PM que reconheceu irmão em crime no metrô lamenta: 'Só ele deu errado'

Coronel da reserva, repudiado por alguns familiares, paga o preço pelo ato de coragem

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Enquanto o cornel da reserva Edivaldo Camelo da Costa, de 53 anos, reconhecia, na Delegacia de Homicídios (DH) da Capital, o próprio irmão como autor da morte do auxiliar de serviços gerais Alexandre de Oliveira, 47 anos, assassinado na estação do metrô da Uruguaiana, na sexta-feira, Edvardo, ex-detento e com inúmeros delitos na ficha criminal, aproveitava para juntar seus pertences e fugir. No dia do crime, por volta das 23h, o suspeito foi flagrado pelo circuito interno do imóvel onde vivia há cerca de quatro meses em Niterói, alugado pelo próprio irmão. Desde então, o acusado está foragido. Já Edivaldo, repudiado por alguns familiares, paga o preço pelo ato de coragem.

Edivaldo%2C repudiado por alguns familiares%2C paga o preço pelo ato de coragemPaulo Alvadia / Agência O Dia

ODIA: O que levou o senhor, um oficial reformado da PM e com mais de 30 anos de serviço, a denunciar o próprio irmão?

EDIVALDO: – Quando vi a imagem, na sexta-feira, não quis acreditar. Parei o carro em plena Ponte Rio-Niterói e na Av. Francisco Bicalho (Centro do Rio) e fiquei procurando um detalhe que me mostrasse que não era ele. Mas mesmo olhando 30 vezes, vi que ele tinha aprontado de novo. Aí decidi ir à 5ª DP (Mem de Sá) e depois segui para a DH, na Barra. Eu não ia ficar bem, não ia conseguir dormir. Fiz o que minha consciência mandou, meu papel de cidadão e não de policial.

Como está sendo a repercussão da prisão?

Estou pagando o preço disso, sendo atacado por familiares. Uma irmã me perguntou se eu estava satisfeito, mas acho que só cumpri o meu papel. Já os amigos estão do meu lado, dizendo que fiz a coisa certa. Mesmo assim, durmo muito pouco.

Como foi a criação do Edvardo?

Tenho uma irmã que trabalha com seguros e outra que é enfermeira. Meu outro irmão trabalhava até ficar doente. Só ele (Edvardo), no meio da criação de meu pai, a pessoa mais íntegra que conheço, deu errado. Não tive coragem de contar a meu pai, que vive no Ceará. Só contei que voltou para o crime. Ele já sabia que o Edvardo não ia dar certo.

Qual foi a última vez que o senhor falou com o Edvardo ou o viu?

Na sexta-feira de manhã ele ligou para a minha sócia e disse que havia arrumado outro trabalho. À tarde, depois de ter matado uma pessoa, me ligou e disse que sairia do emprego para trabalhar em uma pizzaria. Olhei as imagens da câmera do imóvel e vi que ele apareceu por volta das 23h, e ficou de 5 a 10 minutos. Ainda cogitamos a possibilidade de ele voltar para Niterói, mas descartamos. Seria a chance de pegá-lo.

Quando o senhor se reaproximou do seu irmão?

No dia que ele deixou a prisão (13 de março), minha irmã me avisou. Falei que ele sempre foi assim e voltaria a fazer besteira. Mas decidi ajudar e o encontrei após mais de 10 anos sem vê-lo. Ele estava com uma roupa velha e chinelos, sentado em um banco da Barreira do Vasco. O levei para um hotel em Niterói. No dia seguinte, fui alugar um espaço para o meu comércio, mas o dono só aceitou repassar junto a um cômodo. Aproveitei e o coloquei lá. Dei roupas minhas, paguei salário e as contas nos últimos quatro meses, mas nada foi suficiente.

Por que o senhor acha que ele voltou para o crime ?

Ele tinha salário de R$ 2 mil. Um dia me pediu R$ 2,5 mil para um trabalho com resina, pois fazia bicos. Não dei, pois já o ajudava bastante. Acho que ele foi atrás disso, dinheiro fácil. Mas também não sei, ele poderia estar se articulando com outras pessoas, me usando.

Se não fosse pela morte, o senhor acha que ele falaria algo?

Não, ele continuaria me enganando. Só descobri porque deu m... Me arrependo de não ter agido na primeira vez que vi meu pai chorar de desgosto.



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