Alegoria vai ironizar luxos dos camarotes da Sapucaí.
Alegoria vai ironizar luxos dos camarotes da Sapucaí. "Tocam tudo menos samba", disse o carnavalescoFOTOS DE MÁrcio Mercante / AgÊncia O Dia
Por *Luana Dandara

Rio - A São Clemente quer resgatar sua identidade crítica e irreverente neste Carnaval. Ao reeditar o enredo de 1990, 'E o samba sambou', a agremiação de Botafogo não poupará alfinetadas em compositores de samba-enredo mercenários, rainhas de baterias egocêntricas e a própria Prefeitura do Rio, que cortou metade da verba para a festa este ano. Para fazer barulho, os 13 carnavalescos da Série A vão desfilar em uma alegoria inacabada propositalmente.

O quinto e último carro da escola, explica o carnavalesco Jorge Silveira, será totalmente de ferro e vazado. "Vou brincar com a ideia de que ele está inacabado, não terminei porque a verba não chegou", disse ele, que terá os outros carnavalescos como aliados. "Ali o grito será mais alto. Se estamos sofrendo no Especial, imagina eles no Acesso. Terão faixas amarradas de 'Alô prefeitura, cultura é investimento!' para que o prefeito entenda que o Carnaval é importante", ponderou Jorge. Porém, a figura direta de Marcelo Crivella não será representada, pois segundo o profissional, "daria azar".

O foco dado em 90 ao Carnaval comercial será mais uma vez ressaltado. "Há um hiato de 29 anos entre os dois desfiles, e as escolas trataram de criar vários problemas. Mas o dinheiro na influência das decisões da festa permanece", pontuou Silveira. Em uma alegoria do 'Escritório do samba', um cartola de 12 metros de altura, equivalente a um prédio de quatro andares, sairá de um cofre, alusão aos dirigentes poderosos que comandam a criatividade da folia.

Ícones do Carnaval, sambistas, baianas e porta-bandeiras também serão pendurados com preço. "Um robô comandará o carro, ironia aos compositores que fazem samba mecanicamente. Hoje, o poder financeiro orienta as disputas de samba-enredo, o que faz com que as composições fiquem cada vez mais encaixotadas, repetitivas. Na nossa linguagem boi com abóbora", lembrou o carnavalesco.

Já o abre-alas, composto por dois carros acoplados, será guiado por uma câmera, lembrança ao hino deste ano, também reeditado, "virou Hollywood isso aqui". Atrás, a escultura de uma rainha de bateria tirando selfie. "A Sapucaí se mostrou um grande palco para a mídia, um espetáculo para projetar as celebridades em detrimento aos verdadeiros construtores da festa, que são os sambistas e a comunidade", disse Jorge.

A vaidade dos carnavalescos virá representada por uma alegoria de pavão, e o rei das fantasias Clóvis Bornay ganhará homenagem. O luxo dos camarotes não escapou das mãos do carnavalesco, que está em seu segundo ano na São Clemente. "No momento de crise financeira, de representatividade e com o público, reviver esse Carnaval é uma forma de alerta, de abrir os olhos da própria comunidade do samba pros passos errados", afirmou. "Se tiver uma enquete se o governo deve dar dinheiro pros hospitais ou pras escolas, não tenho dúvida que o povo não vai entender que investir no Carnaval gera renda pra saúde", acrescentou.

Para lidar com o corte de verbas, Silveira mostrou experiência: reduziu o número de alegorias em relação a 2018, cortou tecidos pesados e plumas, abusou dos materiais do almoxarifado e adiantou o planejamento. O resultado é um barracão colorido e no prazo. "Pensei estrategicamente o pouco recurso", assinalou.

*Estagiária sob supervisão de Angélica Fernandes

Você pode gostar
Comentários