Surfe sob a luz do luar é a grande onda no Arpoador

Tem menos gente na água e ausência de efeitos negativos do sol forte, dizem surfistas

Por thiago.antunes

Rio - Logo que o sol ameaça se despedir, as águas claras do Arpoador se encontram com as pranchas dos surfistas noturnos. O mar de ondas perfeitas é o preferido de quem escolhe a luz do luar para testemunhar a prática do esporte.

Surfista profissional há 16 anos e instrutor há nove, Marcelo Bispo, o Preto Louro, de 33 anos, aproveita a tranquilidade do fim de tarde para treinar e recarregar as baterias. “Durante o dia são mais de 300 pessoas na água. É muita gente! A noite é menos concorrido, com cerca de 100 surfistas por volta das 20h”, diz. Ele percebe mudanças nas ondas noturnas, mas aprova a prática mesmo assim. “Fica um pouco mais difícil porque é mais escuro”, conta.

A madrugada também atrai os apaixonados pelo mar. “Tenho amigos que chegam às 2h e ficam até as 4h”, comenta Bispo, explicando que a praia é ideal para o surfe porque tem ondas para todos os gostos — de experientes a iniciantes — com picos que chegam a até 3 metros e meio de altura.

Tem menos gente na água e ausência de efeitos negativos do sol forte%2C dizem surfistasMaria de La Gala / Agência O Dia

Logo que deixa o escritório, a administradora Sabrina Santos, 27 anos, que pratica o esporte há um ano, corre para o Arpoador. “Chego cedo no trabalho e só posso surfar à noitinha. Gosto mais porque não tem o sol forte que incomoda”, avalia.

Outra vantagem é não precisar aplicar o protetor solar. “Saio do mar para passar o filtro de hora em hora de dia. À noite não tem esse problema”, afirma ela, que destaca outro benefício: “Como tem menos gente, pego mais ondas. É mais livre. De dia fica mais complicado ter a sua vez”, acredita a moça. Ela reforça mesmo é o cuidado com pele e cabelos, abusando do hidratante.

Aos 25 anos, o free surfer profissional — surfista que não participa de competições — Ian Cosenza, é fã das famosas ondas que só aparecem no Arpoador. “Quando chega o ‘swell de leste’ o pessoal aproveita mesmo até mais tarde”, explica empolgado sobre o conjunto de ondulações que se formam a partir do lado leste da praia.

Bispo lembra que é preciso ter mais atenção%2C mas a Pedra do Arpoador tem iluminação especial para a prática do esporte desde 1989Maria de La Gala / Agência O Dia

“Nessa época do ano não duram muito, uns três dias em média. No inverno é mais frequente”, explica o rapaz, que curte a boa maré até altas horas da noite. Ian também dá aulas e indica a região para os que querem se aventurar no esporte. “O Arpoador é bem democrático. Sempre tem lugar para todos brincarem e se divertirem”, afirma.

Campeonato noturno fora dos planos

O surfe no Arpoador teria começado com um grupo de mergulhadores liderados por Arduino Colassanti, na década de 1950, segundo o surfista e administrador Rafael Cury, de 37 anos, um dos fundadores do Arpoador Surf Club (ASC).

“Em 2003 e 2004 a região estava abandonada, suja e os moradores apavorados com a violência”, relembra Cury, que iniciou o ASC com três amigos, os surfistas Bruno Coutinho, Leonel Brizola e Guilherme Aguiar.

“Além disso, não aconteciam mais eventos do esporte, o que foi sempre importante para o lugar considerado berço do surfe brasileiro”, diz. Entretanto, campeonatos noturnos não fazem parte dos planos. “Não sei se seria possível porque um evento como esse faz barulho e incomodaria moradores que querem dormir tranquilamente. A associação não tem interesse em criar conflitos”, pondera.

A região é considerada ideal para o surfe porque a pedra e seu entorno criam um fundo perfeito. “No inverno, as ressacas de sudoeste deslocam a areia em direção a pedra, deixando mais raso”, esclarece. Cury explica que a ondulação arrebenta mais longe do que a maioria das praias, formando ondas longas e perfeitas. 

Experiente, deixa uma dica para manter a paz na região: “Respeite os locais de dia e de noite e espere a sua vez, independente do seu nível de surf”, completa.

Iluminação é especial

A Pedra do Arpoador, em Ipanema, é tombada pelo Patrimônio Cultural Municipal desde setembro de 1989, ano que ganhou a iluminação que permite a prática do surfe noturno. O local foi fundamental para escolha do Rio como Patrimônio Mundial pela Unesco, por sua paisagem cultural urbana.

A Rioluz mantem nove projetores de 1.000w em três postes de 17 m de altura distribuídos na orla da praia. Na pedra, há mais um poste de 20 m com 22 projetores, também de 1.000w cada, permitindo a prática do esporte.

Reportagem de Larissa D'Almeida

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