PM apreendeu 109 fuzis desde o início do ano

Para coronel da corporação, número de armas em circulação é incalculável. Especialista avalia que somente a cooperação federal pode conter a chegada deste arsenal ao Rio

Por nicolas.satriano

Rio - Em meio a uma nova crise na segurança pública, o coordenador de Comunicação da Polícia Militar, coronel Frederico Caldas, divulgou dados assustadores. Somente neste ano foram apreendidos 109 fuzis no Rio de Janeiro, uma média superior a um fuzil por dia. Para o oficial, não há estimativa de quantos outros estão nas mãos dos traficantes.

“Os números atuais são preocupantes. Um fuzil por dia é muita coisa. A quantidade de armas é incalculável”, disse o coronel Frederico Caldas.

Para ele, a PM não tem condições de resolver o problema sem a ajuda das polícias Civil e Federal. Segundo o oficial, sem uma cooperação, inclusive internacional, o trabalho da corporação será insuficiente.

O patrulhamento das comunidades do Alemão seguiu reforçado nesta terça-feira, um dos raros dias em que não foram registrados tiroteios este anoSeverino Silva / Agência O Dia

“Contrabando de armas é um crime federal. Fuzis do tipo AK-47 são fabricados na Rússia, em Israel ou na Turquia. O Brasil precisa rastrear essas informações, como número de lote, data de fabricação, para quem foi vendido. Não é simples, mas tem que ser feito. Senão, não tem jeito”, explicou Caldas.

A pesquisadora Silvia Ramos, coordenadora do Cesec (Centro de Estudos sobre Segurança e Cidadania), tem opinião semelhante.

“Se PMs forem abandonados nas comunidades, sem inteligência e investigação, o sistema será corroído. O tráfico de armas está intenso. Não é possível que não se faça uma simples escuta para descobrir de onde estas armas estão vindo”, afirmou.

O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), que presidiu a CPI das Armas na Assembleia Legislativa, vai ainda mais além. “Existe o problema dos fuzis e fronteiras, mas 86% das vítimas de violência no estado vêm das armas produzidas aqui. Há uma falha no controle dos paióis públicos, às lojas e ao comércio”, diz o deputado.

No Alemão%2C a polícia trabalha protegida por barricadas Severino Silva / Agência O Dia

Os PMs que participaram da operação que resultou na morte do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, quinta-feira, já depuseram no inquérito instaurado pela Polícia Civil e tiveram suas armas apreendidas. Ontem à tarde, eles estiveram novamente na Delegacia de Homicídios, na Barra, para serem ouvidos.

Quatro policiais da UPP do Alemão e dez do Batalhão de Choque estavam no local onde o menino foi baleado. Segundo fontes da Polícia Civil, um confronto com traficantes teria ocorrido na área.

A perícia feita na escadaria onde o crime ocorreu não conseguiu localizar o projétil que atingiu Eduardo, mas recolheu cápsulas no local. A polícia trabalha com a hipótese de que o tiro que atingiu Eduardo tenha saído de uma pistola.

Mãe desabafa sobre o caixão: "O maldito vai pagar"

A dor e a revolta dos pais e de centenas de amigos em relação à morte trágica de Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, foram a marca do velório e enterro do menino, realizado ontem à tarde no Piauí, terra natal da família. O corpo da criança chegou àquele estado durante a madrugada e foi velado na casa de uma tia. Em seguida, os parentes se despediram da criança no Cemitério de Corrente, a mais de 800 km da capital Teresina.

Inconformada, a mãe do menino, Terezinha de Jesus, fez desabafo emocionado sobre o caixão do filho: “Vou fazer vencer a Justiça. Aquele maldito que tirou sua vida vai pagar. Se eu pudesse, eu mesmo acabaria com a minha vida”. A família deve ficar na cidade por dez dias, até decidir a mudança de vez para a região, já que não pretende morar mais no Complexo do Alemão.

Denise%2C mãe de Caio%2C morto no ano passado%2C falou à comissão da AlerjDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Nesta terça-feira, na primeira aula de leitura do projeto Anjos do Bem sem o menino Eduardo, a mesa do estudante ainda estava intacta, assim como a sala que ele ajudou a arrumar. “Um dia antes de ele morrer, ficou depois da aula me ajudando a arrumar. Essa era a característica mais forte dele: se preocupar com as pessoas”, disse a professora Camila Oliveira.

Participativo, suas fotos nas atividades, como na leitura de livros para idosos em um asilo, estavam em cartazes feitos por seus colegas. A turma deu as mãos e fez um minuto de silêncio antes de a aula, em homenagem ao menino, começar. O clima era de muita comoção. “Era um aluno muito querido por todos, carinhoso. Na última aula ele não queria ir embora e me abraçou”, lembrou a professora.

Também nesta terça, parentes de Elisabeth Alves, de 41 anos, assassinada no dia 1º, dentro de casa, no Alemão, se reuniram com membros das comissões de Direitos Humanos das câmaras estadual e federal. Eles também ouviram os relatos de Denise Moraes da Silva, que viu seu filho ser morto em maio do ano passado, no complexo.

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) vai agendar audiência pública na comunidade. O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) vai investigar, numa CPI, casos de violência contra jovens negros em periferias de todo o país. Membros da comissão deverão visitar o Complexo do Alemão.

Fórum traz esperança de dias melhores

A realização do fórum ‘Alemão, Saídas para a Crise’, depois de amanhã, na sede do Instituto de Estudos da Religião (Iser), na Glória, levou a esperança de dias melhores para líderes comunitários. O encontro, realização do DIA, do Iser e o Centro de Estudos de Segurança a Cidadania, da Universidade Cândido Mendes (Cesec), reunirá a sociedade civil em busca de soluções para conter a escalada da violência no Complexo.

“Será um marco para fugirmos desse círculo vicioso”, diz a estudante de jornalismo Daiene Mendes, diretora da ONG Voz da Comunidade, que edita um jornal na favela. Lúcia Cabral, diretora da ONG Educap, questiona: “Queria saber como essas armas entram na comunidade com tantos policiais aqui dentro.”

Emergência para as UPPs

O governo estadual anunciou que construirá bases definitivas das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em caráter emergencial, mesmo que para isso tenha que passar por cima da lei. “Tem muita burocracia para vencer. Se precisar responder a processo, vou responder. O bandido não espera licença ambiental, não podemos esperar também”, disse o governador.

Pezão também se queixou da dificuldade para adquirir terrenos para as novas UPPs e disse que, se preciso for, as unidades fixas serão erguidas mesmo sem títulos de propriedade.

De acordo com Pezão, serão empregados R$ 70 milhões doados pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para as novas bases. Porém, na lei da Alerj que autoriza a doação, foi definido que apenas R$ 29 milhões dos R$ 70 milhões são destinados à construção e reforma de UPPs.

O resto da quantia é para compra e manutenção de 370 patrulhas da PM e 370 rádios, construção de uma escola de Ensino Médio e um centro vocacional na Maré, além de uma delegacia na região, instalação e manutenção de câmeras em 953 patrulhas da PM e a reforma geral do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP).

Além disso, o governador anunciou que tomará medidas para fortalecer a pacificação. Uma das estratégias, segundo ele, é ampliar o número de convocações dos policiais concursados. “Já integramos à PM mais de 1.100 policiais nos três primeiros meses deste ano. Temos seis mil novos policiais militares concursados em fase de admissão. E se precisar aumentar o número, o faremos para reforçar não somente as UPPs”, afirmou Pezão.

Reportagens de Athos Moura, Caio Barbosa, Constança Rezende e Felipe Freire

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia