Gabriel Chalita: Sobre minha filha

Promessas delicadas, entre beijos, foram esquecidas. Noites de amor permaneciam em mim, na memória que vivi ou que construí

Por Gabriel Chalita*

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Tenho uma única filha. Nasceu de uma história fugidia de amor. Éramos jovens demais para compreender o que deveríamos ter compreendido. Abandonar as roupas que ontem nos enfeitaram para viver a responsabilidade de dividir. E foi assim que ele se foi, em um vento de medo que levou, avassalador, o que eu tinha até então. Promessas delicadas, entre beijos, foram esquecidas. Noites de amor permaneciam em mim, na memória que vivi ou que construí. Fantasias adolescentes que demoram a se desmanchar. Faz tanto tempo e eu ainda me lembro.


Criei minha filha como pude. Entre inexperiências e decisão, ela foi florescendo. Menina, adolescente, mulher. Tenho um companheiro que gosta mais do silêncio que da participação. É o jeito dele. Mas me faz bem. É bom saber que há alguém. Falo de conquistas rotineiras do trabalho, e ele me escuta. Conto histórias de gente do bairro, e el e acena com a cabeça em sinal de atenção. Vez ou outra, traz alguma notícia. Resumida. Cortada pelo tal silêncio. Tento adivinhar o restante. E ele concorda comigo. Mas não é ele que me preocupa. É minha filha. Há nela uma tristeza que não entendo. Reclama do seu corpo e dos excessos. Come mais do que deve e anda menos do que é necessário para alguém que quer alcançar algum lugar. Estuda por estudar. Faz a faculdade que é mais perto e o curso que é mais curto. Volta logo para casa e se tranca.

Em alguns dias, tenho a sensação de que vivo em um cemitério de emoções. Meu marido olha ao longe e pensa nem sei em quê. Só muda o olhar, quando eu passo; aí, ele acompanha os meus movimentos. Minha filha olha para um computador que acorda e adormece em seu colo. Quando peço, ela me ajuda. Sem reclamações nem alegria. Há sempre um pacote de alguma coisa que ela come sem prestar atenção. Mastiga como se mastigasse a dor de estar viva. E é assim que gasta os dias. O que pode uma mãe fazer? Pergunto de namorados e ela desv ia. N&at ilde;o me sinto no direito de invadir. Mas sou mãe. Sofro com o seu sofrimento.

O ano que vem, ela se forma. Os trabalhos que faz são nada. Quando era menor, gostava de dizer que nunca se casaria, que viveria comigo para sempre, cicatrizando as minhas dores. Ora, não sei de onde ela aprendeu esse texto. Não sou acumuladora de dores. Trabalho o dia todo, gosto da dança, das conversas de rua, das festas que frequentamos por aqui. Antes, ela ia. Agora, vamos eu e o João. Ele, quieto, mas presente.

Hoje, acordei com a certeza de que ela precisa de um amor. E foi isso que eu disse, quando acordávamos o dia, tomando café. Ela me olhou como se olha alguém que vive da ignorância. "Sou gorda, mãe, quem vai me querer?". E se levantou. Da mesa, apenas; não do cansaço. Fui atrás. Nos abraçamos e choramos juntas. Brinquei nos seus cabelos. Disse elogios. Falei dos encontros necessários. Dos sofrimentos que nós duas vivemos. Nos lembramos da fala da infância. Ela queria aliviar-me as dores. E, hoje, sou eu a tentar abrir a porta. E ela me ouvi u. Balan çando negativamente a cabeça. E eu insisti que ela falasse. O que quisesse. A dor compartilhada tem mais chance de ir embora. Mas ela prosseguia falando para dentro. O que pode uma mãe fazer, insistia eu, comigo mesma. Proibir a comida em excesso, obrigar a caminhar por outras estradas, espantar o medo do amar? É preciso amar, "Qualquer forma de amor vale a pena", cantarolei.


Quando nasceu, dei a ela o nome de Lúcia. Lúcia vem de luz, me disseram. E ela pode ser iluminadora, ainda, se se levantar. Meu marido se aproxima do quarto e apenas nos olha, perguntando, sem dizer, se precisamos de ajuda. Dizendo, agradeço. Ele se vai e ficamos nós duas. E vou ca&cce dil;ando palavras em mim para que ela compreenda que há vida fora das prisões que criamos. E que a chave não depende nem do corpo nem dos outros. Basta uma atitude, pelo menos para os inícios. Eu sei que vamos conseguir, foi o que eu disse. Eu sei que ainda haveremos de rir muito, juntas. Eu não sei como, eu não sei quando, mas eu sei que não vamos desistir. E, então, ela me abraçou por conta própria. E, depois, acariciou o meu rosto. E, depois, me avisou que iria tomar banho. E se levantou, cantarolando a música que lembrei. Não quero ser precipitada, mas alguma coisa acendeu em mim a esperança de que os dias que virão, depois de hoje, serão melhores.
 
*Gabriel Chalita é professor e escritor.
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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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