Prestes a estrear no Globoplay, Cláudia Raia e Patrícia Pillar vão assistir 'A Favorita', de 2008, pela primeira vez

Em isolamento, atrizes criticam governo por falta de medidas para a área da cultura

Por Juliana Pimenta

A Favorita - Donatela (Claudia Raia ) e Flora (Patrícia Pillar).
A Favorita - Donatela (Claudia Raia ) e Flora (Patrícia Pillar). -

Rio - Entra amanhã, dia 25, no catálogo do Globoplay, todos os capítulos de 'A Favorita', novela da Globo exibida em 2008. Além de mais uma opção de entretenimento disponível para o público, o novo item do catálogo vai dar a oportunidade para que as protagonistas Claudia Raia e Patrícia Pillar assistam, pela primeira vez, aos capítulos do folhetim de sucesso.

"Agora, sim, a gente vai poder assistir à novela, coisa que a gente não conseguiu fazer por gravar quase 18 horas por dia. Não víamos nada", diz Claudia Raia, que já teve que dormir na casinha do 'Mais Você', no Projac, para chegar a tempo das gravações do dia seguinte.

Doze anos após sua estreia como Donatela, a atriz conta como foi ter o histórico da mocinha revelado apenas no capítulo 60. "Só eu, Patrícia, o autor e o diretor sabíamos. A Donatela era uma mulher bruta, rude, que monitorava e tinha o controle absoluto de tudo. Então parecia mesmo que ela era uma vilã. Isso foi construído para ter coerência na relação dela com a Lara (Mariana Ximenes) e do motivo de ela ter tanto ódio da Flora (Patrícia Pillar). Que bom que as pessoas acreditaram nisso. Vendo a novela já sabendo disso, vai mostrar o outro lado da moeda. As pessoas vão conseguir perceber o trabalho do ator, essa construção", defende a atriz de 53 anos.

Da outra ponta, Patrícia Pillar agradece a oportunidade de viver uma vilã nada convencional. "É muito fácil para um autor ou diretor pensar num ator que já está semipronto para o personagem. Mas esses não eram papéis com estereótipos. Eram personagens difíceis, e sou muito grata por terem pensado na gente", conta a atriz, acrescentando que os erros de sua personagem podem ser alertas para o público.

"A Flora escolheu o pior caminho. Ela se sentia pouco amada, carente e escolheu o caminho da destruição. É bom ver aquele exemplo e saber que a gente pode fazer diferente. Que pode escolher um caminho para um mundo mais solidário, mais amoroso", avalia Patrícia, aos 56 anos.

Convite

Mesmo com mais de uma década da estreia, Claudia Raia afirma que a produção continua atual. "Eu acho que a novela traz o tema da condição humana e isso não sai de moda, não envelhece. O que a gente fala ali é sobre as relações humanas, e acho que é uma produção arrebatadora. Acho que quem assiste leva um tapa na cara, porque são coisas que você já viveu ou reconhece na vida dos outros. O público está ávido por uma coisa que mexa com eles de verdade. 'A Favorita' é uma grande provocação, e eu acredito que as pessoas queiram ser provocadas".

Em defesa da Cultura

As duas atrizes também não deixam de se posicionar politicamente e lamentar a falta de medidas propostas pelo governo para amparar a indústria cultural durante a pandemia. "Muito triste e preocupante tudo isso que a gente está vivendo. Acaba que o governo não tem um plano para a arte: nada. Como se a arte não fosse indispensável. E é importante falar que a cultura é parte de um país. É muito triste porque muitas pessoas não têm realmente o que comer, o que fazer. Estamos sem pai nem mãe. Já há um tempo, mas com esse governo que está aí é ainda pior. Eu não vejo uma luz no fim do túnel", lamenta Claudia.

Patrícia Pillar, por sua vez, é ainda mais incisiva nas críticas. "Eu acho que tem um plano de extermínio da cultura, do artista. Em qualquer lugar do mundo, os artistas representam uma indústria. Mas aqui, esse ódio à arte e aos artistas é tão grande que não conseguem nem ver que somos os empregadores. As pessoas são colocadas lá (no governo) para não fazerem nada mesmo. Colocam uma pessoa pra cuidar de Cultura que não tem a menor noção do que deve ser feito", argumenta a atriz, referindo-se à ex-secretária de Cultura e também atriz Regina Duarte.

"Quantos cenotécnicos, camareiros, sonoplastas, iluminadores e todos os outros profissionais que dependem de seu trabalho para alimentar suas famílias. O que a gente está vivendo é uma falta de respeito com a nossa classe. Não há um país que consiga sobreviver sem ter sua identidade preservada", completa Patrícia.

Vida nova

Curada da covid-19, Claudia Raia conta que resolveu expor a luta contra a doença por reconhecer seu papel de influenciadora. "Eu acho que os artistas são os médicos da alma. A gente está aqui para alegrar, para emocionar, para ajudar e dar as mãos. Somos formadores de opinião e acho que temos um papel fundamental durante a pandemia. Mesmo com todos os cuidados do mundo, fui contaminada. Eu já estava em casa há 65 dias, sem sair, e acredito ter pegado no botão do elevador", revela a atriz, que acha que o seu caso pode servir de exemplo.

"Eu não quis dizer antes porque ainda estava tentando entender o que a gente estava passando. Meus filhos (Enzo e Sophia) deram negativo e não tiveram nenhum tipo de sintoma, mas estávamos todos na mesma casa. Para mim, os sintomas foram brandos, para o Jarbas (marido), um pouco menos brando. Mesmo assim, bem mais brando do que a gente tem visto por aí. Precisei falar porque estava vendo todo mundo indo às ruas, descontrolado, bebendo e fazendo churrasco. Isso é para alertar as pessoas a ficarem em casa, porque ainda tem gente que não acredita, infelizmente", lamenta Claudia.

 

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