Mais de 100 mil vão fazer baldeações com mudanças nos ônibus da Zona Sul

Estimativa feita pelo DIA só considera as 21 linhas que serão encurtadas, mas número pode ser ainda maior

Por O Dia

Rio - A uma semana do início das mudanças que prometem melhorar o trânsito, retirando o excesso de ônibus na Zona Sul, ainda restam muitas dúvidas. Há, no entanto, pelo menos uma certeza: vai alterar a rotina de muita gente. No mínimo, 100 mil pessoas por dia terão que descer no meio do caminho e pegar uma condução a mais para percorrer o mesmo trajeto que fazem atualmente.

A conta se baseia no último relatório operacional disponível da prefeitura, de maio, que mostra que 1 milhão de passageiros utilizam diariamente as linhas e terão de se adaptar à racionalização. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), cerca de 20% dos usuários desses coletivos precisarão fazer integração. Ou seja, 200 mil passageiros (ou 100 mil pessoas, já que a grande maioria vai e volta).

Clique sobre a imagem pra visualizar o infográficoArte O Dia

O número pode ser ainda maior, já que a estimativa feita pelo DIA só considera as 21 linhas que serão encurtadas (veja infográfico). Além dessas, foi anunciado que 28 seriam extintas até o fim do ano, mas a SMTR estuda diminuir esse número. As primeiras devem ser eliminadas já a partir de 3 de outubro. Também serão criadas cinco linhas até dezembro.

O plano completo, a ser concluído em 2016, prevê eliminar ou modificar 70% das linhas que cortam a Zona Sul — e que hoje são sobrepostas — e retirar até 700 ônibus das ruas (35% da frota), melhorando o trânsito e reduzindo o tempo médio de viagem, mesmo que as pessoas tenham de fazer mais baldeações.

Isso é o que mais preocupa os passageiros, como o marceneiro Rodrigo Lira, de 30 anos. “Hoje pego um ônibus intermunicipal até a Central e um municipal para a Barra. Pago R$ 5,90 no Bilhete Único. Se tiver que pegar um terceiro, vou ter de pagar mais uma passagem”, diz o morador de São Gonçalo.

"Se eu tiver que pagar uma terceira passagem%2C vou ficar indignado", Rodrigo Lira, marceneiroMárcio Mercante / Agência O Dia

A preocupação dele é porque, no planejamento já apresentado, os ônibus que fazem a ligação do Centro à Barra, passando pela Zona Sul, serão extintos. Os passageiros desse trajeto terão de fazer baldeação em Botafogo. A SMTR, no entanto, garante que ninguém terá de pagar mais caro e que, as duas passagens incluídas no Bilhete Único Carioca, serão suficientes para todos os deslocamentos.

Plano definitivo deve ser apresentado até terça-feira

Perguntada, a Secretaria Municipal de Transportes não respondeu qual a estimativa do total de passageiros que devem ser atingidos pelas mudanças dos ônibus na Zona Sul. Segundo o órgão, o planejamento definitivo será apresentado até terça-feira. A Secretaria Estadual de Transportes informou que não estuda mudar as regras do Bilhete Único estadual, que dá direito a uma viagem intermunicipal e outra municipal, em três horas, com o valor de R$ 5,90. O Bilhete Único Carioca dá direito a dois ônibus municipais por R$ 3,40, em até 2h30. Para obter os cartões, os passageiros devem procurar o site da RioCard, bilheteria do BRT ou unidades do Poupa Tempo.

Especialistas preocupados

Especialistas consideram a racionalização importante para desafogar o trânsito, organizar o transporte e reduzir as emissões de poluentes, mas ressaltam que não pode haver prejuízo econômico para os passageiros. “O fato de quebrar a viagem de algumas linhas não pode significar aumento de custo, senão o planejamento não é bem-sucedido”, ressalta Ronaldo Balassiano, professor de Planejamento de Transportes da Coppe/UFRJ.

“Enquanto não houver integração tarifária de todos os modais (metrô, trens, ônibus e barcas), não é possível fazer a integração física. Tem que ter algum mecanismo que me permita usar quantos modais eu quiser num intervalo determinado”, sugere Alexandre Rojas, especialista em Engenharia de Transportes da Uerj.

Para o professor da Uerj, a espera pela integração deve ser de 3 a 4 minutos, no máximo, para que o tempo total de viagem compense ao passageiro fazer a racionalização. Os dois especialistas concordam que a comunicação do plano até agora foi falha. “Em todo lugar do mundo uma mudança desse peso é discutida com a sociedade. Aqui ninguém sabe o que vai acontecer”, diz Rojas.


Últimas de Rio De Janeiro