Byafra faz 40 anos de carreira e aguarda pós-quarentena para comemorar com shows

Cantor niteroiense de 62 anos relembra trajetória e comenta sobre novos trabalhos

Por Irma Lasmar

Com 14 álbuns gravados, dois discos de ouro e sete hits em novelas, o artista publicou o romance
Com 14 álbuns gravados, dois discos de ouro e sete hits em novelas, o artista publicou o romance "Voo de Ícaro" e se formou em Canto pela UFRJ -
Niterói - Parece que foi ontem, mas lá se vão quatro décadas. Com o mesmo pique de um jovem principiante, Byafra não só continua a compor e cantar como prepara seu segundo livro e ainda finaliza um projeto de peça musical. Aos 62 anos de idade, o cantor niteroiense agita as redes sociais com reflexões e poesias enquanto espera passar a quarentena provocada pela pandemia de coronavírus e poderá, enfim, retomar a agenda de shows e participações em programas de rádio e TV em celebração dos quarenta anos de carreira. A programação comemorativa inclui uma turnê nacional que culminará em um espetáculo na Sala Nelson Pereira dos Santos, em São Domingos, a princípio marcado para 30 de maio e sujeito a alteração conforme o panorama do Covid-19 no município e no país. Nascido Maurício Pinheiro Reis, este morador do bairro do Ingá capta inspiração e energia na paisagem da orla durante suas caminhadas diárias. Contudo, com o isolamento social obrigatório, a criatividade para se manter ativo e producente tem sido seu mais novo desafio. 
Com 14 álbuns no currículo e mais de meio milhão de cópias vendidas, rendendo-lhe dois Discos de Ouro, o artista de Niterói contabiliza várias músicas de sua autoria gravadas por ídolos da MPB, como Roberto Carlos, Simone, Rosana, Danilo Caymmi, Chitãozinho e Xororó e Ney Matogrosso, entre outros. Este último, aliás, ao recusar "Sonho de Ícaro", abriu caminho para Byafra gravar aquele que seria seu maior sucesso. "Tinha que ser minha, era destino", acredita ele. A popularidade foi sedimentada pelas participações em trilhas sonoras de telenovelas, como os hits "Helena" em Marrom Glacê, “Vinho Antigo” em Jogo da Vida, "Te Amo" em Salomé e "Seu Nome" em A Gata Comeu. Já a canção "Vida Real", criada especialmente para tema do personagem Tonho da Lua no remake de Mulheres de Areia, não é de autoria do cantor, mas parece ter sido feita para sua voz.
Filho caçula da prole de três crianças de um jornalista perseguido pela ditadura militar e uma funcionária pública, ele perturbava a vizinhança batendo em latas na casa em que morava na Rua Raul Pompeia até que sua avó, Dona Aura, solucionou o problema lhe presenteando com uma flauta doce e a inscrição em um curso de música. Assim surgiu um dos mais queridos artistas da música popular romântica do Brasil. A mãe recebeu a vocação do filho com receio de que o menino se tornasse um desregrado, mas o pai sempre deu apoio, pois apreciava a vida boêmia.
A vontade de cantar o levou ao coral do Centro Educacional de Niterói, comandado na época pelo maestro Hermano Soares de Sá. Logo estaria embarcando com seus colegas de coro para várias apresentações, incluindo uma participação internacional no Festival de Aberdeen, na Escócia, para cantar peças de Villa-Lobos. Foi nessa época, por ser muito magro, que recebeu dos colegas de escola o nome de um paupérrimo país da África como apelido. O bullying virou nome artístico, primeiro com a grafia igual a daquela nação africana, escrito com i, depois substituído por y para diferenciar um do outro em buscas na internet. "Eu, que já era perseguido por ser filho de quem eu era, ser chamado de Biafra era o de menos", ironiza, mencionando o pai, perseguido e preso político em 1964.

A experiência familiar com a ditadura lhe deixou temporariamente gago. "Eu estudava no Centro Educacional de Niterói e a Diretoria ficava de olho em mim, esperando que eu aprontasse alguma por conta do meu histórico paterno. Fui suspenso por criar o jornalzinho ‘O Clandestino’, que era uma grande brincadeira, sem cunho político, até porque eu nem sabia direito o que se passava na política nacional. Quando entrei para o coral da escola e ganhei um concurso, a diretora moderou comigo. Todos esses acontecimentos devem ter mexido com meu inconsciente, pois a gagueira passou na mesma rapidez com que surgiu", relembra ele.
Nos últimos anos, Byafra publicou o romance "Voo de Ícaro", gravou depoimento para o documentário "Alô, Alô, Terezinha", sobre o Chacrinha, e concluiu a faculdade de Canto pela UFRJ - cuja experiência o artista avalia com muitos elogios: "Desenvolvi muito mais a minha técnica vocal, incluindo a respiração, ao aprender músicas eruditas, pois exigem muito mais da voz, fazendo-me dominar melhor o canto popular", explica ele, que revela seus projetos futuros. "A literatura será meu caminho quando eu estiver fazendo menos shows. Também quero compor para o cinema em um futuro próximo. E cursar teatro para melhorar minha performance no palco". 

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