Milene Domingues, Ana Thaís e Nadja Mauad revelam os bastidores da Copa do Mundo Feminina

Apaixonadas por futebol, comentaristas contam sobre a empolgação em participar das transmissões

Por Juliana Pimenta

Nadja, Ana Thaís e Milene
Nadja, Ana Thaís e Milene -

Rio - Marta, Cristiane, Formiga, Andressa e Bárbara. Não reconhece esses nomes? Então corre para descobrir, porque essas são 5 das 32 jogadoras convocadas pela seleção brasileira, que estreia hoje na Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França. E para te ajudar a entender mais sobre o universo dessa modalidade, Milene Domingues, Ana Thaís e Nadja Mauad comentam sobre os bastidores e a importância de serem comentaristas da primeira grande transmissão do futebol feminino na TV.

Depois de 28 Copas do Mundo, 2019 marca o ano em que a Rede Globo decidiu, pela primeira vez, comprar os direitos de transmissão e televisionar a competição feminina para todo o Brasil. “Essa é uma iniciativa inédita. É importante porque é feminina e vai marcar a história”, diz Milene Domingues, de 39 anos, ex-jogadora de futebol, embaixadora do futebol feminino pelo Corinthians e, agora, comentarista pela SporTV.
Para Ana Thaís Matos, 34 anos, repórter e comentarista da disputa pela Globo e SporTV, essa edição vai servir como um divisor de águas para o esporte. “Com toda certeza, a Copa do Mundo vai ser um marco fundamental para o Brasil e para o mundo. Isso vai fazer com que tenha mais possibilidades para as meninas no futuro”, defende.

Futebol

Nadja Mauad, 33, repórter do GloboEsporte Paraná e comentarista pela SporTV, foi uma dessas meninas, que quando criança, queria ter tido mais oportunidades no futebol. “Eu sempre amei futebol e jogava desde a época da escola, mas meu pai não gostava que eu fizesse e me colocou no ballet. Hoje, eu continuo amando e tenho até um time com outras jornalistas de Santa Catarina, o ‘Boleragem FC’”, lembra.

A infância no futebol também é uma lembrança comum a Ana Thaís. “Eu joguei por mais de 10 anos, quase fui profissional mas, como acontece com muitas meninas, chega uma época em que você não encontra escolinha e tudo mais. Era muito difícil ficar procurando clubes para fazer ‘peneiras’ e, como sou de família humilde, tive que fazer uma escolha e resolvi deixar a carreira no futebol de lado para trabalhar”.

Já Milene, conhecida com a Rainha das Embaixadinhas, faz questão de dizer que as mudanças no futebol feminino são reais. “É outro cenário. Eu joguei pelo Corinthians em 96, 97 e 98 e vejo que a infraestrutura já é completamente diferente, assim como o apoio e a visibilidade. A gente ainda tem que crescer muito em relação a outros países, mas as garotas estão entrando mais jovens hoje e vão ganhar uma maturidade muito maior do que eu quando comecei e tinha que jogar na rua com os garotos”, comenta.

A ex-jogadora aproveita ainda para admitir o que espera da seleção brasileira nessa disputa. “Eu sei que essa copa vai ter muita visibilidade, mas, de repente, o Brasil não esteja tão preparado quanto as outras equipes. Mas uma coisa eu tenho certeza: elas vão dar o sangue na competição. E eu vejo que, daqui uns anos, nós vamos ser um grande potência no futebol feminino”.

Ana Thaís concorda. “O futuro do futebol feminino no Brasil vai ser muito positivo. Eu tenho certeza que, nas próximas Copas, as seleções femininas vão ser melhores. E se for levado a sério daqui pra frente, como nunca foi levado, teremos muito futuro”.

Preparação

Milene, a única do grupo que não é jornalista, comenta que a preparação para essa transmissão não diferente tanto da de 2010, por exemplo, que ela cobriu para o ‘Belas na Rede’, da RedeTV!. “Eu não acho mais difícil. Claro que, para procurar informações sobre os homens, você tem mais acesso, é só jogar no Google. Mas, no mais, tem uma outra seleção que dá mais trabalho e você tem que pesquisar um pouquinho mais, mas eu acabo pegando muita informação de boca-boca por ser ex-jogadora”.

Nadja e Ana Thaís discordam um pouco da nova colega de trabalho. Para Nadja, a preparação é muito mais intensa do que para uma competição mais popular. “Apesar de nunca ter se falado tanto de seleção feminina, a gente tem muito trabalho para buscar as referências. A gente vira madrugada pesquisando sobre as jogadoras, sobre as seleções, sobre o estilo de jogo, sobre cada grupo. Volta e meia, eu troco ideia com a Ana Thaís para saber o que ela acha. Então a preparação tem sido muito forte até para informar melhor o público que está em casa”, defende.

“Todo grande evento, a gente tem que fazer uma grande preparação. Em 2014, eu cobri a Copa do Mundo [de futebol masculino] pela Rádio Globo e eu lembro que tirei um tempo de folga antes só para estudar. Essa última semana foi ainda pior, porque é muito mais difícil encontrar coisas sobre futebol feminino”, completa Ana Thaís.

Lugar de mulher

Todo esse trabalho e pesquisa legitimam a escolha dessas mulheres para as posições que ocupam hoje. Nadja comemora a oportunidade de fazer parte dessa cobertura. “Eu achei muito bacana, porque eles decidiram colocar mulheres que entendem de futebol e entendem o que é essa Copa. Eu acho que as mulheres estão vivendo um tempo em que a gente não aceita mais não ter espaço, a gente quer ter espaço em todas as áreas. A gente não aceita mais o ‘não’ e a gente vai atrás do ‘sim’. Eu espero que cada vez mais mulheres possam estar fazendo parte do que elas querem de verdade. Eu não me considero feminista, mas me considero uma mulher que está abrindo portas para as outras”.

Milene, diz que também não se considera feminista, mas vê com bons olhas todas essas mudanças nos espaços ocupados por mulheres. “A porcentagem ainda é muito diferente, mas a participação das mulheres é uma realidade e já é muito aceita pela outra parte. Esse evento vem só complementar isso, certificando que as mulheres podem estar tanto dentro, quanto fora de campo”.

Ana Thaís intensifica o coro das colegas, mas faz diferentes ressalvas sobre o feminismo. “É importante ter mulher em todos os setores. Acho que, nesse caso, teve uma preocupação especial com a Copa porque é feminina. Até para dar espaço para outras mulheres que nunca participaram do futebol feminino. Mas quanto a ser feminista, isso é uma questão bem clara na minha cabeça. Eu sou feminista desde quando era criança e briguei no meu bairro para que tivesse um campinho de terra para as meninas jogarem bola. O feminismo incomoda, mas não quer se sobrepor a ninguém. O feminismo só quer a igualdade de direitos entre homens e mulheres”, defende.

Ana Thaís, inclusive, foi vítima de comentários machistas por um ex-repórter do jornal ‘O Globo’, demitido após a confusão. Venê Casagrande, direcionou comentários ofensivos a repórter através de sua conta no Twitter. “Eu não vi em um primeiro momento. Eu não o conhecia e continuo não conhecendo. Não entendi muito bem o que aconteceu, mas acho que cada um é responsável pelo que faz. Eu já errei várias vezes e paguei pelos meus erros. Então eu acho que as pessoas tem que entender que são responsáveis pelo que elas falam, pelo que elas publicam nas redes sociais e aceitarem a consequência disso”.

Ronald e o legado

Falando em responsabilidade, Milene destaca que procura passar ao filho Ronald, uma educação que priorize o cuidado com o próximo. “Eu não sou radical, eu acho que tudo sempre tem os dois lados. Eu acho que todo muito tem o seu papel e deve ser respeito, e é isso que eu venho tentando passar para o meu filho. Não só no esporte, como na vida, você tem que respeitar o próximo, independente de raça, cor ou gênero”
Mas será que Ronald, filho de dois jogadores de futebol - o rapaz, de 19 anos, é fruto do relacionamento de Milene e Ronaldo, bicampeão pela seleção brasileira e eleito três vezes o melhor jogador do mundo - também é apaixonado por futebol? “Ele não é muito de acompanhar futebol. E em junho, vai para Ibiza, porque ele é DJ já há um tempo e lá tem um dos maiores encontros de DJs do mundo nessa época do ano”.

Milene, no entanto, defende que o filho deve acompanhar, pelo menos um pouco da competição para prestigiar a mãe. “Ele está mais ansioso por mim do que pela Copa. Ele está todo orgulhoso, ainda mais porque convive comigo e sabe o quanto eu batalho e o quanto eu quero que as meninas cresçam. É lindo ver esse crescimento do futebol feminino e essa chance que estão dando para as garotas. É uma oportunidade ótima para quem gosta de futebol de futebol feminino ter o que ver. No final, para comentar, é só mais uma partida de futebol, mas essa Copa do Mundo, para mim, tem um gosto todo especial”.

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