Loucuras medievais e atuais

Por O Dia

Lá pelos idos de 1200, se não me falha a memória, o Papa Gregório IX, mandou ver com a famigerada Inquisição. Será que ainda tem alguém por aí que lembra? O negócio era acabar com as heresias, bruxarias e outras ias que existiam na época. O nome da coisa é "Licet ad capiendos", endereçada diretamente aos Dominicanos. O Santo Homem pegou o laptop e mandou emails, telegram, zaps, vídeos para os padres daquela Ordem e ficou aguardando os retornos. Os Dominicanos, depois de confirmarem as mensagens, ficaram encarregados das investigações, julgamentos e as inevitáveis condenações dos acusados. Se houve casos de absolvição? Não sei. Sei que, de quebra, o Papa em questão, não se sabe o porque, enviou anexo, com desenho de um animal, um gato, com ordem expressa, em vermelho púrpura, avisando que os bichanos deveriam ser eliminados da face da terra. O bicho, na visão do religioso, era a ligação entre o homem e o pecado, ou as bruxas. Então, você deveria chamar a milícia dominicana e o problema seria eliminado. E quem tivesse um inimigo, um credor chato, um agiota impiedoso ou um vizinho inoportuno entrava com o nome dele no pacote da delação, apontando o cara. O que nunca foi explicado: havia recompensa?

Essa lembrança chegou até a minha caverna porque fiz a ligação das delações premiadas da nossa quase esquecida Lava Jato. Uns detalhes levam a outros detalhes. A maioria dos amigos, parentes, conhecidos, leitores, reclamavam — eu também — que o cara era pego desviando dinheiro. Depois de condenado, conseguia sair do xadrez ganhando o benefício da prisão domiciliar. Entenderam agora? Prisão domiciliar dos condenados pelo Moro, para nós que achávamos que os caras estavam numa boa, com regalias, no aconchego do lar... Entenderam, mais ainda? E, agora, quem está em prisão domiciliar, também? Estamos numa boa? No aconchego do lar? Tudo maravilhoso, sem ter que ir ao trabalho, ajudando nos afazeres domésticos, trocando fraldas, lavando pratos, cozinhando... Já aprendi a cozinhar ovos (é só esperar a água secar que os ovos estão cozidos). Coloca a roupa na máquina, tira a roupa da máquina e estende na corda. Ih, tem que passar a roupa! Quem fica com o controle remoto da TV? Quem escolhe o canal? Quem confessa que está aprendendo a fazer tricô? Não catei as folhas do quintal. Prisão domiciliar é o fino de chique.

Tô pensando na vida dos presos da Lava Jato. Desses inúmeros que estão cumprindo a pena de 20, 30 anos, em casa. Até daquele ex-juiz, o Nicolau lalau, lembram dele? Deu um desfalque na construção do prédio do Tribunal do Trabalho, em São Paulo. Nos jornais da época que ele passou para o regime domiciliar, os colegas da imprensa faziam plantão na porta da mansão dele. Os jornalistas descobriram que a comida que mais chegava, pelo delivery, era pizza. Desconfio que o Nicolau não aprendeu a cozinhar. Mas continuamos a ver, com certa inveja, outros presos no mesmo regime. Casarões em condomínios na Barra da Tijuca, ou na Região Serrana do Rio de Janeiro. Só mansões. E imaginávamos a vida boa que eles estão gozando. Mas cá entre nós, depois de cinquenta dias em quarentena, trancados em apartamentos, ou casas, ainda continuamos a pensar a mesma coisa? Desculpem. Vou interromper a prosa porque preciso atender, lá no portão, o delivery das verduras. O som do funk do vizinho continua bem alto. Longe, bem longe, vem outro som, é de uma nova igreja. Tá lembrando das máscaras, do álcool. Caramba, o médico mandou que eu ficasse longe do álcool. Mas a patroa tá tal qual veio ao mundo: aos berros!

 

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