Júlio Furtado: O poder da expectativa

Para minimizar a profecia auto realizadora, o professor precisa se auto avaliar o tempo todo, identificando as atitudes preconceituosas no dia-a-dia e insistindo numa postura apreciativa que procura ver o lado positivo das crianças e jovens

Por Júlio Furtado*

Júlio Furtado
Júlio Furtado -
Esse ano a famosa experiência da profecia auto realizadora de Rosenthal e Jacobson completa 52 anos e seu resultado continua ignorado por professores e gestores educacionais. A experiência teve como propósito provar que, em situação escolar, as crianças das quais os professores esperam um maior desenvolvimento intelectual, acabam aprendendo mais e melhor. O estudo foi feito, aplicando-se um teste de inteligência nos alunos de uma escola e informando-se a cada professora quais eram os 20% de melhor desempenho. Acontece que os supostos mais inteligentes em cada turma foram escolhidos ao acaso. Após 4 meses, constatou-se que esses alunos tiveram, de fato, melhor rendimento do que os outros, comprovando que a expectativa positiva do professor interfere no rendimento do aluno.

Ao acreditarem que as crianças indicadas eram, realmente, as mais capazes, os professores começaram a ter atitudes de legitimação dessa superioridade, cobrando e acompanhando mais detalhadamente os resultados e oferecendo-lhes mensagens positivas com relação ao potencial de cada uma. De forma análoga, as demais crianças foram classificadas como não portadoras desse potencial, provocando nelas uma adaptação às baixas expectativas. Diante disso os alunos acabaram correspondendo à expectativa do professor. Essa conclusão nos leva a crer que para que todos desenvolvam seu potencial na escola, é preciso que os professores reflitam sobre suas expectativas a respeito de cada aluno e esforcem-se para terem altas expectativas com relação a todos eles.

Outra pesquisa, essa realizada em São Paulo em 1999 pela professora Maria Cristina Matovanini demonstrou que os critérios que os professores utilizam para separar os alunos bons dos alunos ruins não são pedagógicos nem cognitivos e sim atitudinais. O vocabulário, a desobediência, o fato de trazer ou não o material escolar, sentar-se atrás ou na frente da classe, estar sempre atento ou distraído são características suficientes para que alguns professores concluam que o menino é um bom ou um mau aluno. Estamos, aqui, claramente diante de preconceitos.

Para minimizar a profecia auto realizadora, o professor precisa se auto avaliar o tempo todo, identificando as atitudes preconceituosas no dia-a-dia e insistindo numa postura apreciativa que procura ver o lado positivo das crianças e jovens, o que favorece a construção de expectativas positivas com relação a todos. Essa atitude é pré-requisito essencial para que uma turma aprenda e precisa se tornar conteúdo essencial na formação inicial e continuada dos professores.

Essa atitude positiva com relação a todos depende da disponibilidade do professor de se aproximar do aluno. O problema é que tendemos a nos aproximar naturalmente daquelas crianças e adolescentes que correspondem a nossa expectativa. É exatamente nesse ponto que se dá a consciência do professor de se aproximar cada vez mais dos “problemáticos” para que possa assumir uma postura apreciativa e usar a seu favor o poder da expectativa.
*Júlio Furtado é professor e escritor
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