Imperatriz fará festa de rico e de pobre na Sapucaí

Escola vai usar o dinheiro como crítica bem-humorada à desigualdade

Por *Luana Dandara

Carnavalesco Mário prepara uma série de surpresas: um dos carros fará uma sátira a Eike Batista -

Rio - A Imperatriz Leopoldinense vai criticar, de forma bem-humorada, as faces da desigualdade social na Sapucaí. Em uma alegoria de sete metros de altura, a escola de samba representará uma festa da alta sociedade carioca, com direito a automóvel de luxo exposto na sala para os convidados, uma sátira ao empresário Eike Batista. Do outro lado do carro alegórico, a classe baixa fará sua comemoração na laje da favela, como nos típicos bailes funks da cidade.

Com o enredo 'Me dá um dinheiro aí', a Verde e Branca ainda passará pelo período da escravidão, quando os negros foram vendidos como mercadoria, lembrará folclores do cofre do porquinho e do personagem Tio Patinhas, milionário pão-duro, até chegar ao bitcoin, moeda virtual em crescimento. Segundo o carnavalesco Mário Monteiro, 82 anos, que divide a função com a irmã Cacá Monteiro, 64, a grande ironia é falar do dinheiro no momento em que o Carnaval passa por seu maior período de crise financeira. "Está sendo um trabalho desafiador, a relação do ser humano com o dinheiro é um enredo inédito no Rio. Estamos reaproveitando e otimizando todo o material que podemos para economizar", contou ele.

No carro alegórico do navio negreiro, que transportava escravos da África até a América, por exemplo, as cordas foram feitas com resto de tecidos, assim como o figurino dos integrantes da bateria, onde foi utilizada a técnica do patchwork (trabalho com retalho, em português).

O dinheiro curto, entretanto, não impedirá a agremiação de brincar. "O brasileiro goza da própria desgraça. Tudo será contado de forma metafórica, divertida. É hora de botar a tristeza na gaveta e tirar a alegria do armário, porque é Carnaval!", reforçou Mário.

Outro personagem que ganhará destaque no desfile é o herói Robin Hood, que roubava da nobreza para distribuir aos pobres. Já o abre-alas ficará por conta da lenda do Rei Midas. Ganancioso, ele desejou transformar em ouro tudo o que tocasse. Por fim, nem a filha acabou escapando.

No último sábado, o carro, que terá o dedo de ouro apontando para a Avenida, se movimentou e rompeu o portão do barracão da escola em um acidente na Cidade do Samba. Não houve feridos.

A parte histórica da invenção da moeda não será deixada de lado, assim como o questionamento 'Dinheiro compra amor?'. Para o carnavalesco, que está de volta à Imperatriz após quatro anos, a temática gera a identificação do público. "A falta de hospitais, desemprego, aumento da violência, corrupção, entre outros problemas, acontecem por conta do dinheiro. Está difícil para todo mundo", disse.

Com seis carros alegóricos e dois tripés, a agremiação de Ramos está com 70% do seu Carnaval pronto e vai desfilar com 3,2 mil componentes.

54 anos de carreira no Carnaval

No comando da agremiação, o carnavalesco Monteiro, que começou a trabalhar na folia em 1965, na Mocidade, está ansioso pelo desfile. "São as mesmas emoção e insegurança de quando estreei. São muitas variáveis, na véspera nem durmo preocupado com as circunstâncias e com o que os jurados vão pensar. Essa festa é feita na base da emoção", concluiu.

Pelo segundo ano consecutivo, a capitã do Corpo de Bombeiros Flávia Lyra, de 29 anos, assume o posto de rainha da bateria da Imperatriz Leopoldinense. Após diversos carnavais resguardando desfiles de possíveis incêndios, a morena atualmente concilia samba no pé com o trabalho na corporação.

Classificada em oitavo lugar no ano passado, a Imperatriz investe na descontração e espontaneidade para levantar o público neste ano. A escola de samba será a penúltima a entrar na Avenida no domingo de Carnaval.

*Estagiária sob supervisão de Angélica Fernandes

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