Em Itaguaí, cinco mulheres contam sobre seu engajamento na causa dos animais

Município não tem política de tratamento e controle de cães e gatos abandonados nas ruas

Por Jupy Junior

No alto, à esquerda, Manu. Ao centro, no alto, Cintia com Duquesa. No alto, à direita, Viviane. À esquerda, embaixo, Camila. Ao lado dela, Eloisa. Amor incondicional aos bichos
No alto, à esquerda, Manu. Ao centro, no alto, Cintia com Duquesa. No alto, à direita, Viviane. À esquerda, embaixo, Camila. Ao lado dela, Eloisa. Amor incondicional aos bichos -
ITAGUAÍ – Há anjos que cuidam de anjos. É assim no dia a dia de Eloisa Schwartz (43 anos), Viviane Dutra Alves (36), Manu (assim ela gosta de ser chamada, 45), Camila Ferreira Castro (32) e Cintia Costa (42). Cada uma do seu jeito, todas com uma só causa: a proteção dos animais.
O DIA descobriu que em Itaguaí são muitas as pessoas que se ocupam com o bem-estar de cães e gatos, que os adotam, que os alimentam. Às vezes com muita dificuldade, precisando do apoio de outras pessoas. Não há políticas públicas de amparo aos animais abandonados na cidade. Nunca houve. Só o engajamento de pessoas que amam os animais e tentam mobilizar outras pessoas via Facebook e grupos de WhatsApp. Elas contam um pouco do seu dia a dia e como atuam na causa.
ELOISA SCHWARTZ, moradora do Centro
“Vejo animais abandonados o tempo todo, em vários pontos da cidade. A cada esquina tem um animal abandonado, ainda mais agora, em tempos de pandemia, a cada cinco minutos abandonam um. O que mais tem nos grupos são pedidos de ajuda.
Uma história que me marcou quando fui colocar água e ração na praça Vicente Cicarino. Tinha um cachorro deitado dormindo e me chamou a atenção devido um terrível ferimento em uma das orelhas. Comecei a tirar fotos para conseguir ajuda foi aí que se aproximou uma alma caridosa e se dispôs a me ajudar a levá-lo ao veterinário. Graças a várias pessoas, conseguimos os 350 reais para pagar tudo. Só que ao voltar para a praça não conseguimos mais achá-lo. Depois sabemos que ele morreu. É por isso que é importante ter um local público para abrigá-los e tratá-los.
Viviane com Eloísa em mais um resgate: mesmo com dificuldades, cidadãs se mobilizam em torno dos cães abandonados - Arquivo pessoal
Faço trabalho voluntário colocando água e ração (de doação) em alguns pontos perto de onde moro. O grupo que participo tem o projeto de criar bebedouros e comedouros até mesmo para facilitar esse trabalho de rua, pois temos tido dificuldades em conseguir potes para colocar água e o pouco que conseguimos as pessoas levam. Uso o Facebook para postar fotos, vídeos para pedir doações.
Tenho dois cachorros adotados. O primeiro foi jogado dentro do meu quintal, era um filhote, mal conseguia abrir os olhos. O segundo conheci quando comecei a fazer o trabalho voluntário com os animais de rua em 2015 me apaixonei por ele. Faltam políticas públicas para a causa. Muitos protetores já estão com suas casas lotadas com tantos resgates realizados, mas temos a consciência de que é impossível atender toda a demanda”.

CAMILA FERREIRA, moradora do Centro
“Sou protetora voluntária num grupo de proteção aqui da cidade chamado Amor Pet. Todos os dias lidamos com o abandono dos animais. Na cidade há muitos pelas praças e no Parque Municipal, eles são jogados por carros em movimento nas estradas ou abandonados em caixas em nossas residências.
Usamos nossa página no Facebook para tentar obter ajuda e principalmente adoção dos resgatados. Antes da pandemia fazíamos uma feira de adoção duas vezes ao mês. Já participamos de inúmeras conversas com o antigo e atual prefeito e com vereadores exigindo o direito dos animais. Porém, nada foi feito nesse sentido, a não ser promessas vagas em troca de propaganda gratuita com fins eleitorais.
Camila organizava, antes da pandemia, feira de adoção dos pets no centro de Itaguaí - Arquivo pessoal
Tenho seis cães adotados diretamente das ruas e dou o que chamamos de lar temporário para mais duas cadelas. Muitos amigos próximos já adotaram animais comigo.
Os animais errantes acabam se tornando hospedeiros de doenças, como raiva e leishmaniose, que podem contaminar outros animais e também seres humanos. Diante desse cenário, é preciso encarar o abandono como um problema de saúde pública, uma vez que os animais não são vilões e sim vítimas dessa situação de negligência. É dever do estado cuidar desses animais. Como isso não ocorre em grande parte dos municípios brasileiros, sobra para nós, protetores, tomar a frente. Fazemos o possível, tomamos os devidos cuidados com equipamentos de proteção apropriados, colocamos os animais em quarentena e cuidamos da higienização dos ambiente e animais.

VIVIANE ALVES DUTRA, moradora do Ibirapitanga
“Eu e uma amiga fundamos o grupo SOS 4 patas Itaguaí. Nosso objetivo era resgatar alguns animais bem doentes, que não pudessem se manter na rua. Conheço vários grupos em Itaguaí, porque não há ONGs. Na cidade tem muito animal abandonado. Parece que quanto mais resgata, mais aparece. Vi um outro dia, perto do Engenho. Tentei resgatá-lo, mas uma pessoa disse que ele tinha dono. O animal está definhando na rua, a gente ia ajudar, alguns amigos nossos contribuem, mas aquela pessoa não deixou que o ajudássemos.
Relação das pessoas com cães, por exemplo, sugere afetividade intensa e muita compaixão - Arquivo pessoal
Tem gente que tortura os animais que estão na rua. Não há a quem recorrer, não adianta chamar a polícia. Eu tenho uma página no Facebook e um grupo de WhatsApp para nos mobilizarmos. Não me envolvo com política porque não vejo interesse. Não é rentável para os políticos. Quando alguns se pronunciam, apenas prometem: “quando eu for eleito, eu ajudo”. Não tem isso, tem que ajudar agora. Tenho vários animais adotados. São quase 20. Conheço gente que adotou, mas muitos querem animais de raça. Os animais com problemas físicos ou neurológicos são rejeitados. Sei que animais de rua podem transmitir doenças, e não há nada que seja feito para resolver esse problema”.

MANU, moradora do Centro
“Não participo de organizações, mas elas são muito importantes. Em Itaguaí são muitos animais abandonados e doentes nas ruas, principalmente no Parque Municipal, em Chaperó, no centro... Não existe bairros sem cães e gatos abandonados. Na rodoviária existe mais de cem gatos que ficam na escola abandonada. Aparecem à noite mortos de fome, revirando lixo. Vejo muita gente enxotando-os. Eles sentem fome. Por isso eu e outras pessoas os alimentam. Não conheço movimento político a favor dos animais aqui em Itaguaí não. Só promessas.
Os animais dependem de nós, precisamos lembrar disso. Na minha casa tenho mais de 40 animais. Alguns, sem olhos, aleijados, sem orelha, surdo...todos abandonados. Tenho ajuda de pessoas com quem faço contato pelo Facebook. Não tenho grupo de WhatsApp, não recebo ajuda de políticos. Faço tudo sozinha. Quando os bichos ficam doentes arrumo um jeito de levar na Fazenda Modelo, isso se conseguir carona solidária. Cuido de todos, são meus filhos, todos têm sua caminha feita de pneus e suas mantas. Já fui chamada de maluca, há pessoas que evitam me visitar porque aqui em casa tem muito bicho. Meu marido é mecânico industrial, mas com essa pandemia está desempregado fazendo bicos na área de serralheria. Não conseguimos o auxílio do governo federal. Mas meu amor pelos animais supera tudo”.

CINTIA COSTA, moradora do Centro
“Aqui é grande essa questão do abandono, principalmente de filhotes. Já entrei em muitas discussões, até com políticos, para que seja criado um local com atendimento veterinário gratuito para a população, que disponibilizasse, principalmente castração e vacinação para cães e gatos, além de atendimentos habituais e que nesse local tivesse um abrigo com propósito de adoção. É preciso fazer um trabalho de conscientização com a população. Quem sabe até aplicação de multas para quem abandonasse animais. Esse é meu sonho para Itaguaí, e de muitos que também estão nessa causa. Se tem uma coisa que alegra meu coração é quando saio na rua com saco de ração e coloco para os cães que encontro com fome. Essa situação me arrebenta.
Sempre fui atrás dos políticos da cidade para tentar resolver esse problema aqui em Itaguaí. Mas tudo ficou só na promessa e com a fala: ah, é muito difícil, muito gasto. Sempre arrumam uma desculpa.
Tenho dois cães adotados; mas no total, em casa, são 10. Já enfrentei dois moradores de rua drogados para tentar tirar uma cadela deles que estava com uma tira de lençol no pescoço. Mas não consegui, ofereci até dinheiro, mas foi em vão. Todos ficaram me olhando, mas ninguém se aproximou para me ajudar. Nesse dia passei muito mal, foi desesperador. Toda vez que vou ao Parque Municipal caminhar levo um saquinho de ração para alimentar os cães que ficam por lá”.


PARA AJUDAR
Ajuda 4 patas:
Amor Pet:
Anjos de patas:

Galeria de Fotos

No alto, à esquerda, Manu. Ao centro, no alto, Cintia com Duquesa. No alto, à direita, Viviane. À esquerda, embaixo, Camila. Ao lado dela, Eloisa. Amor incondicional aos bichos Montagem sob foto de arquivos pessoais
Camila organizava, antes da pandemia, feira de adoção dos pets no centro de Itaguaí Arquivo pessoal
Viviane com Eloísa em mais um resgate: mesmo com dificuldades, cidadãs se mobilizam em torno dos cães abandonados Arquivo pessoal
Vários animais são socorridos com doenças e em estado precário: gastos muitas vezes são cobertos graças a doações Arquivo pessoal
Relação das pessoas com cães, por exemplo, sugere afetividade intensa e muita compaixão Arquivo pessoal
Feira de adoção mencionada por Camila: antes da pandemia, acontecia duas vezes por mês no centro Arquivo pessoal

Comentários