O ferro de passar movido a carvão virou churrasqueira

Preparei um bife de carne moída, só temperado com sal, usei uma velha peneira de aço e acendi o carvão vegetal. Mas foi um sonho, acordei suando em bicas, nervoso e com a patroa me sacudindo

Por O Dia

Improviso, miséria, crise, egoísmo, pandemia. Pesadelo? Vamos deixar o questionamento pra depois. De tanto ver programas culinários na televisão, deu vontade de comer churrasco. Mas, aqui na minha caverna, são apenas dois habitantes. A patroa tá de dieta. Então, para não usar a enorme churrasqueira, daquelas com chaminé, da varanda, resolvi apelar para o improviso. Peguei o ferro de passar roupas - maxambomba, é o apelido dele - do tempo da bisavó, aquecido a carvão, lembram? E mandei ver na varandinha do quarto.

Preparei um bife de carne moída, só temperado com sal, usei uma velha peneira de aço e acendi o carvão vegetal. Nunca fui escoteiro. Fui soldado temporário do Exército, já que é obrigatório servir à Pátria. E foi aí que aprendi a me virar. Mas, já faz muito tempo...

Mas, vamos ao churrasco, individual, antes que queime. Afinal, o bife é pequeno, a 'churrasqueira', idem, mas a reclamação da primeira dama da Água Santa é enorme. Questiona tudo. Esbraveja mais que os vizinhos da proa, da popa, de bombordo e de boreste. Se fosse muda, já tinha pulado da Ponte.

"Vai sujar o chão, tá pingando gordura nas paredes, a casa tá cheia de fumaça, vai fazer isso no quintal! Tem churrasqueira na varanda pra enfeite? Enlouqueceu com o confinamento? Vai limpar toda a bagunça que tá fazendo. Ah vai..."

Mas, como sou surdo por conveniência, vou cuidando da carne na brasa, no capricho, já preparando o pão de alho. O refresco de groselha já tá pronto. Tô usando a mesa do computador como ponto de apoio e, pasmem: o vizinho de boreste, o Jorginho - viúvo desde o mês passado, quando a covid-19 levou a mulher, a Aninha -, gritou lá do quintal dele: "Tem churrasco, tô dentro! Já levo a cerveja e a caipirinha!".

Céus, que horror. Como dividir o pequeno bife? Tô economizando o gás, a carne, a groselha e as visitas. Impossível a privacidade no subúrbio. O grito do Jorginho serviu de alerta para os vizinhos da proa e o de bombordo. Caramba. Só falta o vizinha da popa. E que não demorou a escutar o alerta de churrasco: "Tô indo, levando mais cerveja!". Oh, céus. Tô cercado. A patroa entrou em pânico e saiu procurando o Rivotril. Caramba, vai virar festa. (de quê ?).

Que sinuca de bico eu me meti. Me senti como Napoleão, quando suas tropas foram cercadas na Batalha de Waterloo, em junho 1815. Lembram? Foi quando Napoleão perdeu a guerra e o título de Imperador. Que sinuca. Igualzinha a minha batalha do bife de carne moída na brasa, feito no ferro a carvão. Bem, só me restou pedir clemência. Peguei a 'churrasqueira', corri para o quintal e esperei a tropa inimiga chegar.

Congestionamento no portão da garagem, exigi distância de dois metros de cada 'inimigo', todos com máscaras. E mostrei o fabuloso e farto churrasco. Xingamentos, discórdia, quase confusão. Decepção geral.

Mas, o vizinho da popa, o Gordinho, não desistiu. Gritou para a mulher dele, a Fernanda, e decretou: "Ô mulher, traz a churrasqueira, mais carvão, aquela costela de boi, inteira, e mais cerveja! Ah, faz aquele molho arretado para jogar na carne!".

Céus, cadê o isolamento social? Não façam festas. Fiquem em casa, lavem as mãos com água e sabão. Juro que pensei em chamar a PM, a Guarda Municipal, a Vigilância Sanitária. Mas, dizer o que? Se eu estava no crime, no meu quintal, cercado de vizinhos, participando da desobediência ao decreto da Prefeitura do Rio, tava no crime também.

Logo apareceu o Fred, o suíço amigo-vizinho. Ele trouxe a garrafa de Steinhaeger. Viva a esbórnia. Amigas, amigos, vizinhos e meus poucos leitores, calma. Foi um sonho. Acordei suando em bicas, nervoso e com a patroa me sacudindo: "Você tava chamando os bombeiros!!!". Gritei pelos bombeiros porque, mesmo dormindo, senti cheiro de fumaça. A patroa havia deixado queimar torradas que estavam no forno...

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