Violência doméstica na pandemia

Atendimentos presenciais são retomados em São Gonçalo e Niterói, onde houve aumento de 93% dos casos em março

Por MARCELO BERTOLDO

O combate à violência doméstica contra mulheres tornou-se um desafio em meio à pandemia do novo coronavírus. Com a retomada gradual dos serviços de atendimento às vítimas, o suporte via telefone ou chamadas de vídeo tem dado voz ao público cada vez mais vulnerável. Segundo a Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, houve um aumento de 50% nos casos no estado durante o período de isolamento social. Em Niterói, apenas no mês de março, o aumento de denúncias registradas foi de aproximadamente 93,3%.

Em ações paralelas com a prefeitura de São Gonçalo, o município tem se esforçado para amparar outro tipo de grupo de risco. Dados do relatório feito pela Coordenadoria de Direitos da Mulher (Codim), com informações coletadas pela Central de Atendimento à Mulher (Disque 180), apontam que, no primeiro trimestre de 2019, havia 114 denúncias de violência contra mulher em Niterói. Este ano, nesse mesmo período, o número cresceu para 155. Em contrapartida, houve uma diminuição dos registros oficiais de casos de violência doméstica, o que, segundo a coordenadoria, aponta o crescimento de sub-notificações.

Com a retomada dos serviços presenciais, a Coordenadoria de Direitos da Mulher organizou um plano de volta gradativa no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) de Niterói, em regime de escala até a normalização do funcionamento, previsto para este mês. Já o Centro Especial de Orientação à Mulher Zuzu Angel (Ceom), em São Gonçalo, registrou 50 atendimentos entre março e maio. Uma média de 25 mulheres foram assessoradas por telefone, dez por vídeo-chamada e 15 presencialmente na sede, que tem atendido em horário reduzido, entre 10h e 14h, de segunda à sexta-feira, em casos de urgência.

"Ao longo da pandemia, o atendimento tem sido prestado de forma remota (ligação, chamada de vídeo ou mensagem). Disponibilizamos os contatos e fizemos uma campanha virtual pelo site da prefeitura, redes sociais e parceiros da rede de atendimento, como juizado, Defensoria Pública e a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher", diz Karina de Paula, coordenadora da Coordenadoria de Direitos da Mulher (Codim).

O novo 'normal' mudou a dinâmica do atendimento presencial, mas ampliou o pedido de socorro às vítimas, principalmente para as que dividem o teto com os agressores. À frente da Codim, Karina ressalta a adoção de ações remotas para denunciar casos de violência doméstica. Por conta das medidas de prevenção à contaminação e disseminação da covid-19, o horário de funcionamento dos serviços de atendimento à mulher foi reduzido e gerou o aumento das subnotificações.

"A procura nesse período foi baixa. Quando retomamos o atendimento, de forma gradual, em alguns dias a procura foi maior. Em março e abril, nosso canal de atendimento recebeu diversas denúncias de vizinhos que eram orientados a chamar a Polícia Militar. Muitos vizinhos relatam gritos, mas não conseguem identificar de onde vêm. O desafio da equipe é pensar estratégias de como identificar o local onde essa mulher está sofrendo a violência e denunciar", explica Karina.

Com a volta dos serviços presenciais, a Codim organizou um plano de retorno gradual dos atendimentos do Centro Especializado de Atendimento à Mulher, priorizando casos de emergência. Em Niterói e em São Gonçalo, a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam) tem dado suporte 24 horas.

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