
RIO - Alô, povão, agora é sério! Com as 14 escolas do Grupo Especial do Rio já com seus sambas eleitos para 2019 a última foi Imperatriz Leopoldinense, na quarta-feira , começa a disputa antecipada de quem se sairá melhor na Sapucaí. Especialistas ouvidos pelo DIA falaram de suas primeiras impressões. Houve, por exemplo, quem torceu o nariz pelo fato de duas escolas Paraíso do Tuiuti (a vida do Bode Ioiô, sertanejo eleito em 1922 em Fortaleza com votos de protesto) e Grande Rio (com enredo sobre maus hábitos e falta de educação) terem encomendado seus sambas, e Beija-Flor (com tema voltado para seus 70 anos) ter juntado dois, de autores diferentes, num só. Também não se empolgaram com São Clemente, que reviverá 'E o samba sambou', de 1990.
"É prematura uma avaliação mais profunda. Mas notei que os sambas de 2019 apresentam qualidade. Na média, temos uma safra inferior a 2018, quando de cara três sambas nasceram clássicos: o da Mocidade, do Paraíso Tuiuti, e o da Beija-Flor", opina o jornalista e crítico de Carnaval, Fábio Fabato.
O pesquisador e também jornalista dedicado ao Carnaval, Aydano Motta, vai ainda mais além. "A qualidade deixa a desejar. Mas pode ser que alguns melhorem na voz de seus intérpretes originais", pondera. "Estão meio fracos", concorda Maria Alves, estudiosa de temas carnavalescos.
"A Grande Rio encomendou o samba, de gosto duvidoso no seguinte trecho: 'quem nunca sorriu da desgraça alheia?'. A União da Ilha elegeu composição (sobre o Ceará) confusa. Já Império Serrano traz um samba que não é samba: a canção 'O que é, o que é?', de Gonzaguinha, com partes complicadas para 4 mil componentes", justifica Fabato. Na Viradouro, o carnavalesco Paulo Barros terá missão extra de "dar um gás" no samba alusivo a seres e poderes extraordinários, assim como Edson Pereira, na Vila Isabel (sobre Petrópolis).
Para Aydano, a encomenda do samba acaba minando muitas atividades culturais durante o ano. E reviver sambas passados, segundo ele, "quase sempre resulta em desfile frio".
MANGUEIRA TEM O FAVORITO
Os analistas, porém, são unânimes: o samba da Mangueira é, "disparado", o melhor. 'História pra Ninar Gente Grande' é um enredo de conteúdo histórico que olha para lideranças populares que não tiveram suas lutas eternizadas nos livros escolares. Como o trecho do samba diz, é "a história que a história não conta."
"Nele, os compositores encontraram uma possibilidade de homenagem à vereadora Marielle Franco (assassinada a tiros em 14 de março deste ano, no Rio, junto com o motorista Anderson Gomes)", ressalta o carnavalesco Leandro Vieira.
O refrão "Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês" , explodiu nas redes sociais, logo após seu lançamento. A canção é de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Sílvio Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino, Victor Nunes, Leonardo Machado, Márcio Xavier e Carlinhos Alberto. A maior parte do grupo é de Volta Redonda.
"O samba da Mangueira consegue a proeza de ir além do ótimo enredo, que trata da história, digamos, não oficial do Brasil. Agrega o grito quase unânime do país pela solução do crime. A escolha foi um ato político emocionante", lembra Fabato. "Estamos vivendo uma emoção indescritível", resume Victor Nunes, um dos autores.
Além da Mangueira, outras escolas dão pinta de que poderão sacudir a Avenida Marquês de Sapucaí no ano que vem, com obras vigorosas, como Mocidade (o homem e o tempo), Salgueiro (Xangô, Orixá da Justiça), Portela (a trajetória de Clara Nunes, uma divindade para a agremiação), e Unidos da Tijuca (história do pão).
Nas escolas de samba, o sentimento geral é de que é cedo para se levar análises em consideração e que certamente a tendência é melhorar o desempenho com ensaios nas quadras e nas ruas.




