Barbeiro Waldomiro, o ‘sabe-tudo’ da Câmara dos Vereadores

Ele faz barba, cabelo e bigode de vereadores, além de guardar a sete chaves o que ouve durante o trabalho. Segredo é não ‘dar papo’ para quem fala mal de político

Por thiago.antunes

Rio - Ele não tem cargo eletivo, nem discursa no plenário. Porém, Seu Waldomiro Alves de Salles, de 79 anos, é uma figura eminente na Câmara dos Vereadores, onde há 31 anos faz barba, cabelo e bigode de suas excelências, funcionários e clientes da rua.

Testemunha de momentos históricos no Legislativo carioca — e confidente de muitos parlamentares —, observa a Casa no fio da navalha, com os turbulentos protestos por conta da CPI dos Ônibus. Os segredos ali contados? Não conta nem por decreto.

“São 31 anos nessa cadeira. Por aqui passaram Carlos Imperial, Rivadávia Maya, Américo Camargo, que vem até hoje. Alguns vereadores atuais fazem barba ou cabelo, outros, não. Mas todos me cumprimentam e são gentis comigo”, conta o barbeiro. Entre um corte e uma barba aparada, ouve confidências, que, de tão difíceis de serem descobertas, o fazem um ouvinte privilegiado. “O que ouço fica pra mim. E quando um cliente, seja funcionário da Casa, vereador ou alguém da rua, fala mal de político, não dou papo”.

Seu Waldomiro%2C como é mais conhecido%2C cultua imagem de Brizola na parede%3A quadro foi dado pelo neto do ex-governador%2C Brizola NetoAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Brizolista assumido, já interrompeu o serviço quando viu o então governador passar no corredor do Palácio Pedro Ernesto: “Agradeci pela educação dos meus nove filhos, que estudaram graças a ele. Não tinha condições de pagar escola, até que ele veio junto com o (antropólogo) Darcy Ribeiro e os Cieps. Ele fez esse projeto para dar futuro às crianças. Pena que outros não continuaram”.

Hoje, ele avalia a ocupação que ocorreu na Casa e o acampamento em frente ao palácio, que chega a lembrar a Brizolândia — reunião de simpatizantes do então governador, nas décadas de 1980 e 90, para debater política. “O povo está com justa causa, sabe o que sofre. Moro na Pavuna e pego trem todo dia. Temos problemas na educação, saúde, transporte e segurança. Só não concordo com baderna.”

Paixão por Brizola exposta na parede

Waldomiro foi parar na Câmara de maneira inusitada: o irmão dele, Dário Alves, 75 anos, era funcionário do gabinete do vereador Américo Camargo. O antigo barbeiro, Seu Aires, gostou do corte e lhe chamou. “Nunca mais saí”, diz.

Em mais um dia de trabalho%2C Waldomiro apara cabelo de funcionário da Câmara%2C enquanto ouve históriasAndré Luiz Mello / Agência O Dia

O quadro do Brizola foi presente do neto do ex-governador, Leonel Brizola Neto: “Ele passou por aqui, viu o santinho e perguntou quem era brizolista. Ganhei o quadro”, conta.
Uma curiosidade: a entrada de pessoas com bermuda na Câmara é proibida, exceto para ir ao barbeiro, o Seu Waldomiro.

Um caso de superação

De uma forma ou de outra, a política faz parte da vida de Waldomiro. Antes de ser barbeiro na Câmara, ele trabalhou na Federação Nacional dos Marítimos. Hoje, é diretor do Grupo Coragem de Alcoólicos Anônimos da Pavuna, que ajudou a fundar.

A causa tem um porquê: Waldomiro se tratou e hoje quer ajudar outros dependentes. Pelo trabalho social, já recebeu duas moções honrosas da Câmara, em 2010 e 2012.
“O álcool trouxe problemas a mim e a meus filhos. Me tratei, e hoje ajudo outras pessoas”.

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