Leonardo Nascimento enxergou no parajiu-jitsu uma forma de mudar de vidaCarlos Elias Júnior / Agência O Dia
'Sofri muito preconceito'
"De 2005 para cá, melhorou muito em termos de preconceito e acessibilidade. Hoje em dia as pessoas têm mais informação, mais acesso às coisas. Acredito que essa geração que está vindo é menos preconceituosa quanto a isso. É complicado. Você sofre preconceito sim, eu sofri muito, das pessoas acharem que você não é capaz, te olharem como um problema. De você chegar em um cinema e ele não ter acessibilidade. Chegar na porta de um restaurante e não ser acessível", diz, ressaltando como a cidade e o Estado do Rio ainda sofrem com a falta de estrutura de acessibilidade, especialmente em transportes públicos.
Início de uma paixão
Uma das características que mais chamou a atenção de Leonardo neste esporte é que a sua lesão medular não o impedia de praticá-lo. Ele treina com pessoas que não têm deficiência, mas se adaptam para tornar o combate acessível. "O jiu-jitsu é uma luta que começa em pé e termina no chão. Eu já começo no chão, porque não tenho movimentos na minha perna. Então, o meu adversário é obrigado a começar comigo no chão. Isso leva para a proximidade. Óbvio que a gente amarra a perna para ele não se mexer, tenta usar o mínimo possível das pernas para se equiparar às minhas pernas e vira, realmente, um combate adaptado. Isso chamou minha atenção. Comecei a praticar e gostei."
Leonardo ressalta que muitas vezes, pessoas com deficiência acham que podem sofrer julgamentos por procurar aulas de jiu-jitsu, mas isso não é verdade. "Você acha que vai ser um problema, sofrer preconceito. 'Eu não vou conseguir fazer, o professor não vai querer me dar aula'. Não. As pessoas vão te receber. A comunidade do jiu-jitsu é assim. Tem a parte competitiva, mas o jiu-jitsu também tem a parte da qualidade de vida. Tem pessoa que está ali para superar a ansiedade, desestressar do trabalho", destaca.
Trajetória de sucesso
"Ele sempre treinava comigo. Sempre me passava o carro, não tinha aquele negócio de pena. Eu comecei a treinar com ele, me incentivando, mostrando posições. Em um determinado momento, me graduei na faixa azul. Ele tinha se inscrito em uma competição e falou: 'Vai ter parajiu-jitsu nessa competição, tu vai'. Eu falei: 'Caramba, como tu faz isso?'. Ele disse que eu já treinava há muito tempo, estava lutando bem. Eu pensei: 'Se eu treino com ele, que é forte, na competição, posso me dar bem'", explica.
Dito e feito. Leonardo ganhou seu primeiro campeonato, o Rio Summer 2019, na Arena Olímpica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Ainda com a faixa azul, ele superou na final um lutador faixa preta, o único outro competidor deficiente do torneio, que também não tinha movimento nas pernas. "Aí que eu falei: 'Acho que levo jeito para a parada. Dali, comecei a competir."
Foi um caminho sem volta. Leonardo seguiu se dedicando aos treinos e graduando a faixa enquanto se inscrevia para torneios maiores. Desde então, o agora experiente atleta, faixa-marrom, conquistou quatro medalhas mundiais - três de ouro e uma de bronze -, além de dois títulos sul-americanos, três brasileiros e dois cariocas.
Hoje em dia, Leonardo divide os treinos com o seu trabalho como agente de educação da Operação Lei Seca, em um programa que busca conscientizar motoristas sobre as consequências de beber e dirigir. Ele e mais 25 cadeirantes – todos vítimas de acidentes envolvendo álcool e direção – realizam palestras de conscientização em grandes eventos para mostrar à sociedade o perigo de dirigir embriagado. Ele recebe o apoio para disputar torneios ao redor do mundo, com flexibilização da escala de serviço, a depender dos calendários das competições.
Obstáculos e desafios
"[O apoio] está muito difícil. Primeiro que o jiu-jitsu não é um esporte olímpico, então isso já não parte de incentivo do Governo Federal. A segunda parte é que as pessoas não querem investir em uma pessoa com deficiência. Tem esse preconceito. Um atleta do convencional consegue fazer mais fácil a divulgação de uma marca do que um atleta adaptado. Muitos trabalham para custear sua preparação e a maioria não têm acesso às grandes competições e não tem nenhum tipo de patrocínio ou incentivo. Para o brasileiro, ainda está difícil. Outros países já têm uma evolução muito maior nisso."
Apesar disso, Leonardo conseguiu ultrapassar essas barreiras. Ele se estabilizou no trabalho e participa do programa Bolsa Atleta –, mas ressalta que para ganhar o benefício, é necessário comprovar sua trajetória no esporte pela conquista de títulos. "Não é todo mundo que consegue viajar para competição internacional. Então, é visto por mérito. Eu, graças a Deus, com minha conquista de 2024, faço parte do Bolsa Atleta do Rio", disse.
Protesto contra federações
Apesar disso, recentemente, a ADCC, voltada ao grappling, começou a autorizar praticantes de parajiu-jitsu. Leonardo foi o primeiro cadeirante do mundo a ganhar uma etapa oficial da federação. A AJP, que roda o Brasil, também incluirá a modalidade em seu calendário – os dois primeiros vão ganhar passagens para o Mundial em Abu Dhabi. Leonardo insiste na necessidade de outras organizações criarem categorias para pessoas com deficiência.
"A comunidade do parajiu-jitsu não quer não pagar a inscrição, não quer ir de graça. A gente quer competir. Queremos estar juntos com os grandes nomes. Tem atletas do UFC que lutam o Mundial do jiu-jitsu da IBJJF por causa da visibilidade. A gente quer ter esse mesmo direito, de ir lá, lutar, respeitando todo mundo, pagando a inscrição, mas para a gente também poder ganhar essa visibilidade, para o esporte cada vez mais aparecer. São competições de grande porte e o parajiu-jitsu está fora delas. Gostaríamos de participar delas e entender o porquê de elas não nos permitirem."







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