Rio - A prisão há uma semana do coronel da PM reformado Pedro Chavarry, de 62 anos, acusado de abusar de uma criança de dois anos, acendeu um sinal vermelho. Quase mil casos de estupro de vulnerável foram registrados no Estado do Rio somente nos primeiros oito meses deste ano. O DIA teve acesso aos 942 registros realizados entre os dias 1° de janeiro e 30 de agosto nas sete Regiões Integradas de Segurança.
Somente na capital, foram 455. Um dado chama a atenção: a maioria dos abusos (72%) ocorreu dentro da residência da vítima. Para a lei, entende-se como vulnerável quem não pode se defender ou entender o abuso, como as crianças.
Um dos motivos de a capital ter o maior índice de registros é por sediar, desde o ano passado, a Delegacia da Criança e Vítima Adolescente (Dcav). Só ali, 300 casos foram registrados este ano. Os outros registros ocorreram nas delegacias da Baixada Fluminense (172 casos), Região dos Lagos (121) e demais regiões do estado (194).
O fato de 678 das ocorrências terem sido praticadas dentro de casa ratifica um fato sobre este tipo de crime: o autor ser um conhecido. “Muitas vezes o abusador é alguém de confiança. Como a criança tem dificuldade em verbalizar, não se pode deixá-la com qualquer um”, disse a delegada Cristina Bento.
Segundo ela, os números sobre pedofilia são conhecidos como “cifra negra”, devido a sua subnotificação. “Muitas vezes as crianças, por não entenderem os abusos, não falam para os pais”. Além disso, o estupro a crianças muitas vezes não deixa marcas. “O abusador sente prazer em passar a língua por exemplo nas partes íntimas ou acariciar”.
O mais recente registro na Dcav foi sexta-feira. A mãe afirmou que a filha, de quatro anos, relatou que a professora de uma creche na Barra da Tijuca tirou sua calcinha e a acariciou enquanto dormia. “Ela disse que era assim que a professora fazia para ela dormir e pediu para minha filha fazer o mesmo”, contou a avó.
FAXINEIRA VAI VOLTAR A DEPOR
Uma das faxineiras do coronel será chamada para depor pela terceira vez amanhã. ‘Há algumas contradições no depoimento dela que quero esclarecer”, afirmou a delegada Cristiana Bento, da Dcav. A faxineira diz que cuidou “por amor” de duas crianças pequenas que Chavarry teria raptado de uma outra mulher, chamada Laís, na sua casa, na favela Uga Uga, em Ramos. “Ele disse que a mãe era viciada e morava em um abrigo. Não me deu dinheiro para cuidar das crianças. Entrei em depressão quando elas foram levadas embora”, afirmou.
Uma das crianças, uma menina, foi entregue a essa moradora aos quatro meses e devolvida à mãe após 1 ano e meio. Já o menino ficou com ela por quatro dias. As duas crianças já estão com Laís. Também amanhã a delegada vai ao Hospital Geral de Bonsucesso em busca do registro de nascimento de uma bebê em 2009, também filha de Laís, e que teria sido raptada pelo coronel antes mesmo da certidão de nascimento.
5 MINUTOS COM:
Paulo Melo, secretário
'Nunca fui chamado para depor'
Uma comissão para apurar denúncias de abuso contra menores na Alerj criou, em 1993, o serviço Disque-Criança. Foi a ponte para o líder comunitário Wander Germano encontrar o deputado Paulo Melo e passar informações que levaram à prisão do então capitão Chavarry por tráfico de bebês. O mesmo homem que na semana passada foi flagrado, de novo, com uma criança nua. Hoje secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Paulo Melo lamenta: “Não precisava repetir o crime para ser preso”.
1 - Um novo abuso poderia ter sido evitado?
— Sem dúvida: nossos sistemas policial e judiciário falharam à época. Apesar de comandar a prisão do oficial, nunca fui chamado para depor na Justiça ou na sindicância aberta na PM. Um absurdo.
2 - Vai apurar os erros?
— Pedi à Subsecretaria de Direitos Humanos para examinar, inclusive se há conexão de Chavarry com o tráfico internacional de crianças. Também pedi à Subsecretaria das Mulheres o acompanhamento psicológico desta família.
3 - Como o caso do policial chegou ao senhor?
— Um líder comunitário de Bangu ligou para o Disque-Criança e contou que um oficial da PM deixava crianças numa casa. Montei ação com o Serviço Reservado da PM. À noite, lá estava o capitão, pronto para pegar uma criança, despida e entorpecida.
4 - Ele agia sozinho?
— Apuramos que ele se valia de prerrogativas e tinha prestígio na Arquidiocese do Rio. Mas, na ação, ele agia só. Se aproximava de mães presas e de áreas carentes. Enganava as famílias. A casa que ele usava como hospedagem das crianças era da prefeitura e foi cedida para o comando do 14º BPM (Bangu).
5 - O senhor acompanhou o caso?
— Encaminhamos o caso à delegacia, para aprofundar a investigação. Sei que houve ação na PM e nunca esqueci o nome: Pedro Chavarry. Acompanhei a condenação na primeira instância e a absolvição. Quando li sobre a prisão, domingo, a cena da criança despida no chão veio à minha memória. Não precisava de ter mais vítima para mantê-lo preso.




