PM dispersa manifestantes na Lapa com bombas

Cerca de 50 ativistas faziam protesto no bairro. Ao longo do dia, cenas de guerra ocorreram no Centro e na Zona Sul do Rio. Protestos tiveram 77 detidos e 14 feridos

Por thiago.antunes

Rio - A Polícia Militar dispersou, no fim da noite deste sábado, cerca de 50 manifestantes que protestavam na Lapa, no Centro do Rio. Usando bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, policiais do Batalhão de Choque atiraram nos ativistas, que ocupavam as duas pistas no Arcos da Lapa, carregando faixas, cartazes e gritando palavras de ordem. Com a ação da polícia, houve tumulto e correria em um dos principais pontos de lazer da cidade. Muitos estabelecimentos fecharam as portas e turistas se assustaram com a movimentação. Pedestres e jornalistas foram atingidos pelas bombas e muitos passaram mal. 

"O pior de tudo é que hoje eu deixei de ir a um restaurante em Laranjeiras porque estava perigoso lá e optei por vir à Lapa no aniversário de uma tia. Acabou sendo até pior", afirma a manicure Iris Fernandes.

O produtor Renato Abdalla, que faz um evento com bandas de rock aos sábados num bar na Mem de Sá, tentava contabilizar os prejuízos. "Aqui geralmente dá 100 pessoas por edição e hoje só temos 10. Alguns manifestantes tentaram entrar aqui, mas não deixei. Vai rolar o show assim mesmo, mas está sendo um problema", lamenta.

Manifestantes ocuparam os Arcos da LapaAlessandro Lo-Bianco / Agência O Dia


Os manifestantes se dispersaram pelas ruas da Lapa. Momentos antes, os ativistas estavam concentrados nas esquinas da Avenida Mem de Sá com a Rua João Pessoa. O trânsito no local ficou complicado, já que os presentes se sentaram no asfalto. Após alguns instantes o protesto seguiu em marcha até os Arcos, momento em que os policiais recuaram para, 20 minutos depois, reprimirem a ação. Até o momento, 77 pessoas foram detidas durante os protestos no Dia da Independência e 14 ficaram feridas, de acodo com a Secretaria Municipal de Saúde.

Entre os detidos, uma pessoa foi presa por porte de arma; 15 foram autuadas e liberadas — uma delas, um homem com três passagens pela polícia. Entre as autuações, estão crimes de lesão corporal, desacato, resistência e posse de material explosivo. Com os detidos, foram apreendidos um estilingue, um spray de gás lacrimogêneo, pedras, canivete, bolas de gude, bombas artesanais e toucas. Alguns foram encaminhados para a 17ª DP (São Cristóvão) e para a 9ª DP (Catete). Segundo a PM, outros foram transferidos para a 21ª DP (Bonsucesso).

PM perseguiu e prendeu homem (camisa branca) que estaria roubando. Policiais%2C no entanto%2C não revelaram destino do suspeitoAlexandre Brum / Agência O Dia

Um jovem identificado apenas como Gabriel foi levado para a 21ª DP para averiguações. Ele estava com a máscara atrás da cabeça e entregou documentos aos PMs e, ainda assim, foi conduzido pelos policiias. O assessor jurídico do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos, Gabriel Aquino, 24 anos, disse que a ação foi incostitucional. "O que ficou estabelecido é que se os manifestantes tirassem as máscaras e apresentassem documentos, não poderiam ser detidos, já que não existe o flagrante. Além disso, agora estão levando os jovens para delegacias que ficam longe, para que os manifestantes não possam acompanhá-los ou protestar", afirmou.

De acordo com os PMs, um homem de camisa branca foi detido por estar roubando na área. Ele foi perseguido pelos policiais e colocaram em uma viatura. No entanto, os PMs não revelaram se o suspeito foi levado para as delegacias citadas. 

O fotógrafo Alessandro Costa, do DIA, foi agredido com um chute por um policial identificado com o número 3, do Grupamento de de Ações Táticas, quando fotografava um dos detidos

Bombas de gás lacrimogênio e efeito moral foram lançadas contra manifestantes no Desfile CívicoEfe

Confronto em desfile

Quando o Desfile Cívico na Avenida Presidente Vargas chegava ao fim, mais de cem manifestantes — alguns mascarados — entraram em confronto com a polícia na área das arquibancadas, em frente ao palanque principal do evento. Balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas pela PM para dispersar ativistas, que revidaram atirando latas de lixo e pedras. 

A confusão durou pouco mais de 15 minutos. Enquanto o corre-corre tomava conta da pista lateral, o desfile transcorria em frente ao Pantheon Duque de Caxias. A Polícia do Exército fez um cordão de isolamento para impedir a entrada de manifestantes no local. Mais de 200 policiais mantiveram-se perfilados, munidos de escudo e spray de pimenta, e alguns com extintores de incêndio. Mesmo com a mobilização do Exército, o confronto foi contido apenas pela PM.

Batalhão de Choque acompanha as manifestações no Centro do Rio durante o desfile cívicoEfe

No tumulto, famílias que assistiam o desfile da arquibancada se feriram. Grades que isolavam a área foram abertas pelos policiais para a passagem do público. Luiz Fernando Diogo Dumas, de 29 anos, no evento com o filho, Luiz Eduardo, 8, entrou em estado de choque. “Meu filho não para de chorar. Ele vai ficar traumatizado para sempre. Nunca vi tanta covardia. O que eles (manifestantes) querem? Vão acabar com a cidade”, desabafou, lacrimejando por causa do spray de pimenta.

Em Laranjeiras%2C PM atirou bombas de gás e balas de borracha tentando conter cerca de 200 manifestantesJoão Laet / Agência O Dia

Em Laranjeiras, o tumulto começou às 17h, nos arredores do Palácio Guanabara. Manifestantes saíram do Largo do Machado e seguiram para a Rua Pinheiro Machado, onde havia uma barreira de policiais. A PM atirou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Houve correria e a confusão se espalhou por ruas próximas. Integrantes do protesto atearam fogo em lixeiras e depredaram agências bancárias.

Mulher foi atingida pela PM e idosa se feriu

Dos 14 feridos que foram atendidos no Hospital Municipal Souza Aguiar, apenas três seguiam em observação. A aposentada Nair Rosa, de 69 anos, deu entrada na unidade com escoriações no corpo após cair da arquibancada durante o tumulto. “Não consegui escapar, acabei caindo e passei mal”, contou Nair.

Já a autônoma Francisca Barbosa, de 37 anos, foi atingida por um taser (arma de choque) de um policial, na Avenida Senhor dos Passos. “Um PM estava revistando e batendo em um rapaz. Fui com um grupo lá e pedi para ele parar. Daí ele disparou o taser na minha cabeça”, denunciou Francisca, que ficou com um grampo alojado na cabeça. Ela foi submetida por uma tomografia e liberada.

Integrantes do protesto tentaram chegar ao Palácio Guanabara e alguns deles atearam fogo em lixeirasJoão Laet / Agência O Dia

Mais de dez policiais do esquadrão antibombas da Polícia Civil precisaram entrar em ação durante as manifestações pela manhã. Quatro bombas caseiras foram recolhidas ainda sem serem deflagradas, na Avenida Presidente Vargas.

“As bombas ofereciam ameaças à população. Iremos analisar se elas pertencem aos policiais ou se foram fabricadas pelos manifestantes”, explicou o inspetor Cassiano Martins, chefe do esquadrão.

Desfile foi como planejado, diz Comando Militar do Leste

Em nota, o Comando Militar do Leste lamentou os incidentes no Desfile Cívico, mas reforçou que ele transcorreu de acordo com o planejado. O evento durou duas horas e teve mais de 11 grupamentos, entre entidades civis e forças militares. No palanque, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) dividiu espaço com dezenas de autoridades. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes não compareceram.

No início da marcha, a população que lotou as sete arquibancadas reclamou da distância do público em relação ao desfile. “Eu comprei um binóculo, porque não dá para enxergar”, criticou a professora Marize dos Santos, de 37 anos.

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