Jean-François Véran: O impacto da violência sobre a saúde

O impacto da violência sobre a saúde mental provou ser mais preocupante ainda. Sem necessariamente se manifestar na forma mais aguda de traumas, a violência no cotidiano opera de forma insidiosa

Por Jean-François Véran Antropólogo de MSF e professor da UFRJ

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Rio - Nos últimos 10 anos, Médicos Sem Fronteiras tem dado uma atenção crescente ao impacto da violência urbana sobre a saúde e a saúde mental de pessoas que vivem na América Latina. Inicialmente mais voltada para guerras, epidemias e catástrofes naturais, a organização não costumava detectar em seus radares os contextos de violência dita "crônica", quando não há batalhas nem bombas, mas "apenas" um cotidiano de tiroteios, homicídios, assaltos e "operações" policiais.

O custo em vidas humanas dessa violência crônica passou a ser tão alto, porém, que MSF se convenceu de que esses eram sim contextos que precisavam de uma ação com olhar humanitário. Quem sabe, por exemplo, que entre 2004 e 2012, 41.125 pessoas foram vítimas de homicídio em Honduras? A cifra é nada menos que o dobro das vítimas civis na Guerra de Afeganistão (2001-2014)? Para não mencionar o Brasil, que teve 553 mil pessoas mortas em consequência de violência entre 2006 e 2016. O número supera as mortes que ocorreram nos sete anos de guerra na Síria (350 mil).

MSF buscou então desenvolver novos modelos de projetos adaptados a esses contextos. Nesse processo, aprendeu que o impacto da violência sobre a saúde e saúde mental ia muito além das questões mais óbvias das lesões físicas e dos choques psíquicos traumáticos.

Em Honduras e no México, MSF foi chamada para intervir numa epidemia de dengue com picos anormais de mortalidade em certos bairros urbanos. Eram bairros com uma exposição muito elevada à violência. Qual é a relação entre dengue e violência? Foi o que descobrimos: impossibilidade de fazer controle vetorial (para lutar contra o mosquito) nas casas porque as gangues não liberavam o acesso; profissionais de saúde sofriam ameaças de morte; centros de saúde eram constantemente fechados por causa de tiroteios; "confisco" das chaves da farmácia; impossibilidade dos serviços de emergência trabalharem no período noturno. No final, em tais contextos, era menos arriscado enfrentar a dengue do que encarar o risco de vida que implicava em combatê-la.

Há um médico em Ciudad Jardin, bairro pobre da cidade de Acapulco, no México, que chama o diabete e a hipertensão de "doenças da violência". Ele explica que nos bairros muito violentos, essas doenças crônicas se manifestam mais frequentemente na forma de crises agudas. "Como controlar sua tensão nervosa e sua alimentação com um filho morto, um vizinho desaparecido e uma noite de tiroteio passada debaixo da cama?"

O impacto da violência sobre a saúde mental provou ser mais preocupante ainda. Sem necessariamente se manifestar na forma mais aguda de traumas, a violência no cotidiano opera de forma insidiosa: sono perturbado compensado por consumo excessivo de medicamentos de "tarja preta", estresse do momento e ansiedade do amanhã podem ser potentes desorganizadores da vida cotidiana e provocar níveis altos de sofrimento.

Longe dos grandes conflitos geopolíticos e de sua ampla cobertura midiática, os contextos de violência "crônica" passam despercebidos. Seu custo em vidas e sobre a saúde é, porém, considerável. Ao desenvolver projetos de assistência nesses contextos, MSF também tenta chamar a atenção sobre a situação negligenciada das populações afetadas.

Jean-François Véran é antropólogo de MSF e professor da UFRJ

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