Maria Padilha fala sobre a experiência de ser mãe depois dos 50

Libertária e feminista, atriz diz que ainda vê muito preconceito contra as mulheres. 'A mulher com 50 anos é avó e o homem com 60 ainda é galã', conta

Por BRUNNA CONDINI | brunna.condini@odia.com.br

Maria Padilha
Maria Padilha -

Rio - Aos 58 anos e comemorando quatro décadas de muito trabalho no teatro, na TV e no cinema, Maria Padilha tem fôlego de menina. E a menina de Maria tem vivido bem nos palcos ultimamente.

"Acho que é o teatro que mais me alimenta até hoje. Fiz alguns filmes, novelas e trabalhos na TV que me alimentaram muito também. Mas o teatro é onde comecei e sou mais exigida, acho. Me alimenta muito", conclui.

Tanto que é lá que ela está se permitindo viver mais um desafio após tantos anos de trajetória: seu primeiro monólogo. A atriz está em cena, até 5 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil, com 'Diários do Abismo', uma adaptação de Pedro Brício para 'Hospício é Deus', primeiro livro da mineira Maura Lopes Cançado, quando esteve internada em clínicas psiquiátricas.

"O que mais me atraiu na história da Maura é a excelência da escritora que ela é, depois uma postura de muita liberdade. Ela olha a vida de uma maneira muito particular, original, radical, muito sem concessões. Acho muito interessante isso e também a lucidez", analisa.

"É uma história e tanto. Se o cinema pegar Maura, vai dar um filme lindo. Desde ela criança na fazenda, riquíssima, aristocrática, mimada, até ficar sem dinheiro nenhum e em hospícios do Estado, maltratada. Até ter tido um surto, assassinado uma pessoa e ter ido parar na prisão, porque não existia manicômio judiciário aqui. Então, ela foi parar na prisão, deixou de escrever. Enfim, acho a história dela toda muito atraente", esclarece sobre a autora, que fez um relato do horror dos tratamentos psiquiátricos da época.

PERDAS E GANHOS

Ela não se incomoda, mas não ignora os prós e contras do amadurecimento.

"Lido com o envelhecimento como todo mundo, né? Perdas e ganhos. Ganhos de serenidade, compreensão. Acho que hoje sou mais compreensiva e tolerante. Menos impulsiva, talvez", elabora.

"Ao mesmo tempo, tem essa coisa chata de ter que ir muito mais a médico, dermatologistas. Cada hora é uma coisinha nova que a idade traz. A massa muscular diminui, tem que malhar mais. Hoje em dia, gasto muito mais tempo do meu dia para ficar direitinha do que eu gastava quando era jovem".

BEM VIVER

Olhos brilhando, pele linda e muita disposição. A genética ajuda, mas Maria compartilha alguns dos seus hábitos para viver bem.

"Há uns três anos fazia musculação. Foi quando descobri um professor, Jun Igarashi, que dá aula para vários atores, e faz um trabalho com peso, muito interessante, que me estimula e me dá um bem estar físico imenso e psicológico também. Saio de lá animadíssima. Vou na dermatologista, faço umas coisinhas para o rosto ficar melhor", conta.

"Tenho um filho de seis anos (Manoel), o que me obriga a cuidar da minha saúde e estar bem porque tenho que durar muito tempo para ele não perder a mãe jovem. E tenho um namorado muito jovem (Breno Souza), que me estimulou a voltar para atividades que eu adorava, como mar, mergulho. Sempre que posso dou um mergulhinho no mar, ou de cilindro ou de snorkel. Faço planos de viagem. Acho que tudo isso ajuda a gente a ficar mais jovem. Eu acho", revela, divertida, com muitas reflexões, mas sem duras convicções.

MATERNIDADE

Aos 52 anos, a atriz adotou Manoel. E conta que já batalhava pela maternidade há muito tempo. "Demora o processo de habilitação e até vir a criança. Ele tinha meses quando chegou".

Como é a Maria mãe?

"Sou superpreocupada, superligada, mas ao mesmo tempo não quero deixar de ter a minha vida também porque quero que o Manoel me admire. Quero que, quando ficar mais velho, eu não vire só aquela pessoa ainda tentando ser a mãe de uma pessoa que não precisa mais daquilo, já está vivendo no mundo", avalia.

"Quero que me veja como pessoa interessante, que possa trocar ideias novas, não seja uma pessoa tão velhinha. Trabalho, fico com ele o máximo que posso. Não sou uma mãe que fica 24 horas por dia com o filho. Não tenho esse tempo e nem acho que ele precisa. Quando acho que ele está precisando mais, fico mais. Mas sou completamente apaixonada. Sou uma mãe doida, doente", confessa, aos risos.

POTÊNCIA FEMININA

Namorando o músico Breno Souza há quatro anos, ela fala do preconceito que ronda quando uma mulher namora um homem mais novo. Seu caso.

"O preconceito contra as mulheres é em tudo. Não é só quando ela namora um cara mais novo. Porque a gente vê milhares de homens com meninas mais moças. E isso nunca é um escândalo. Mas quando é uma mulher, é uma loucura", afirma. E completa:

"É a mulher que ganha menos que os homens. No meu trabalho, a mulher envelhece rapidinho. A pessoa com 50 anos é avó. O homem com 60 anos ainda é galã. A minha profissão é cruel nisso. O teatro menos, ele é mais realista. Reproduz menos os valores de uma sociedade que está caquética, que vai ter que mudar. Estamos à beira de uma mudança, se não mudar, a gente morre como sociedade. A grande mudança será um olhar diferente para as mulheres. E um poder das mulheres na sociedade. Porque o patriarcado já deu. Não sei se vai ser um matriarcado. Acho que é uma coisa no meio disso tudo".

Maria é libertária e se considera feminista. "Me sustento desde os 18 anos. Nunca fiquei com nenhum homem porque tinha que ficar. Sempre fiquei porque quis", lembra. "Agora, eu e a sociedade inteira ainda temos que evoluir muito. Ainda temos condicionamentos antigos que temos que nos livrar. Estou adorando este neo feminismo que está surgindo. Está me ajudando a compreender coisas que ainda não tinha entendido e estou totalmente engajada nele".

Ela aproveita para mandar um recado para as mulheres que não vivem o que desejam por medo.

"Não percam seu tempo, a vida é curta. Não prestem satisfação aos outros porque é uma perda de tempo. Eles vão estar sempre te cobrando. É um poço sem fundo", diz.

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Maria Padilha FERNANDO YOUNG
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