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Médicos de diferentes especialidades falam sobre uso da telemedicina no atendimento pediátrico durante a pandemia

Por O Dia

Telemedicina para atendimento pediátrico
Telemedicina para atendimento pediátrico -
Rio - A partir desta semana, teremos, a cada domingo, entrevistas especiais com médicos de diferentes especialidades. O objetivo é abranger todas as dúvidas e esmiuçar os questionamentos dos pais e responsáveis sobre quadros de saúde relacionado à covid-19. E nesta primeira semana, conversarmos com pediatras sobre o uso da telemedicina e até que ponto é possível incluí-la no atendimento pediátrico.

Não exatamente uma novidade dentro da área médica, a telemedicina ganhou mais espaço nesse período da pandemia. Para Guilherme Weigert, CEO da Conexa Saúde, plataforma muito usada hoje em dia, o futuro do atendimento médico exige a incorporação da telemedicina, para que o virtual e o físico sejam conectados e, assim, toda a jornada do paciente seja acompanhada. “Atualmente, já existem esses dois comportamentos. Porém, eles estão totalmente desconectados, fazendo com que haja ineficiência no atendimento médico. A telemedicina feita de maneira responsável, com segurança, será capaz de juntar os “dois mundos" em um só”, pontua. Ele explica, ainda, que a covid-19 comprovou os três maiores valores da telemedicina, que são a segurança, a acessibilidade e a resolutividade. “Na pandemia, frequentar o pronto socorro, desnecessariamente, é um risco e a telemedicina permite que o atendimento seja realizado em casa de modo seguro, atingindo regiões remotas e garantindo diagnóstico e monitoramento dos pacientes não só com suspeita de Coronavírus, mas também com outras doenças”, complementa. Só para se ter uma ideia, neste mês de maio, a previsão é de um total de 300 mil teleconsultas, sendo que mais de 40% não serão atribuídas apenas a casos da pandemia.

Embora a telemedicina esteja se mostrando um excelente caminho não apenas para épocas como essa, é importante lembrar que o atendimento presencial sempre será necessário. E quando se fala sobre consultas com crianças, que muitas vezes não sabem explicitar o que sentem ou nem falam ainda, o contato ao vivo é determinante para alguns diagnósticos. Para explicar melhor até onde é possível um atendimento à distância, conversamos com alguns pediatras que vão falar um pouco mais sobre o assunto e responder alguns questionamentos comuns aos pais e responsáveis.

AM - É possível fazer um bom atendimento de crianças por esse meio, já que muitas vezes elas nem sabem se expressar bem (muitas vezes nem falam ainda)?

Thatiane Mahet, pediatra pós-graduada em alergia, imunologia e nutrição infantil, membro da American Academy of Pediatrics e autora do livro 'O Grande Livro do Bebê':  “É possível fazer um bom atendimento, mesmo que a criança não fale. A telemedicina tem suas limitações e o paciente tem que saber dessas limitações. Então, o paciente recebe uma declaração e um termo de consentimento livre e esclarecido, abordando as limitações da telemedicina. Por exemplo, eu não posso ver um ouvido, ver 100% uma garganta, consultar um pulmão, mas eu posso orientá-lo e nesse momento de pandemia é extremamente importante para evitar a ida até a emergência. Muitas vezes nesse momento a gente não está fazendo medicina em sua forma completa, que é aquela medicina de livro, mas a gente está fazendo o melhor que a gente pode. Então, por exemplo, se uma criança está reclamando de dor de ouvido, eu vou lidar como se aquela criança estivesse com o ouvido inflamado, o que é muito melhor do que expor ela ao ambiente hospitalar que pode estar contaminado com covid-19. Um bebê que está com uma lesão de pele, uma consulta presencial seria o mais indicado, me possibilitaria de ver melhor a lesão, mas se eu consigo ver através de uma foto ou vídeo que a lesão não está descamando, eu já consigo pelo menos melhorar o problema da criança, sem fazer com que os pais saíam desnecessariamente”.

AM - Quando a telemedicina pode ser aplicada no atendimento pediátrico e quando é obrigatório ir ao consultório?

Flauber Santos Filho, pediatra e coordenador de Pediatria do Hospital HSANP:  “A telemedicina deve ser utilizada na pediatria principalmente para orientações gerais (como alimentação ou vacinas) ou esclarecer dúvidas específicas e simples (como doses de medicamentos ou manchas na pele). Qualquer sintoma que caracterize uma urgência ou emergência, a criança deve ser atendida presencialmente, como febre, cansaço, queda do estado geral, sangramentos, dores abdominais, cefaleias, vômitos persistentes, e outras. Podem ser orientados por telemedicina queixas simples como coriza e espirros, tosse discreta, manchas na pele e diarreias”.

AM - Muitas famílias nem sabem quem será o pediatra de seus filhos antes de nascer. Caso a criança nasça nesse período, a primeira consulta pode ser por telemedicina ou tem que ser presencial? Fale sobre isso.

Aline de Souza, pediatra da Alba Saúde: “Uma sala de parto completa tem a presença de um pediatra, que pode ser uma opção de pediatra assistente. Infelizmente, poucos casais sabem da consulta pré-natal com pediatra, que é interessante ser feita no 3° trimestre da gestação para iniciar as orientações sobre a chegada do bebê, auxiliar nas expectativas, nos medos, tirar dúvidas sobre amamentação etc. O ideal é que a primeira consulta seja presencial, pois se faz necessária avaliação da pega na amamentação, ganho de peso, surgimento de icterícia neonatal, dentre outros fatores que podem levar o recém-nascido a retornar ao hospital para internação”.

AM - E o acompanhamento mensal do bebê? Como não se sabe quando acabará o confinamento pela covid-19, essas consultas mensais podem seguir por teleatendimento?

Danieli Victal Garcia, pediatra da Unidade de Pronto Atendimento do Rio de Janeiro e do Hospital da Amil:  “Não recomendo a telemedicina neste primeiro ano da criança. Acredito que, com responsabilidade de ambas as parte, médico pediatra e mãe e ou pai do paciente, dá para marcar consultas com intervalos de tempo mais longo e não acumular crianças e pais na sala de espera. Os pais devem chegar com o filho e serem logo atendidos. E os pais devem estar de máscara. Já as crianças com menos de 2 anos não devem usar máscaras. Os consultórios estão tomando todos os cuidados, os materiais são descartáveis e as salas são devidamente higienizadas. Claro que temos e já recolhemos em nossos consultórios os brinquedinhos, os lápis coloridos.Temos que tirar um pouco do lúdico da consulta, mas é o mais seguro. A puericultura, principalmente, deverá ser sempre presencial”.

AM - Ainda falando sobre a covid-19, quando os pais devem recorrer a emergência e nem tentar o atendimento por vídeo?

Aline de Souza, pediatra da Alba Saúde: “Quando houver febre persistente por mais de 72h, e/ou falta de ar, e/ou recusa alimentar/líquida, e/ou queda do estado geral, mesmo sem febre, pois são sinais de alarme para complicações. Se a criança está com sintomas brandos como febre há menos de 72h, congestão nasal, espirros, pouca tosse e ativa, o ideal é aguardar em casa e usar medicações para os sintomas. Não há, até o momento, nenhuma evidência científica que indique uso precoce de alguma medicação específica para tratamento da covid-19”.

AM - Crianças com problemas crônicos, como asma, bronquite ou dermatite atópica, por exemplo, podem ter o atendimento por telemedicina?

Mônica Rodrigues, pediatra e gestora de equipe de pediatria da Conexa Saúde: “Sim. O atendimento do paciente crônico é mais um aspecto útil da telemedicina. A telemedicina permite levar tratamento específico e especializado às crianças com doenças crônicas. Isso é especialmente importante para aquelas crianças que moram em áreas distantes dos grandes centros onde sabemos que pode ser difícil ter um especialista capacitado para o atendimento. Além disso, permite retornos mais frequentes as consultas de acompanhamento evitando problemas e custo com deslocamento”.

AM - Quais os prós e contras da telemedicina na pediatria?

Thatiane Mahet, pediatra pós-graduada em alergia, imunologia e nutrição infantil, membro da American Academy of Pediatrics e autora do livro 'O Grande Livro do Bebê':  “Existem muitos prós e contras. Eu acho que o mais importante é que o paciente entenda que a telemedicina é limitada, ela não é uma garantia, pois quando você faz um teleatendimento, você não tem 100% de certeza de que o profissional que está ali vai conseguir resolver o seu problema. A telemedicina é um facilitador, mas pode ser que o médico não consiga resolver o problema 100%. Então, mais do que saber o pró e o contra, é saber que a telemedicina tem limitação. Agora, quais são as vantagens: você não sai da sua casa, você pode ter uma orientação maravilhosa através da telemedicina. Tem alguns assuntos que eu percebi que funcionam melhor pela forma digital do que no consultório, como, por exemplo, as introduções alimentares pela telemedicina, porque você tem menos fatores confundidores do consultório, você fala mais sobre a introdução alimentar do que sobre as outras coisas. Então, você consegue orientar muito melhor. Outro exemplo são as orientações diárias, aquelas orientações de amamentação, de como cuidar do bebê, da alimentação e das vacinas, elas ficam até mesmo melhor via vídeo, porque os pais se concentram mais, eles conseguem prestar atenção em tudo o que você está falando. Então, eu acredito que esses pontos são bons na telemedicina, as orientações acabam sendo melhores. E em tempos de covid, o principal é que você diminui a circulação de pessoas, e podemos levar uma informação de qualidade para pessoas de regiões que talvez não tivessem essa informação. Por exemplo, eu já atendi pacientes de outros países que talvez não tivesse uma boa orientação ou que não se sentiam acolhidos por outra cultura; já atendi gente do interior através da telemedicina, ou seja, pessoas que talvez não teria uma informação de qualidade e que não estavam conseguindo resolver o seu problema na sua cidade, e conseguem ter um atendimento mais qualificado de um grande centro através da telemedicina. Agora os contras: você não tem o contato pele a pele na telemedicina, e isso é muito importante. Às vezes, é em um olhar que você percebe algum problema, às vezes você abraça a mãe e percebe que algo está incomodando. Esse tato que a gente adquire com a experiência de consultório, você acaba perdendo na telemedicina, não tem o escutar o pulmão, olhar o ouvido, não tem o exame clínico do paciente. Então, isso é o principal contra da telemedicina”.

AM - Mais alguma informação que queira incluir?

Angélica Barros Tolentino Teixeira, pediatra e pneumologista da Rede de Clínicas Camim:  "A telemedicina tem sido empregada, nesse momento de pandemia, para facilitar a comunicação com o médico, evitando o deslocamento do paciente e do profissional. Vivemos uma situação-limite e essa é uma forma de aumentar esse contato e torná-lo mais frequente, consolidando a relação de confiança entre ambos. Mas o atendimento por meio da telemedicina não substitui o atendimento presencial. O contato direto médico-paciente é fundamental”.

Flauber Santos Filho, pediatra e coordenador de Pediatria do Hospital HSANP:  “Destaco que o teleatendimento está atualmente liberado apenas durante o período de pandemia, que a emissão de receituários e atestados médicos devem seguir as normas do CFM e do Ministério da Saúde, com uso de certificado digital para autenticação do documento. Um grande problema que estamos presenciando na pandemia é o receio das pessoas de irem ao hospital, esse retardo tem aumentado muito o número de casos graves nos hospitais. O receio de ir ao hospital não pode superar a necessidade de avaliação médica para um tratamento adequado. Observamos na pediatria um aumento nos casos de infecções que comprometem vários órgãos (sepse) e em adultos quadros complicados de infarto e AVC que perderam a chance de um tratamento mais adequado por causa da demora em ir ao Pronto Atendimento”.

Danieli Victal Garcia, pediatra da Unidade de Pronto Atendimento do Rio de Janeiro e do Hospital da Amil:  “Em época de pandemia, toda forma de se informar, querer tirar dúvidas a respeito da saúde das crianças é válida. Temos que agir com responsabilidade sempre, ajustar até onde a tecnologia nos ajuda e usá-la em momentos emergenciais como esse. Vale também lembrar algumas dicas de prevenção da Covid-19 para crianças, como beber bastante água, manter boa higiene oral e unhas curtas e limpas, ter hora para comer alimentos saudáveis (mais próximos do natural, evitar enlatados e conservantes) e dormir bem - cada faixa etária necessita de um número de horas específicas, porque, ao dormir, as crianças produzem a Melatonina, substância que facilita seu crescimento e desenvolvimento e também aumenta sua imunidade. Tudo que precisamos em época de covid-19 é termos uma boa imunidade. Também é preciso, diariamente, ingerir vitamina C e vitamina D e banho de sol por 20 a 30 minutos, fora do horário de sol forte”.

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