Sem verba, Carnaval pode ter desfiles mais curtos no ano que vem

Dirigentes de escolas de samba reclamam que barracões estão parados, pois não há condição nem de pagar funcionários. Laíla sugere apenas três alegorias por agremiação

Por Luana Dandara

Há 33 anos no barracão da União da Ilha, Moisés Pereira, de 82, diz que nunca viu crise parecida e que a Cidade do Samba está um marasmo
Há 33 anos no barracão da União da Ilha, Moisés Pereira, de 82, diz que nunca viu crise parecida e que a Cidade do Samba está um marasmo -
Batido o martelo do Carnaval 2020. O prefeito Marcelo Crivella anunciou nessa sexta-feira que as escolas de samba do Grupo Especial e da Série A não vão receber nenhum recurso da administração municipal para o desfile do próximo ano. Em 2019, cada uma delas ganhou R$ 500 mil dos cofres públicos. A definição gerou reações negativas dos dirigentes das agremiações, que afirmam: a realização do maior espetáculo da Terra corre riscos.

"O Carnaval da Sapucaí não vai mais receber subvenção da prefeitura, que decidiu que não vai dar mais subvenção para nenhum evento que cobre ingresso", garantiu Crivella. Apenas as agremiações mirins e as que desfilam na Estrada Intendente Magalhães, nas séries B, C, D e E, continuarão com apoio financeiro.

Segundo o presidente da Portela, Luiz Carlos Magalhães, as agremiações estão acumulando dívidas. "A Cidade do Samba, em pleno setembro, está fantasmagórica, algo que nunca aconteceu antes. Não adianta, precisamos aguardar o momento em que nossa festa seja valorizada novamente. Mas a decisão em si não foi surpresa, o prefeito não gosta do Carnaval. Pelo contrário, não quer saber, não tem diálogo", ponderou.

O dirigente acrescentou que nem mesmo toda a verba do último desfile foi repassada. "Ainda falta uma parcela de R$ 50 mil, que foi prometida após a prestação de contas das agremiações. Já fizemos isso, mas nada do dinheiro chegar. A única coisa que espero do Crivella é esse repasse, que é um compromisso antigo", criticou Magalhães. Procurada, a Riotur defendeu que o repasse foi efetuado para as escolas que apresentaram a prestação de contas no prazo.

O presidente da Vila Isabel, Fernando Fernandes, entretanto, confirmou que esse dinheiro não chegou. "A parcela não foi paga. É até difícil de falar, mas a medida anunciada por ele é extremamente antipática ao povo. Nenhum prefeito tomou uma medida assim, é abominável. Crivella, Deus está vendo", ironizou. "Precisamos comprar as coisas, pagar os trabalhadores", completou Fernandes.

O vice-presidente institucional da Mocidade, Luiz Claudio Ribeiro, também criticou a falta de subvenção. "O prefeito iguala o maior espetáculo da Terra a uma atração secundária e mostra o desprezo com todas as agremiações. Não é somente com impostos que o Rio se torna uma vitrine para o mundo", reclamou.

Globo ainda não fechou contratos

Além do fim da subvenção da Prefeitura do Rio, uma outra conjuntura atrasa a montagem do Carnaval 2020. De acordo com uma fonte que pediu anonimato, o contrato com a TV Globo ainda não foi assinado. "São cerca de R$ 2 milhões parcelados para cada agremiação. O repasse começa, geralmente, em maio. Ou seja, as escolas não têm hoje nenhum centavo, porque os ingressos não começaram a ser vendidos e não entrou verba de transmissão", contou. Para piorar, como o maior aporte financeiro virá da emissora, as agremiações não poderão argumentar contra possíveis novas regras.

"A proposta da Globo seria diminuir o número de componentes para reduzir o tempo de desfile. Isso seria a extinção do Carnaval, as pessoas precisam ter o direito de brincar. Os presidentes vão precisar administrar essa questão", pontuou Laíla, diretor de Carnaval da União da Ilha. Procurada, a TV Globo informou, em nota, que negocia a renovação dos direitos de transmissão com a Liesa. "Não há um prazo específico para conclusão. No processo de negociação não existe imposição de qualquer restrição de caráter artístico ou de composição das escolas de samba".

"A verba municipal vai fazer muita falta. Assim como várias escolas, não começamos nada porque não tem dinheiro. Em tempos anteriores, em setembro já tinha projeto de alegoria sendo executado e fantasias sendo feitas. Hoje, o barracão está fechado", explicou Laíla. Moisés Pereira, 82 anos, trabalha há 33 no barracão da Ilha e garantiu que nunca viu nada parecido. "É triste, a Cidade do Samba está um marasmo. Rio sem sol e Carnaval não é o mesmo".
Repensar a festa

Laíla defendeu que neste momento de crise, após a polêmica virada de mesa e a retirada da subvenção municipal, é necessário repensar o formato do desfile. "Os dirigentes deveriam, juntos, pensar em apresentar três alegorias na Sapucaí. Isso baratearia bastante o Carnaval. O brilho da festa não é carro alegórico, mas, sim, os componentes através dos sambas-enredo", justificou o diretor de Carnaval da Ilha.

Escolas querem governo estadual na Sapucaí

As expectativas dos presidentes das escolas de samba estão voltadas agora para o governo estadual. "Contamos com o governador Wilson Witzel, é uma pessoa de bom senso", afirmou Fernando Fernandes, da Vila Isabel. "Ele tem uma atitude proativa, uma identificação com o Carnaval. Vamos ultrapassar esse momento difícil", completou Magalhães, da Portela.

Para o secretário estadual de Cultura, Ruan Fernandes Lira, o Carnaval é prioridade para a gestão. Ele preferiu, contudo, não comentar valores. "Vamos continuar apoiando a festa, como apoiamos este ano, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Quanto à prefeitura ir por um caminho contrário, eu acho uma pena, porque penso que o Carnaval é um investimento e não um gasto. Gera um retorno financeiro, cultural e social", defendeu.

Sobre a transferência do Sambódromo para o governo do estado, Lira explicou que os termos ainda estão sendo negociados com a prefeitura. "Em breve, acontecerá a assinatura e teremos o Sambódromo mais ativo, de volta para a população ao longo do ano todo. Estamos dando o suporte para que logo aconteça".

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