Alexandre Bublitz: Força para vencer a desnutrição na Nigéria

Sem saneamento nem moradia, adoecem, e a fome prevalece nos tempos de seca

Por Alexandre Bublitz*

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Ainda é cedo, o sol está forte e me desloco ao hospital. De dentro do carro, olho Maiduguri; a cidade do norte da Nigéria está mais movimentada no domingo. Entre ruelas de chão batido, homens deitam sob a sombra das árvores em tapetes estilo persa enquanto crianças correm, algumas cruzando perigosamente na frente do carro, que anda lentamente.

Um grupo de crianças corre atrás do nosso veículo acenando e gritando: baturi! – “homem branco” em hauçá, uma das trezentas línguas do país. Entre os transeuntes, duas mulheres caminham equilibrando grandes bacias sobre as cabeças. Com postura reta, seus pescoços são capazes de suportar grande peso. Lembro-me de uma paciente que vem se recuperando bem e decido visitá-la hoje.

No hospital, as coisas estão calmas, mas a noite foi difícil: perdemos uma criança com desnutrição grave. Após ver os pacientes da UTI, procuro Hadiza, uma promotora de saúde que me ajuda com traduções. Caminhamos ao local onde ficam pacientes com desnutrição grave. Aqui, recebem fórmula láctea e um preparado de pasta de amendoim rico em vitaminas, minerais e calorias. Em uma maca dentro da barraca de lona, vejo Hauwa, de 3 anos, sentada comendo pasta de amendoim. Abro um sorriso. A menina chegou ao hospital com desnutrição severa agravada por infecção generalizada. Era só ossos e pele, olhos fundos e boca rachada, que nada dizia. Passou dois dias sem abrir os olhos. Nos primeiros dias não conseguia sentar ou firmar a cabeça, com o pescoço muito fraco. Com tratamento adequado, foi melhorando. Seu primeiro sorriso veio quando, ainda fraca, ganhou balões. Hoje, ela senta, sorri com o pescoço erguido e come pasta de amendoim com muito gosto.

Ao ver minha aproximação, a mãe de Hauwa sorri. Ela me agradece em inglês: “thank you”, em um sotaque de quem aprendeu uma palavra em uma língua muito diferente só para demonstrar gratidão. Falmata, 33, é considerada uma pessoa mais velha aqui, onde a expectativa de vida é de 53. Como a maioria das mulheres, casou-se muito jovem. O primeiro filho veio aos 16. Ela já deu à luz nove crianças, e perdeu seis delas.

Falmata conta que ela e o marido fugiram há quatro anos do vilarejo onde moravam para escapar de conflitos. Como ela, milhões de pessoas se abrigam em Maiduguri. Sem saneamento nem moradia, adoecem, e a fome prevalece nos tempos de seca.

O cunhado de Falmata foi uma das vítimas do conflito entre Estado e grupos armados. Deixou sua mulher viúva cuidando de três filhos. Após a morte do marido, ela ficou muito doente e morreu. Falmata adotou as três crianças mas, infelizmente, seu marido não as aceitava. Para poder cuidar deles, divorciou-se, ficando sozinha com três filhos e três sobrinhos.

A família de Hauwa passa dificuldades. Mora em uma casinha de telhas de zinco. Do lado de fora, ela cozinha com lenha lanches para quem passa. O dinheiro nem sempre é suficiente. Quando Hauwa adoeceu, a mãe a levou a um hospital do governo. Infelizmente, aqui não há sistema público gratuito de saúde. Parte das economias foi usada no tratamento, mas ela não melhorou. Falmata procurou ajuda no hospital de MSF, onde o atendimento é gratuito.

Essa impressionante mulher resiste aos desafios e encontra energia para sorrir. Eu agradeço novamente por compartilhar sua história e suas dores. Hauwa teve alta dois dias depois, com um sorriso no rosto já mais bochechudo, caminhando e sustentando o peso da própria cabeça. Escrevo esse texto pensando em Falmata. Sua jornada está longe do fim, mas a imagino caminhando com pescoço firme e de cabeça erguida.
*Alexandre Bublitz é pediatra do Médicos Sem Fronteiras 
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