Magia invade o Sambódromo

No primeiro dia de desfiles do grupo especial a chuva voltou a castigar a cidade. Império trouxe Gonzaguinha e as bruxas da Viradouro 'encantaram' a avenida

Por MARTHA IMENES

Carnaval 2019 - Desfile da Escola de Samba do Grupo Especial G.R.E.S. Unidos do Viradouro, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no centro da cidade do Rio de Janeiro neste domingo(03).Foto: Luciano Belford/Agência O Dia
Carnaval 2019 - Desfile da Escola de Samba do Grupo Especial G.R.E.S. Unidos do Viradouro, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no centro da cidade do Rio de Janeiro neste domingo(03).Foto: Luciano Belford/Agência O Dia -

Rio - O destaque inicial do desfile das escolas de samba do grupo especial no Sambódromo ontem foi a chuva, que mais uma vez atrasou um dos maiores espetáculos da Terra. Com atraso de 45 minutos, o Império Serrano entrou na Marquês de Sapucaí. Com o samba O Que É, O Que É?, lançado por Gonzaguinha em 1982, e enredo de mesmo nome, a agremiação levantou a Sapucaí.

A Verde e Branca levou uma reflexão sobre a vida para a Sapucaí. A comissão de frente impressionou o público, onde os componentes se apresentaram fantasiados de mendigos. Um dos destaques do desfile foi uma inovação apresentada pelo carnavalesco Paulo Meneses: o posicionamento do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Diogo Jesus e Verônica Lima dançaram e defenderam o pavilhão da escola em cima de uma alegoria.

Também chamou atenção a ala das damas, onde componentes tinham a imagem de Dona Ivone Lara na fantasia, em homenagem à Grande Dama do Samba, que morreu no ano passado. Um carro também levou a imagem de Dona Ivone na coroa-símbolo do Império.

De volta ao posto de Rainha de Bateria após cinco anos, Quitéria Chagas estava linda e não se intimidou com a água da chuva na Sapucaí, apostando num calçado especial. “Tem antiderrapante com ranhuras para segurar. Mas gosto da sensação de deslizar na Avenida. Então, a água para mim é benéfica. Quando desliza, eu faço aquela malandragem do samba antigo, aquele riscado, aquele sambinha de lado. Amo sambar na chuva".

Bruxas invadem a Sapucaí no desfile da Viradouro

A Unidos do Viradouro, segunda escola a entrar na Sapucaí, trouxe o enredo Viraviradouro que, segundo o carnavalesco Paulo Barros, vai enviar uma mensagem que remete ao mundo infantil. Logo na Comissão de Frente, um menino sob os protestos da avó abre um livro e dele saem bruxas, caldeirões e um mundo de faz de conta, onde príncipes viram sapos diante da princesa, representada pela drag queen Suzy Brasil. De rosa, a avó, conduz todo o enredo, que passa por poções mágicas, caldeirões, personagens de Walt Disney como a Bela e a Fera.

E um efeito que deslumbrou a arqubancada: bruxas voavam em uma evolução que encantou os espectadores. De acordo com Paulo Barros, que voltou à escola de Niterói, após 11 anos, o intuito da mensagem é mostrar que é possível renascer das cinzas".

E a chuva não intimidou o carnavalesco da Viradouro, Paulo Barros, que voltou à escola de Niterói, após 11 anos em outras agremiações. "Estou 40% mais tranquilo e 60% nervoso, diz. "As pessoas tem mania de dizer que a chuva vem para abençoar. Abençoar é o cacete, mas vamos encarar. A escola tem 2.900 componentes e vem com os detalhes bem trabalhados", conta Paulo Barros.

O carnavalesco diz que não é pela sua marca, mas um trabalho de toda a escola. Ele acrescenta que sua expectativa é sempre de provocar diferentes sensações no público. "Trabalhamos para que problemas não aconteçam. Estamos com o carnaval bem tranquilo. A expectativa que eu sempre tenho é a de encantar as pessoas, de surpreender e causar diferentes sensações em cada pessoa", diz. E no que depender das bruxas, que permeiam todo o desfile, o encantamento vai correr solto.

Homenagem ao pai na avenida

E a música de Gonzaguinha foi o que levou uma família a desfilar pelo Império Serrano. As irmãs Ercília e Ana Paula Marques, veteranas que desfilam há 10 anos na Sapucaí, decidiram sair na escola por causa do samba-enredo, música preferida do pai, falecido há 11 anos. E levaram a estudante Beatriz Marques, filha de Ercília, a pisar pela primeira vez na avenida. "Se pudesse, desfilaria só com a camiseta da escola", comenta. As três desfilaram na quinta ala, a do judaísmo.

A chuva atrapalhou um bocado os componentes, que precisaram reforçar os adereços da cabeça com fitas e grampeadores. A fantasia do argentino radicado no Rio Grande do Sul, Daniel Gonzalez, 46 anos, precisou de ajustes. Mas, segundo a coreógrafa da Comissão de frente, Claudia Mota, os componentes estão preparados para desfile com chuva. "Ensaiamos várias vezes na chuva. Eles usam sapatos antiderrapantes. A rampa do tripé foi pintada com tinta antiderrapante", garante.

Mesmo sob a garoa que ainda teimava em cair, o casal Fabiana, 39, e Alex Ramos, 45, de Nova Iguaçu não desanimou. Eles chegaram as 17h45 e logo depois a tempestade desabou. "Nos refugiamos no viaduto e ficamos lá por uns 40 minutos. Não pensamos em ir embora", afirmou a dupla que foi ao Sambódromo assistir a Beija-Flor de Nilópolis.

Na arquibancada popular o vendedor de loja Rodrigo Fortuna, 42 anos, se queixou da falta de distribuição de letras dos sambas na arquibancada. "Como vamos cantar junto?", reclama.

(Colaboraram Beatriz Perez e Luiz Portilho)

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