Aventuras maternas: Solidão na infância

Normalmente associada a adultos, ela é muito sentida na infância

Por O Dia

Cris Di Leva e o filho, Marco: conversa para elevar autoestima e terapia
Cris Di Leva e o filho, Marco: conversa para elevar autoestima e terapia -

Rio - Quando Marco descia para brincar, voltava pouco depois dizendo não ter outras crianças. Com apenas nove anos, começou a apresentar um quadro de isolamento que chamou a atenção da mãe Cris Di Leva. O motivo inicial parecia ser bullying, já que os outros meninos o chamavam de "gordinho". Mas a mãe achava que havia algo além. E percebeu que o divórcio e a guarda do pai estavam afetando ainda mais o processo de socialização dele com outras crianças.

"Aqui ele é filho único, mas no pai é o mais velho. Percebi que ficando em casas separadas acabou se tornando mais individualista e inseguro, interferindo nas amizades", conta. Hoje, além de conversar muito e sempre procurar levantar a autoestima dele, Marco também está na terapia. "Após começar, percebi que ele se tornou um menino bem mais seguro. É claro que ainda estamos no começo, e dizem que terapia é para vida toda, então, acredito que estamos no caminho certo".

Embora a solidão normalmente seja associada a adultos, ela é muito sentida durante a infância - muito mais do que alguns possam imaginar. "Erroneamente, costumamos associar o isolamento na infância apenas ao fato da criança sofrer algum tipo de bullying ou ser tímida. Porém, essa falta de socialização pode estar ligada a outros fatores que causam o sentimento de frustração, como a falta de segurança, estabilidade, carinho, empatia, compartilhamento de sentimentos, aceitação e consideração vindo não apenas dos colegas, mas da família também. Por isso, quando se isolam, é importante identificar o porquê, se por privação emocional, abandono, instabilidade, desconfiança, abuso, alienação, vergonha ou qualquer outro motivo", explica a psicóloga Rosangela Sampaio.

Ela diz, ainda, que crianças que se sintam isoladas podem se tornar agressivas. O comportamento intolerante, exigente e irritável é bem comum, já que elas não conseguem nomear e organizar as emoções. "Todos esses fatores deverão ser avaliados por um profissional e a terapia será fundamental no processo de socialização dessa criança".

Já o médico e psicólogo Roberto Debski, lembra que outros fatores também podem afetar a socialização dos pequenos, como a forma que se relacionam com os pais e a família, se há ou não irmãos mais velhos ou mais novos e como os pais agem com todos. Além disso, traumas na família, como separação, doenças, alcoolismo, abandono e abuso; se os pais são apoiadores ou críticos e agressivos; mudanças frequentes de casa e cidade; além da própria individualidade da criança, que é um ser único, também podem interferir.

"A maneira como a família lida com às questões e dificuldades dos filhos sempre faz a diferença. Se for compreensiva, tranquila e buscar ajuda profissional sempre que necessário, a questão poderá ser encaminhada de maneira saudável e ser solucionada. Por outro lado, quando a família for estressada, cobrar e criticar negativamente a criança, poderá aprofundar às dificuldades e gerar outros problemas de comportamento", complementa.

Mas um alerta: uma criança que se isola em alguns momentos pode apenas ser mais observadora, por exemplo. "Sentir solidão é a percepção da situação de ficar sozinho, de não ser bem aceita pelos outros e não possuir um lugar de importância. A criança pode estar brincando sozinha e não sentir solidão", comenta a também psicóloga Fernanda Aoki. E vai além: "Ela pode, sim, ficar bem sozinha e isso pode ser saudável e criativo, se ela possuir antes uma boa autoestima, segurança interna vindo do amor dos pais e uma capacidade de ficar bem na companhia dela mesma. Uma das nossas maiores evoluções emocionais é conseguir desenvolver a capacidade de ficar bem sozinho", conclui.

 

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