Leonardo Nascimento enxergou no parajiu-jitsu uma forma de mudar de vidaCarlos Elias Júnior / Agência O Dia

O jiu-jitsu tem a capacidade de mudar vidas, como mudou a do lutador Leonardo Nascimento, de 46 anos. Morador da Praça da Bandeira, Zona Norte do Rio, ele sofreu um acidente de carro em 2005, aos 25 anos, que o deixou paraplégico. Anos depois, começou a praticar parajiu-jitsu, modalidade da luta voltada às pessoas com deficiência. Hoje em dia, o atleta é uma das referências do país na categoria, com uma vasta lista de medalhas mundiais, sul-americanas, nacionais e estaduais. Ao O DIA, o esportista contou sobre a sua trajetória e detalhou as principais dificuldades enfrentadas por paratletas no esporte e no cotidiano.

'Sofri muito preconceito'

Nascido na Tijuca e criado em Vila Isabel, Leonardo se mudou para a Praça da Bandeira aos 10 anos, onde mora desde então. Em 2 de abril de 2005, ao voltar de uma festa dirigindo alcoolizado, ele bateu o seu carro contra uma árvore, fraturou a coluna e perdeu os movimentos das pernas. Apesar do choque, ele se adaptou à nova vida. Leonardo destaca que desde aquela época, muitos aspectos de acessibilidade evoluíram, mas o preconceito e dificuldades no dia a dia ainda persistem.

"De 2005 para cá, melhorou muito em termos de preconceito e acessibilidade. Hoje em dia as pessoas têm mais informação, mais acesso às coisas. Acredito que essa geração que está vindo é menos preconceituosa quanto a isso. É complicado. Você sofre preconceito sim, eu sofri muito, das pessoas acharem que você não é capaz, te olharem como um problema. De você chegar em um cinema e ele não ter acessibilidade. Chegar na porta de um restaurante e não ser acessível", diz, ressaltando como a cidade e o Estado do Rio ainda sofrem com a falta de estrutura de acessibilidade, especialmente em transportes públicos.

Início de uma paixão

Anos após o acidente, em 2018, Leonardo começou a atividade que o mudaria para sempre. Ele levou o enteado para uma academia de jiu-jitsu, com o objetivo de colocá-lo nas aulas para que ele pudesse fazer uma atividade física. O jovem não quis seguir na luta, mas o padrasto se animou com o que viu no espaço, decidiu fazer algumas aulas e logo se apaixonou.

Uma das características que mais chamou a atenção de Leonardo neste esporte é que a sua lesão medular não o impedia de praticá-lo. Ele treina com pessoas que não têm deficiência, mas se adaptam para tornar o combate acessível. "O jiu-jitsu é uma luta que começa em pé e termina no chão. Eu já começo no chão, porque não tenho movimentos na minha perna. Então, o meu adversário é obrigado a começar comigo no chão. Isso leva para a proximidade. Óbvio que a gente amarra a perna para ele não se mexer, tenta usar o mínimo possível das pernas para se equiparar às minhas pernas e vira, realmente, um combate adaptado. Isso chamou minha atenção. Comecei a praticar e gostei."

Leonardo ressalta que muitas vezes, pessoas com deficiência acham que podem sofrer julgamentos por procurar aulas de jiu-jitsu, mas isso não é verdade. "Você acha que vai ser um problema, sofrer preconceito. 'Eu não vou conseguir fazer, o professor não vai querer me dar aula'. Não. As pessoas vão te receber. A comunidade do jiu-jitsu é assim. Tem a parte competitiva, mas o jiu-jitsu também tem a parte da qualidade de vida. Tem pessoa que está ali para superar a ansiedade, desestressar do trabalho", destaca.

Trajetória de sucesso

Leonardo conta que seu primeiro treino foi com um grande amigo, apelidado de Marcão, que mais tarde, se tornaria o principal incentivador para ele começar a disputar campeonatos na modalidade. A amizade, no entanto, não impedia o já experiente colega de pegar pesado nos treinos.

"Ele sempre treinava comigo. Sempre me passava o carro, não tinha aquele negócio de pena. Eu comecei a treinar com ele, me incentivando, mostrando posições. Em um determinado momento, me graduei na faixa azul. Ele tinha se inscrito em uma competição e falou: 'Vai ter parajiu-jitsu nessa competição, tu vai'. Eu falei: 'Caramba, como tu faz isso?'. Ele disse que eu já treinava há muito tempo, estava lutando bem. Eu pensei: 'Se eu treino com ele, que é forte, na competição, posso me dar bem'", explica.

Dito e feito. Leonardo ganhou seu primeiro campeonato, o Rio Summer 2019, na Arena Olímpica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Ainda com a faixa azul, ele superou na final um lutador faixa preta, o único outro competidor deficiente do torneio, que também não tinha movimento nas pernas. "Aí que eu falei: 'Acho que levo jeito para a parada. Dali, comecei a competir."

Foi um caminho sem volta. Leonardo seguiu se dedicando aos treinos e graduando a faixa enquanto se inscrevia para torneios maiores. Desde então, o agora experiente atleta, faixa-marrom, conquistou quatro medalhas mundiais - três de ouro e uma de bronze -, além de dois títulos sul-americanos, três brasileiros e dois cariocas.

Hoje em dia, Leonardo divide os treinos com o seu trabalho como agente de educação da Operação Lei Seca, em um programa que busca conscientizar motoristas sobre as consequências de beber e dirigir. Ele e mais 25 cadeirantes – todos vítimas de acidentes envolvendo álcool e direção – realizam palestras de conscientização em grandes eventos para mostrar à sociedade o perigo de dirigir embriagado. Ele recebe o apoio para disputar torneios ao redor do mundo, com flexibilização da escala de serviço, a depender dos calendários das competições.

Obstáculos e desafios

Apesar disso, Leonardo ressalta os desafios que atletas de parajiu-jitsu ainda enfrentam. Entre os custos, arcados pelos próprios esportistas, estão as inscrições nos torneios, hospedagem, passagem, alimentação, entre outros. Dependendo da deficiência, a presença de um acompanhante é necessária. "Muita gente fica de fora porque não tem incentivo", diz. Segundo Leonardo, o cenário para muitos dos seus colegas ainda é cheio de obstáculos.

"[O apoio] está muito difícil. Primeiro que o jiu-jitsu não é um esporte olímpico, então isso já não parte de incentivo do Governo Federal. A segunda parte é que as pessoas não querem investir em uma pessoa com deficiência. Tem esse preconceito. Um atleta do convencional consegue fazer mais fácil a divulgação de uma marca do que um atleta adaptado. Muitos trabalham para custear sua preparação e a maioria não têm acesso às grandes competições e não tem nenhum tipo de patrocínio ou incentivo. Para o brasileiro, ainda está difícil. Outros países já têm uma evolução muito maior nisso."

Apesar disso, Leonardo conseguiu ultrapassar essas barreiras. Ele se estabilizou no trabalho e participa do programa Bolsa Atleta –, mas ressalta que para ganhar o benefício, é necessário comprovar sua trajetória no esporte pela conquista de títulos. "Não é todo mundo que consegue viajar para competição internacional. Então, é visto por mérito. Eu, graças a Deus, com minha conquista de 2024, faço parte do Bolsa Atleta do Rio", disse.

Protesto contra federações

Leonardo e outros praticantes do parajiu-jitsu também protestam contra a restrição de pessoas com deficiência em eventos de grande porte, que poderiam ser um chamariz gigantesco. "O jiu-jitsu tem as duas maiores federações brasileiras que o regem, a CBJJ e a IBJJF. São elas que fazem os campeonatos mais importantes. Os atletas ganham visibilidade nessas competições. Elas não deixam o parajiu-jitsu participar. Em 2026, com o país evoluindo, o preconceito cada vez menor, mas dentro do jiu-jitsu, ainda existem essas duas federações que não deixam a gente participar", destaca.

Apesar disso, recentemente, a ADCC, voltada ao grappling, começou a autorizar praticantes de parajiu-jitsu. Leonardo foi o primeiro cadeirante do mundo a ganhar uma etapa oficial da federação. A AJP, que roda o Brasil, também incluirá a modalidade em seu calendário – os dois primeiros vão ganhar passagens para o Mundial em Abu Dhabi. Leonardo insiste na necessidade de outras organizações criarem categorias para pessoas com deficiência.

"A comunidade do parajiu-jitsu não quer não pagar a inscrição, não quer ir de graça. A gente quer competir. Queremos estar juntos com os grandes nomes. Tem atletas do UFC que lutam o Mundial do jiu-jitsu da IBJJF por causa da visibilidade. A gente quer ter esse mesmo direito, de ir lá, lutar, respeitando todo mundo, pagando a inscrição, mas para a gente também poder ganhar essa visibilidade, para o esporte cada vez mais aparecer. São competições de grande porte e o parajiu-jitsu está fora delas. Gostaríamos de participar delas e entender o porquê de elas não nos permitirem."

Rumo ao título mundial

Leonardo disputará, em 10 de novembro, mais uma edição do Mundial em Abu Dhabi. Ele viajou aos Estados Unidos em agosto e passou o mês inteiro treinando. Ele garante que está preparado e chegará forte e focado. O objetivo é superar o resultado que atingiu na edição do ano passado, quando ficou em terceiro lugar.
Mas além de todos os resultados esportivos, um aspecto essencial do jiu-jitsu, na visão de Leonardo, é como ele impacta positivamente a parte mental dos seus praticantes. O lutador sugere que as pessoas, independente das suas condições físicas ou objetivos, dêem uma chance à modalidade.
"É um esporte fantástico, que vem me abrindo portas, mas não só na parte profissional. É um esporte que, na mente, te ajuda a superar seus desafios, porque muita gente acha que precisa fazer força. Não. Você consegue praticar jiu-jitsu sem ter força e ganhar de um cara forte. Se você tem medo, quer se superar, faça jiu-jitsu. O jiu-jitsu mudou minha vida e indico para qualquer pessoa que está passando por uma depressão, ansiedade, só quer se resetar: faça jiu-jitsu. Ele mudou minha vida e pode mudar a sua, com certeza."