O lendário Estádio Azteca receberá jogos da Copa do Mundo de 2026Alfredo Estrella / AFP

Prestes a escrever mais um capítulo na história do futebol mundial, o México será o primeiro país a sediar uma Copa do Mundo pela terceira vez. Depois de receber o torneio em 1970 e 1986, a nação volta ao centro das atenções na abertura da edição de 2026.

Desta vez, a competição será realizada em um formato com três sedes, com Estados Unidos, Canadá e México. A expansão para 48 seleções elevou o número de partidas para 104, e o pontapé inicial acontecerá em território mexicano, no duelo entre os anfitriões e a África do Sul. O confronto reedita justamente a partida que abriu o Mundial de 2010, disputado em solo sul-africano.

Os espetáculos de 1970 e 1986

Poucos lugares carregam uma relação tão simbólica com as Copas do Mundo quanto o México. Em 1970, o país assistiu ao surgimento do que muitos consideram a maior seleção de todos os tempos: o Brasil comandado por Zagallo.

Com uma campanha impecável, marcada por seis vitórias e 19 gols, a equipe encantou o planeta ao reunir cinco camisas 10: Gerson, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Pelé.
Jairzinho, inclusive, transformou-se no "Furacão da Copa" ao marcar em todas as partidas disputadas. Já o lateral Carlos Alberto Torres eternizou uma das jogadas mais emblemáticas da história ao concluir o quarto gol da vitória por 4 a 1 sobre a Itália na decisão.
Seleção brasileira tricampeã do mundo em 1970 - Reprodução
Seleção brasileira tricampeã do mundo em 1970Reprodução
Os mexicanos, 16 anos depois, voltaram a receber o torneio após assumirem a organização pela desistência da Colômbia. Nem mesmo os terremotos que atingiram o país oito meses antes da competição diminuíram o entusiasmo popular. Foi também naquele Mundial que nasceu a tradicional "ola", fenômeno que se espalhou pelos estádios do planeta.
Dentro das quatro linhas, a edição de 1986 teve um protagonista absoluto: Diego Maradona. Aos 25 anos e no auge da carreira, foi fundamental para a seleção da Argentina conquistar o título.
Ele também protagonizou, diante da Inglaterra, dois dos lances mais famosos do esporte. Primeiro, o controverso gol eternizado como a 'Mão de Deus'. Em seguida, uma arrancada histórica iniciada antes do meio-campo, superando sucessivos adversários até balançar as redes.

Enquanto os torcedores locais se rendiam ao talento do camisa 10, o Brasil de Telê Santana sofria com desfalques importantes e acabou eliminado pela França de Michel Platini nas quartas de final, em disputa por pênaltis.
Ao final da competição, Maradona e Burruchaga lideraram a conquista argentina sobre a Alemanha Ocidental, consolidando o México como palco de alguns dos momentos mais memoráveis da história do futebol.
O templo do futebol mundial

O principal símbolo desse legado é o Estádio Azteca, na Cidade do México. Projetado pelo arquiteto Pedro Ramírez Vázquez e inaugurado em 1966, o palco que recebe partidas do América-MEX, do Cruz Azul e da seleção mexicana é frequentemente tratado como a "catedral do futebol mundial", definição utilizada pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino.

Em 2026, quando completará 60 anos, o "Colosso de Santa Úrsula" ampliará ainda mais sua coleção de recordes. Com os compromissos desta edição, chegará a 24 jogos de Copa do Mundo e se tornará o primeiro estádio a sediar três partidas de abertura. Ali começaram os torneios de 1970, no empate sem gols entre México e União Soviética, e de 1986, no empate por 1 a 1 entre Itália e Bulgária.

O local também abriga uma distinção única: recebeu as finais que consagraram o tricampeonato brasileiro e o bicampeonato argentino. Situado a mais de 2.200 metros acima do nível do mar, o gramado histórico foi ainda o cenário do lendário "Jogo do Século" entre Itália e Alemanha Ocidental, em 1970.
Para a Copa de 2026, a arena passou por uma ampla modernização ao longo de 18 meses, com investimento de 225 milhões de dólares (mais de R$ 1,1 bilhão). A reforma elevou a capacidade para cerca de 87 mil espectadores e promoveu mudanças estruturais significativas, incluindo novos sistemas de som, iluminação em LED e dois telões.

Entre as novidades, destaca-se ainda o gramado híbrido apontado pela Fifa como o melhor da competição. O estádio receberá cinco confrontos nesta edição: três pela fase de grupos; um pela fase de 16-avos; e outro pelas oitavas.

Arenas modernas

Além do gigante da capital, outras duas cidades mexicanas foram preparadas para receber torcedores de todo o mundo, combinando infraestrutura moderna e a tradicional hospitalidade local.

Na região metropolitana de Monterrey, os olhares se voltam para o Estádio BBVA, situado em Guadalupe. Inaugurada em 2015 para substituir o antigo Estádio Tecnológico, demolido dois anos depois, a arena comporta 53.500 espectadores e chama atenção pelo projeto arquitetônico inspirado na tradição siderúrgica da região.
Seu desenho sustentável oferece ainda uma vista privilegiada para o Cerro de la Silla, montanha que se tornou um dos cartões-postais do estado de Nuevo León. O local sediará quatro partidas: três da fase de grupos; e uma pela fase de 16-avos.

A terceira sede mexicana está em Zapopan. Ali, o Estádio Akron apresenta uma proposta arquitetônica singular. Com capacidade para 46.355 pessoas, a estrutura é envolvida por uma colina artificial coberta por grama natural, criando a aparência de um vulcão adormecido. Durante a Copa, a arena adotará oficialmente o nome de Estádio Guadalajara e será palco de quatro confrontos, todos válidos pela fase de grupos.
*Reportagem de Bernardo Fonseca, João Vitor Cravo e Marcus Vinicius Balbino, sob supervisão de João Alexandre Borges.