Chacina da Baixada completa 10 anos

Sobrevivente e parentes das 29 vítimas guardam as marcas da violência de um grupo de PMs

Por daniela.lima

Rio - ‘Quando olho para a marca da bala na minha perna, lembro que poderia estar entre os mortos. Foi Deus que me salvou. Escapei por milagre. O tempo passa e as lembranças ficam. Minha vida foi marcada por esta violência. Não dá para esquecer”.

O desabafo é de Cledivaldo Humberto da Silva, de 55 anos, único sobrevivente da Chacina da Baixada, que vitimou 29 pessoas no dia 31 de março de 2005, completando dez anos na próxima terça-feira. O crime ocorreu nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados. Entre os acusados estão quatro policiais militares que foram condenados pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e formação de quadrilha. Um PM foi absolvido e outro morto em 2006, por auxiliar a investigação. Outro militar foi condenado por formação de quadrilha e já cumpriu a pena. 


Cledivaldo estava a 200 metros do bar do Caíque, na Rua Gama, onde dez pessoas foram executadas. As vítimas tinham entre 13 e 53 anos.

“Depois que atiraram contra as pessoas no bar do Caíque, miraram na minha direção. Era para o tiro pegar na minha esposa, mas consegui salvá-la. Fiquei mais de dois anos sem andar por causa do tiro. O pior foi ver tanta gente sangrando no chão”, conta o sobrevivente, ainda traumatizado, que atualmente trabalha como biscasteiro.

A insatisfação dos policiais com a linha-dura imposta nos batalhões da PM na Baixada, principalmente o 15º BPM (Duque de Caxias), onde o comandante era o coronel Paulo César Lopes, teria sido o estopim para a explosão de violência. Antes da barbárie, ele havia afastado 60 policiais militares, presos durante a operação Navalha na Carne.

Luzia Marcia Moura%2C de 56 anos%2C mãe de Sandro Moura Vieira. “Jamais vou perdoar esses assassinos. Pena de morte para eles é pouco. Deveriam sentir a mesma dor que senti, que é a dor de perder um filho. Essa seria a maior punição. Não consigo mais viver. Todos os dias beijo a foto do meu filho para matar a saudade. É como se fosse uma religião”Bruno de Lima / Agência O Dia

“Assumi o batalhão em crise. Policiais se envolviam com corrupção com o transporte alternativo. Acabei com isso. Sofri retaliação e jogaram uma cabeça no pátio do batalhão. Dei uma resposta rápida. No mesmo dia prendi dez PMs. Aí começou a retaliação que desencadeou na Chacina da Baixada”, lembrou o policial, hoje aposentado.

O grupo de militares foi flagrado por câmeras de segurança e preso. No dia seguinte, outros quatro policiais, com a intenção de desestabilizar o comando do batalhão de Caxias, se reuniram num bar da Rua Dom Walmor, em Nova Iguaçu e, num período de uma hora e meia, percorreram 25 quilômetros de carro e assassinaram quem estava pela frente. Das 29 vítimas, oito eram adolescentes. Os PMs dispararam mais de cem tiros.
Mãe da primeira vítima da chacina, a dona de casa Luciene Silva, de 49 anos, fez uma promessa no enterro do filho, que dez anos depois, ainda não conseguiu cumprir.

“Jurei que iria lutar pelo fim da violência. Nossa caminhada pela paz pode ser inútil para muitos, mas não desistiremos de lutar. Isso alivia a minha dor”, afirma.
Ela soube da morte de Raphael Silva Couto, de 17 anos, pelo jornal. O jovem voltava para casa de bicicleta com o amigo Willian Pereira dos Santos, 20, pela Rodovia Presidente Dutra quando, por volta das 20h35, os policiais pararam os dois e saíram do veículo atirando.

“Dizem que, com o tempo, a saudade e a dor diminuem. É o contrário, pois só aumentam. Meu filho não teve tempo de correr. Foi o primeiro a sangrar naquela barbárie. Mas eu perdoo estes policiais assassinos”, garante Luciene.

Após a execução de Raphael e Willian, às 20h40, os policiais mataram, na Rua Gonçalves Dias, o cozinheiro José Gomes de Oliveira, 39. Cinco minutos depois foi a vez do transexual Luis Henrique da Silva, 23, se tornar alvo do grupo, já na Rua São Paulo. Próximo dali, o estudante Sandro Moura Vieira, 16, foi a vítima seguinte, sendo assassinado na Rua Oliveira Rodrigues Alves.

Mãe de Sandro, Luzia Márcia Moura, de 56, ainda sofre com o crime. À base de remédios, incluindo de uso controlado, ela guarda no peito, além de uma enorme cicatriz causada por um transplante de válvula aórtica, em 2011, sua maior dor: a perda do filho. “Mãe nenhuma está preparada para enterrar um filho. Quando ele foi tirado de mim, tive problemas de saúde. Perdi a alegria de viver. Uma hora antes de ele morrer, liguei e inesperadamente ouvi: ‘Mãe, eu te amo!’. Era uma despedida e eu não sabia”, recorda, aos prantos.
Antes de perder o filho na maior chacina da história do país, Luzia já sofria com o preconceito. Sandro era homossexual e chegou a ser rejeitado até pelo pai. “Ele não aceitava o filho gay”, desabafa a mãe.

Luzia recebe do estado, assim como outras mães e parentes da chacina, uma pensão vitalícia — que varia de um até três salários mínimos. Ela ainda ganhou uma indenização de R$ 170 mil, mas a quantia foi gasta em menos de um mês. “É dinheiro maldito. Foi dado por causa da morte do Sandro. Via sangue nele. Comprei casa para mim e para outro filho. Quis me livrar deste dinheiro”, diz.

A partir da morte de Sandro, dez pessoas foram executadas dentro do bar do Caíque, na Rua Gama, na Cerâmica. Quatro eram adolescentes. Em seguida, o grupo de PMs assassinou duas pessoas na Rua Geni Saraiva. A matança continuou em Queimados, onde outras quatro pessoas foram vítimas em um lava-jato no bairro Ipiranga. No Fanchem, um homem foi morto a tiros.

Em seguida, num bar da Rua Carlos Sampaio, foram mortas cinco pessoas, entre eles dois adolescentes. “Fizeram um estrago também em Queimados. Sempre que passo em frente ao lava-jato onde meu irmão foi morto com dois tiros, me arrepio toda. Tomo medicamento para dormir”, contou Silvânia Azevedo, 37, irmã de Renato Azevedo.

A última vítima, Calupe Florindo, de 54 anos, também não conseguiu escapar da fúria dos policiais. Em Nova Iguaçu, parentes das vítimas prometem fazer uma caminhada por todas as ruas onde as pessoas foram mortas, no dia 31. 

Outras matanças que marcaram a Baixada Fluminense

Desde a Chacina da Baixada, pelo menos outras três ganharam repercussão semelhante. Foram as Chacinas do Éden, em São João de Meriti, em 2010; da Chatuba, em Mesquita, em 2012; e a do Parque Paulista, em Duque de Caxias, em 2014. Juntas, elas deixaram 20 mortos.

Em 24 de outubro de 2010, um grupo de pessoas estava em uma festa, em frente a um bar, no Éden, em São João de Meriti, quando homens armados passaram de carro atirando. Seis pessoas morreram e outros nove ficaram feridas.

O crime foi atribuído ao traficante Vinícius Anselmo de Araújo da Luz, o Vinicinho Jogador, que era um dos líderes da favela do Chapadão, na Pavuna. Segundo a polícia, o alvo era o atual namorado de uma mulher que o traficante já tinha se relacionado. Ele foi preso no ano seguinte durante uma operação da Polícia Militar.

Dois anos depois, nove pessoas morreram na Chacina da Chatuba. Um grupo de adolescentes foi até uma cachoeira dentro do Parque Gericinó, em Mesquita, e foi surpreendido por traficantes. Seis jovens foram executados por morar em uma comunidade que era dominada por um grupo rival. Outras três pessoas foram mortas por testemunhar o crime.

Em outubro de 2014, cinco pessoas foram executadas em um bar por um grupo de homens encapuzados no Parque Paulista, em Duque de Caxias. Eles foram abordados, postos de frente a um muro e fuzilados. Três morreram no local e outros dois no hospital. Apenas um adolescente de 12 anos sobreviveu.

Estudiosos da violência urbana afirmam que a Baixada Fluminense apresenta dados que colocam a região como uma das mais violentas do país. A taxa de homicídios chega a 60 para cada 100 mil habitantes, segundo o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análises de Violência da UERJ. Na década de 90, o número chegou a ultrapassar 80 mortes por 100 mil habitantes.

Segundo Ignácio Cano, o histórico de violência da Baixada foi construído pela influência de criminosos na política local e pela falta de interesse do poder público, que, segundo ele, nunca interveio com projetos consolidados de segurança pública na região. Ele diz que, apesar do número de traficantes ter aumentado nos municípios da região metropolitana, os grupos de extermínio e milícias continuam agindo. “Quando a milícia entrou na Câmara do Rio houve uma reação. Mas isso sempre aconteceu na Baixada e nunca interferiram. As chacinas chamam atenção, mas há mortes todos os dias”, disse.

Para Adriano Dias, fundador da ONG ComCausa, que atua pelos direitos humanos na região, logo após a Chacina da Baixada a quantidade de homicídios caiu, principalmente em Nova Iguaçu, que registrou queda de 25%, em 2008. Contudo, a partir de 2009, o número de assassinatos voltou a crescer e os dados de violência já ficaram no nível de 2005.

“Apesar de hoje os números serem próximos aos de 2005, houve o fortalecimento do narcotráfico na região. O território se brutalizou. A polícia ficou mais violenta e houve aumento nos casos de roubos e crimes comuns. Na Baixada, tem mais armas e mais drogas. O criminoso tem que mostrar mais brutalidade e poder para o inimigo, a polícia e a população”, contou. 

De 11 denunciados, apenas seis foram a julgamento

Dos 11 policiais militares presos preventivamente e denunciados pelo Ministério Público, apenas seis foram levados a julgamento. Um foi assassinado e os outros não tiveram a acusação aceita pela Justiça, por falta de provas. De acordo com o promotor que atuou no caso, Marcelo Muniz, ficou provado que cinco deles se encontraram em um bar para uma reunião, provavelmente para decidir o rumo da barbárie. Em seguida, saíram pelos municípios executando pessoas.

Entre os anos de 2006 e 2009, foram condenados pelos assassinatos, pela tentativa de homicídio do sobrevivente e por formação de quadrilha, os soldados Carlos Jorge de Carvalho e Júlio César Amaral de Paula, e também os cabos José Augusto Moreira Felipe e Marcos Siqueira Costa. Todos estão no Complexo Penitenciário de Bangu. A soma das condenações chega a mais de dois mil anos de prisão. O único absolvido pelo júri foi o cabo Inovei de Souza.

O soldado Fabiano Gonçalves Lopes foi condenado a sete anos por formação de quadrilha e já cumpriu pena. “A defesa do Fabiano conseguiu comprovar que ele apenas participou da reunião e não fez parte das execuções. Mas eles formavam um grupo com estrutura definida e atuavam além da Baixada, também no Norte Fluminense, inclusive com a prática de outros homicídios, extorsões e outros crimes”, disse o promotor.

Em outubro de 2006, um dos policiais denunciados, que iria responder em liberdade pelo crime de formação de quadrilha por estar colaborando com as investigações, foi assassinado em uma emboscada. O cabo Gilmar da Silva Simão foi executado com mais de 15 tiros após prestar depoimento. Ele era apontado como peça-chave para a elucidação do caso. Em um dos depoimentos, alegou que os outros PMs foram vistos executando as vítimas da chacina.

Em novembro do mesmo ano, Marcos Siqueira Costa foi esfaqueado oito vezes no Batalhão Especial Prisional (BEP), onde aguardava preso por seu julgamento. Ele sobreviveu. À época, a investigação da polícia indicou que os responsáveis pelo atentado foram os também acusados pela chacina Carlos Jorge de Carvalho e José Augusto de Moura Felipe.

O promotor contou que, mesmo após dez anos do caso, e com a última condenação tendo sido há quase seis anos, ainda sofre ameaças de morte por ter oferecido denúncia contra os policiais: “Ainda sofro ameaças por conta desse caso e preciso ser acompanhado por escolta armada.”

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