Isabella Perrotta: O dia seguinte à noite nas bibliotecas

Bibliotecas centenárias ao redor do mundo guardam códices medievais e incunábulos do século XV; mapas, estampas e documentos antigos; manuscritos de pensadores clássicos e autores contemporâneos; enfim, todo um testemunho da produção cultural da humanidade

Por Isabella Perrotta*

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“Destruiremos os museus, bibliotecas, academias de todo tipo”, bradava o Manifesto Futurista. O ano era 1909, e embora o seu autor – o poeta Filippo Marinetti – fosse conservador e facista, o manifesto claramente pretendia negar a tradição, a memória e toda a herança do passado.

Quanto aos museus, há algumas décadas vêm tanto se ressignificando conceitualmente, quanto se remodelando fisicamente. Sua transformação passa pelas temáticas abordadas, a arquitetura dos prédios, a expografia ­– cada vez mais interativa ­–, e também pelos serviços e eventos para além do conteúdo de seus acervos e mostras. Mas, nesses tempos de produção de conteúdo digital – e de novos hábitos de leitura decorrentes deles –, o lugar das antigas bibliotecas ainda é pouco discutido. Bibliotecas centenárias ao redor do mundo guardam códices medievais e incunábulos do século XV; mapas, estampas e documentos antigos; manuscritos de pensadores clássicos e autores contemporâneos; enfim, todo um testemunho da produção cultural da humanidade.

A resistência desses templos chama a atenção na experiência em realidade aumentada, intitulada a “A Biblioteca à Noite”, em cartaz no Sesc Copacabana até janeiro de 2020. A mostra de itinerância internacional, concebida pelo cineasta e diretor teatral canadense Robert Lepage, tem como mote disparador um texto do escritor argentino Alberto Manguel, de mesmo título. Entre as dez visitas virtuais que podem ser feitas a bibliotecas célebres, ao longo do “espetáculo”, chama a atenção aquela à Biblioteca Real da Dinamarca. Este santuário neogótico, construído em 1855, nos é apresentado como uma “biblioteca embalsamada”, um repositório de “livros mortos” que não estão catalogados e, portanto, não podem ser consultados. Sua utilidade seria “estética e acústica” para os alunos que nela estudam usando seus laptops. Somos, então, guiados por andares aparentemente lúgubres, com prateleiras com poucos livros, que nos parecem velhos e empoeirados. De cima, vemos as luzes dos laptops refletindo nos rostos dos jovens que ocupam a longa mesa de estudos daquele que nos parece o vão central da biblioteca.

O que a experiência de Lepage não nos mostra é que a antiga edificação, em Copenhague, na verdade nos leva a um arrojado prédio pós-moderno, em forma prismática irregular, coberto por mármore preto e vidro escuro – por isso conhecido como Black Diamond Library –, projetado pelo escritório Schmidt, Hammer e Lassen e inaugurado em 1999. Lá estão reunidas todas as obras impressas na Dinamarca desde o século XVII, além de alguns dos primeiros livros impressos no país desde 1482, e é apenas uma das unidades que compõem o conjunto Biblioteca Real, Biblioteca Nacional da Dinamarca e Biblioteca da Universidade de Copenhague.

A arquitetura externa e interna do icônico prédio é uma atração em si que permite interessante experiência sensorial, mas o uso principal da biblioteca é mesmo o consumo de leitura – bastante dinamizado. Contudo, além de suas funções tradicionais, a biblioteca oferece café, restaurante, eventos e atividades culturais, exatamente nos mesmos moldes dos museus contemporâneos. E isso vale uma reflexão.

Quanto à viagem virtual à Biblioteca Real da Dinamarca, embora um pouco enganosa, nos leva a pensar o futuro dos livros, da leitura e das bibliotecas – uma outra reflexão. Ainda que os livros impressos venham a desaparecer... Que seus antepassados não morram jamais! E sim, vale uma visita à Biblioteca à Noite. Afinal só lá podemos ir da biblioteca do Nautilus, do capitão Nemo, ao Templo de Hase-Dera, no Japão, “literalmente” num piscar de olhos.

*Isabella Perrota é pesquisadora do LEMBRAR – Laboratório de Estudos de Memória Brasileira e Representação da ESPM Rio.
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