Por adriano.araujo

Rio - Nas profundezas, em meio a recifes, polvos e tartarugas buscam alimentos quase que simultaneamente ao balé de arraias-chitas. Não tão longe, cardumes de sardinha e anchova se deslocam em correntes onde, com um pouco de sorte, também é possível avistar golfinhos caçando.

O cenário é típico de uma ilha paradisíaca no Caribe. Mas em tempos de águas cristalinas, as belezas escondidas na Baía de Guanabara emergem aos olhos de quem nunca cogitou a ‘resistência’ de vida em um habitat ainda muito poluído.

Na última semana, os publicitários César Cabana e Felipe Katzer aproveitaram para pescar polvo nas ilhas que ficam entre as praias de Icaraí e Boa Viagem, em Niterói.

“Seria um privilégio ter essas condições constantemente. Se as pessoas utilizassem mais a Baía, saberiam o que estamos perdendo. Já flagrei golfinhos, arraias e pinguins em Icaraí”, detalha Cabana.

Felipe Fernandes pescou uma garoupa%2C enquanto o tetracampeão brasileiro e mundial de pesca submarina Diego Santiago%2C uma corvinaJoão Laet / Agência O Dia

Com o período de troca de águas, conhecido como ‘maré viva’, que deixa o mar claro, mergulhadores e banhistas têm aproveitado para explorar profundezas muitas vezes desconhecidas.

Espécies de peixes, moluscos, crustáceos e plantas, que para muitos não existiam mais, compõem um visual exuberante. Apesar dos olhares em dias ‘caribenhos’, o fundo da Baía funciona há tempos como um ‘berçário’ aquático. Muitas espécies frequentam os recifes esporadicamente, mas outras adotaram as águas quase sempre calmas como locais de reprodução.

“A diversidade não é tão baixa quanto imaginam, nem tão alta como em ambientes conservados. Embaixo da Ponte Rio-Niterói e nas costas de Niterói e Rio existem áreas de alimentação”, explica Eduardo Vianna de Almeida, mestre em Zoologia e subcoordenador de Ciências Biológicas das Faculdades Integradas Maria Thereza. “A parte mais comprometida é a oeste, onde está o parque industrial. Faltam uma melhor rede de coleta e tratamento de esgoto”, conclui Almeida.

Felipe Fernandes captura sua especialidade com um arpão%3A garoupaDiego Santiago / Divulgação

Relatos apontam que circulação de peixes é intensa sob a Ponte

Lá do alto, no intenso trânsito da Ponte, não é possível imaginar que, lá embaixo, a ‘circulação’ de peixes é ainda mais frenético. Além dos pilares de concreto, o proprietário do Centro de Pesca Submarina Xdive, Diego Santiago, de 33, e o pescador Felipe de Sousa Fernandes, de 30, costumam passar boa parte de seus dias às margens da Praia do Flamengo, nas pedras que circundam a pista do Aeroporto Santos Dumont ou perto de Niterói.

Instrutor de mergulho, tetracampeão brasileiro e mundial de pesca submarina e recordista nacional de profundidade em apneia, Santiago conhece bem cada gruta da Baía e garante: “A cada mergulho, ela me surpreende pela renovação. Todos os dias você consegue pegar um peixe para comer. A Baía já me alimentou muito”.

Apesar de excitante, o esporte requer conhecimento. “Já que corremos risco de vida, os cursos servem para orientarmos as pessoas a respeitar os limites e dominar as técnicas”, completa Santiago. Na última sexta-feira, a dupla explorou as lajes do Farol da Feiticeira, às margens da Ponte.

Em meio a cardumes de robalos e anchovas, Fernandes saiu da água com sua especialidade: garoupas. “Há muita vida aqui embaixo. Uma vez vi um cardume de botos e quase enfartei achando que fossem tubarões”, diverte-se.

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