Cobertura de Museu Nacional seria vetada por seguradoras, diz especialista

Especialista em Gestão de Risco diz que apólices seriam vetadas por causa das péssimas condições de conservação de prédio destruído por incêndio

Por Herculano Barreto Filho

Incêndio destrói acervo e prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boavista
Incêndio destrói acervo e prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boavista -

Rio - O incêndio que destruiu o Museu Nacional expôs a precariedade na estrutura de prédios históricos no país. Mas também colocou em evidência o abandono e a inexistência de políticas públicas para conservar a memória do país. Sem seguro e brigada de incêndio, o museu teve 90% do seu acervo consumido pelas chamas. "Não existia aqui no museu e acredito que em nenhum outro museu exista uma brigada de incêndio. Este é um 'custo a mais'. Nenhuma peça era assegurada que eu saiba", afirmou Cristina Serejo, vice-diretora do museu, em entrevista concedida ontem de manhã.

Um cenário que não surpreende quem atua no ramo. Sérgio Ricardo de Magalhães Souza, professor da Escola Nacional de Seguros e especialista em Gestão de Risco, acredita que uma eventual cobertura nesse tipo de local seria vetada pela própria seguradora. "Existe uma obrigatoriedade de seguro por lei. Como a administração pública está vinculada à lei das licitações, é preciso construir um edital para cotações. Mas isso não quer dizer que uma seguradora vai cobrir um local em péssimas condições", argumenta.

Incêndio destruiu Museu Nacional - Alexandre Brum

ÁGUA QUE APAGA A HISTÓRIA

Para o especialista, combater o incêndio com água, o único recurso disponível, mostra o despreparo para lidar com a situação. A primeira etapa é detectar o calor e a fumaça para agir rapidamente, o que não ocorreu porque o pé direito do prédio é muito alto. Em seguida, o ideal seria utilizar extintores de incêndio, que não estavam disponíveis no local. "A primeira ação de combate a incêndio em museu não é água. O uso do gás carbônico dos extintores, por exemplo, não deixa sequelas no local. Se o fogo não puder ser controlado dessa forma, aí sim entra a água. Mas é o pior dos recursos, porque não permite a preservação", explica Sérgio Ricardo.

Peritos da Polícia Federal realizam perícia no Museu Nacional - Armando Paiva

INEXISTÊNCIA DE CÓDIGO NACIONAL DE INCÊNDIO

O especialista critica a inexistência de um código nacional de incêndio capaz de adotar medidas de preservação do patrimônio público. "Se não tem gerenciamento de risco, não tem seguro. Estamos falando de um negócio, que envolve proteção financeira. Nenhuma seguradora se interessaria em fazer seguro para um lugar que está caindo sozinho. Aquele prédio de 200 anos com uma estrutura cheia de instalações elétricas improvisadas e produtos inflamáveis não tinha as mínimas condições para abrigar um acervo histórico", critica.

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Incêndio destrói acervo e prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boavista Alexandre Brum / Agência O Dia
03/09/2018 - suíte do Incêndio que destruiu acervo e grande do prédio do Museu Nacional da Quinta da Boavista, em São Cristovão, Rio de Janeiro, Brasil. Na imagem, funcionários do museu choram diante de tamanha destruição. Foto de Alexandre Brum - CIDADE POLICIA INCÊNDIO FOGO BRAZIL CULTURA EDUCAÇÃO Alexandre Brum
Agentes da Polícia Federal fazem perícia no que restou do Museu Nacional, para identificar as causas do incêndio. Cobertura será providenciada para proteger o que sobrou Armando Paiva

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