Gabriel Chalita: Algum encontro

Troquei de amigos algumas vezes. Conviver não é para amadores

Por Gabriel Chalita Professor e escritor

opinião 6 janeiro 2019
opinião 6 janeiro 2019 -

Remexo em minha bolsa. Não sei por que guardo tanta coisa. Toda vez é isso. Mesmo quando troco de bolsa, é um tal de despejar o que nem sei de uma na outra. E quando saio, e quando preciso de alguma coisa, fico remexendo. Há coisas que nem uso mais. Há, inclusive, bilhetes já sem validade. Há receitas que já foram utilizadas. Maquiagens mais velhas e mais novas. Espelho. Fotografias que vão se acumulando. Cartões que recebo. E paro por aqui. Mas tem mais.

A mulher espera que eu encontre. Sorrio desajeitada. Hei de encontrar. Há outras pessoas esperando. Não sei se dou a vez e se jogo tudo no balcão. E aí encontro. Uma carteira pequena com um cartão de crédito, é só disso que eu preciso. Ela percebe minha agitação e sugere que eu me acalme. E diz, sem acreditar, que com ela acontece a mesma coisa. Quando se tem muito de guardado, tem-se uma certa dificuldade. Excessos trazem peso e nos impedem de encontrar o que precisamos.

Enquanto procuro, remexo em minhas procuras tantas que não deram em nada. As minhas exigências me transformaram em mulher solitária. Tenho temperamento difícil, eu sei, mas os outros são piores. E, além do mais, não são confiáveis. Fui traída por amores e por amigos. E fui acumulando decepções. Os que chegam agora me encontram armada, sem paciência para o improviso. E logo partem. Melhor assim.

No início, quando eu era mais desprevenida, fizeram de mim um alguém sem grandes considerações. Considerei os desprezos e as mentiras e acumulei tudo. E tudo está em mim.

Deixo que quem está atrás passe na minha frente e faça logo o seu pagamento enquanto prossigo na busca. Talvez tenha esquecido em casa. Não. Não é possível. Lembro quando troquei de bolsa.

Troquei de amigos algumas vezes. Conviver não é para amadores. Amei e fui desprezada. Gastei-me em atenção e recebi ausências. Sou daquelas que se põem em prontidão quando o assunto é necessidade. Punha, melhor dizendo. Agora, prefiro a prudência.

Encontrei, enfim, o cartão. Já posso pagar. A mulher me dá um outro sorriso, talvez aliviada. Talvez minha procura a tenha incomodado. Um homem chega em minha direção. "Vera, há quanto tempo". Concentro-me um pouco para acreditar. "Você continua igual, que saudade, como foi difícil te encontrar".

Fecho a bolsa, fico alguns instantes sem reação, e solto algum dizer desconectado. "Você mora aqui perto? Posso te acompanhar? Tem tempo para um café?" Frases e mais frases saem de sua ansiedade. Respondo "sim" a todas. Foi ele um amor no passado. Na época, fechei as portas. Gostava de um outro. De um outro que não gostava de mim. E soube apenas do casamento dele. Dos dois, aliás. Será que ele enviuvou?

Enquanto caminhamos, encontro sentimentos que, na época, eu não encontrava. Tenho vontade de dizer que, se ele quiser, eu quero. Fico pensando na chave de casa, jogada na bolsa também. Vai ser difícil encontrar para abrir? Talvez. Agora só sei que gosto do jeito que ele fala e me olha.

Tantos anos depois...

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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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