em pé, Lembraram?

Dean morreu quando despencou de pirambeira com seu invento. Será que não tinha prática ou carteira de motorista ?

O meu plano, como todo bom plano de fuga, tem tudo para dar certo. Conversei com o Fred, o meu amigo e vizinho suíço, cara inteligente e prestativo. Ele ficou boquiaberto no início do papo. Depois, - afastados dois metros um do outro, com um litro de Steinhaeger no meio - diante do croqui que mostrei, puxou uma cigarrilha, acendeu, pensou e, pasmem, aprovou. E se interessou.

Meia hora de conversa, e dois terços de Steinhaeger da garrafa consumidos, Fred não resistiu. Ele, assim como eu, mora com a mulher, e mais ninguém. Mais de duas semanas confinado e o cara se apresentou como voluntário: -"Posso ir com você na "retirada estratégica ?" -. Claro que concordei.

Gente, como ele é organizado. Mostrou uma engenhoca, que poderia passar como sendo a mochila do oxigênio usado pelos astronautas. "É para armazenar a bebida e comida", explicou com os olhos sorrindo. E foi remexendo em um baú de madeira, guardado no fundo do galpão que ele mesmo construiu na casa dele. Parecia um mágico tirando coelhos da cartola. Tinha de tudo naquela arca. Capacetes de motoqueiro, botinas das mais variadas, agasalhos de couro e de nylon, calças tipo bombacha de couro, um urinol de ágata, cantil, ferramentas,e o diabo a quatro. Um tesouro...

Deu para montar dois macacões para viajantes do espaço.. E ainda sobrou apetrechos. Uns ajustes, vestimos os trajes e, meus Deus, apareceu mulher dele, a Hélia. Ela nos viu com aquelas roupas. Não entendeu nadinha. E viu a garrafa da bebida, quase vazia. Aliás, eu explico: Steinhaeger é um bidestilado forte, aromatizado com zimbro esmagados com grãos de trigo. Foi inventado no Século XV, na aldeia de Steinhagen, na Vestfália, hoje Alemanha. É uma bebida que deixa o freguês em órbita, literalmente um verdadeiro astronauta... Entenderam ?

Bem, as explicações estapafúrdias não convenceram a mulher. Mas, Hélia, riu e caiu fora. Foi difícil conseguir sair das vestimentas sem danificá-las. Bem de qualquer maneira, avançamos no plano e já tínhamos meio caminho percorrido nos preparativos. Uns poucos detalhes e logo poderíamos partir rumo ao desconhecido. E foi nesse ponto do plano que caímos na real. A fuga estava certinha. Só faltava o gran finale: escapar da quarentena - já se vão mais de quinze dias - e das reclamações das patroas nas 37 horas do dia - mas, Céus, lembremos que o mundo inteiro está infectado ! A triste realidade: fugir para onde ?

 

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