Rio - O CANDIDATO A PREFEITO pela Rede, Alessandro Molon, coloca o dedo numa ferida que Eduardo Paes prefere deixar de lado: a segurança pública. Enquanto o atual prefeito reitera que este problema é exclusivo do governo do Estado, Molon diz que vai chamar para si a responsabilidade, para devolver a sensação de paz ao morador da capital.
Ex-petista que deixou o partido insatisfeito com a corrupção e as ligações perigosas com o PMDB de Eduardo Cunha, Molon lamenta o pouco tempo de TV e da campanha deste ano, devido à Olimpíada, para se apresentar como novidade num cenário político recheado de caras já conhecidas do eleitorado.
Apresentando-se com candidato de uma “esquerda moderna, que pensa mais nas pessoas do que na ideologia, Molon garante que é o único candidato capaz, num segundo turno, de conseguir votos suficientes ao centro e de eleitores descontentes com a esquerda tradicional para vencer o senador Marcelo Crivella (PRB).
ODIA: O senhor lançou sua candidatura cercado de expectativa, mas na última pesquisa Ibope aparece com apenas 1%. O que aconteceu?
MOLON: Todos os candidatos com menos tempo de TV caíram na última pesquisa. E os que subiram são os com mais tempo. A exceção é o Crivella, que tem um percentual de votos muito amplo e quem já vota nele faz o boca a boca. O tempo de TV numa campanha tão curta está sendo decisivo.
Este quadro não é mais uma prova de que a esquerda errou ao não ter optado por uma candidatura única, unindo o senhor, o Marcelo Freixo e a Jandira Feghali?
Acho importante buscar união sempre. O papel de quem quer governar de verdade, não apenas marcar posição, é dialogar com a maior quantidade de segmentos da sociedade e governar ouvindo todo mundo. Nós procuramos construir alianças. Em reunião com Freixo e Jandira, a única candidatura que não havia sido lançada ainda era a minha. Eles já chegaram à reunião com candidaturas irremovíveis. Não se faz aliança quando apenas um quer, tem que ser uma construção coletiva. Fomos abertos a discutir, mas infelizmente não foi possível.
Então, foi um erro da esquerda?
Nós temos muitos pontos de vista e valores em comum, mas também temos nossas diferenças. A eleição é um momento importante para apresentar ao eleitorado quais são as possibilidades. Eu considero que nossa candidatura tem mais condições de agregar apoios em um segundo turno, o que é importante para vencer eleição. Pode não parecer tão importante no primeiro turno, mas é decisivo no segundo. Ninguém ganha sem conquistar voto para além da esquerda. E a candidatura que tem mais condições de fazer isso é a nossa, pela visão que tem da iniciativa privada, das alianças eleitorais, partidárias e com a sociedade.
O senhor acha que o fato de ter sido tanto tempo do PT pode ter atrapalhado sua candidatura?
Não. Os eleitores que me acompanham viram minha luta durante muitos anos para recuperar o PT e fazê-lo se reencontrar com a sua história. E também minha luta contra a aliança do PT com o PMDB do Rio. O eleitor carioca sabe que o PT, em especial no Rio, errou muito ao se aliar com o PMDB do Eduardo Cunha.
O senhor teria saído do PT se soubesse que o partido romperia com o PMDB? A aliança inviabilizava sua candidatura a prefeito
Não é apenas isso. Será que quem está no PT, contra o PMDB, não tinha visto esses problemas antes? O PMDB do Rio ofereceu ao país alguém (Eduardo Cunha) que acaba de ser cassado por 90% dos votos na Câmara. E ele continua no partido! O que o PMDB do Rio tem a dizer sobre o Cunha? Mas não foi apenas essa questão regional que me afastou, foi também a maneira de o PT lidar com erros e crimes praticados por alguns de seus dirigentes sobre os quais o PT não fez autocrítica, não adotou medidas que mostrassem para o eleitorado que ele vai impedir que isso aconteça novamente. Isto, para mim, foi muito grave.
Todo mundo achava que nestas eleições os políticos tradicionais perderiam espaço para candidaturas como a sua, e que as redes sociais teriam mais importância do que a TV. Mas isso não está acontecendo.
O cenário atual está mostrando que as máquinas ainda têm muito peso. Uma campanha com metade do tempo e menos tempo de TV foi feita, estruturada e preparada para quem tem a máquina vencer. Olha a arrecadação do Pedro Paulo. Nós enfrentamos grande dificuldade, a nossa campanha é muito modesta. A dele é riquíssima. Alguém tem dúvida de que é porque ele representa a candidatura do prefeito e os que têm interesse na prefeitura estão doando para que eles continuem lá e os negócios continuem? 57 servidores doaram a mesma quantia de R$ 5 mil — o Ministério Público chegou a abrir inquérito para apurar isso. É evidente que tem algo estranho.
O senhor é a favor de armar a Guarda Municipal?
Armar não é a melhor forma de fazer o município participar da segurança pública. O atual prefeito não pensa assim, mas a prefeitura é decisiva para a segurança. Toda a parte de prevenção é da prefeitura. A prevenção começa disputando o destino de cada jovem com o tráfico de drogas. Oferecendo educação da primeira infância ao fim do ensino fundamental. Tempo integral em creche e pré-escola. E não o tempo integral do Paes, que termina às 14h30. Que mãe ou pai pode buscar o filho às 14h? Isso é enganação. Se o Rio não tivesse abandonado o projeto dos Cieps do Brizola, muitos dos jovens que hoje seguram fuzis estariam segurando livros, violinos, fazendo pesquisa.
O senhor acha que a culpa é do ex-governador Moreira Franco?
Sim. É responsabilidade dele. O projeto tinha problemas, mas devia ter sido aperfeiçoado, não destruído. Hoje, um em cada quatro jovens no Rio não trabalha. Tem que oferecer cultura, esporte e lazer para a rapaziada. Tem que gerar emprego. Isso é segurança pública. O secretário Beltrame fala isso há oito anos e com razão.
Como gerar emprego para esta garotada?
Com economia criativa. Cultura, música, dança, teatro, audiovisual, gastronomia, comida de botequim, turismo, ecoturismo. Tudo isso gera emprego. Moda. O Rio é a cara do Brasil para o mundo. Temos que usar esta marca. A melhor escola de design da América Latina está na Lapa. Inovação, start up de tecnologia, produção do conhecimento. Temos universidades federais, estaduais, o maior número de doutores do país. Temos que aproveitar isso.
Mas geração de emprego não é só isso
Não! É também parceria com a iniciativa privada em áreas como saneamento. Se a Cedae não tem recursos, outros têm que fazer. Isso é a esquerda moderna, que coloca em primeiro lugar o cidadão em vez da ideologia. Não precisa ser uma empresa pública para fazer saneamento. Mas ele tem que ser feito. Não tem recurso público para fazer, que se faça em parceria. Isto vale para a educação.
De que forma?
Não posso perder um dia da vida das crianças que não têm creche e pré-escola. Hoje não tem para todo mundo. Vou fazer convênios com creches particulares. Enquanto isso, vou construir creche pública. Mas não vou esperar só ter creche pública por ser contra a parceria com a iniciativa privada. Que ideologia é essa que deixa a criança fora da escola e o pobre sem saneamento? Minha esquerda não é essa.
E a segurança?
Vou chamar a responsabilidade pela segurança pública para mim. Não vou resolver tudo sozinho, mas não vou fazer que nem o Paes, que diz que é problema do governador. A responsabilidade é minha também. Vou sentar com o governo do Estado para planejar a presença da Guarda Municipal nos espaços. O rádio da GM tem que estar na mesma frequência da PM. Tem que haver comunicação, articulação, planejamento. Em Minas, fizeram isso. Em lugares onde havia muito homicídio, bastou a presença de camburões para o índice cair até 50%. Não tem que transformar a guarda em polícia. A GM tem que proteger o cidadão, e não as multas de trânsito. As multas são importantes, mas não faz sentido a gente multar e viver numa cidade com medo. Armar guarda é promessa demagógica de quem não entende nada de segurança.
Qual será sua atuação na área de saúde, com as Organizações Sociais (OSs) que estão na mira da Justiça ?
A atenção básica melhorou, foi um avanço importante. Vamos continuar expandindo até atingir 100% da população. Mas o modelo escolhido não é o melhor. As denúncias da imprensa mostraram que é um mecanismo sem transparência e que foi usado para contratar entidades corruptas, que tiraram dinheiro dos médicos e dos remédios das pessoas para pagar cavalo de raça, carro de luxo e almoço em lugar caro. Precisamos substituir as OSs, pouco a pouco, por uma Fundação de Saúde da prefeitura. Para a saúde da família funcionar é preciso ter um histórico do paciente. E esta não é uma preocupação das OSs. Em outras áreas pode haver parcerias, mas com transparência.
E quais suas propostas para a educação, além da creche e pré-escola?
Valorizar o professor. Educação é professor motivado, é gente formando gente. E faz toda a diferença como o professor se sente. É preciso ouvir os professores, coisa que o atual prefeito não faz. Não dá para melhorar a educação sem conversar com quem trabalha com ela. Vamos discutir novo plano de cargos e salários sem PM e gás de pimenta na porta da Câmara. Governar com transparência e participação. Quanto mais transparência, menos corrupção, mais dinheiro para contratar médico e professor. O Rio é o 16º lugar em 27 capitais no ranking de transparência. Não dá. Vamos ser o primeiro. Dá para prometer isso, não precisa de dinheiro, apenas vontade política e de fazer. Seremos o primeiro do ranking no primeiro ano de governo.
E seus planos para a mobilidade urbana?
Vou rever o projeto de racionalização das linhas de ônibus com a participação das pessoas, para que elas decidam o que vai ser feito com o dinheiro delas. Além de rever o projeto, é preciso evitar que tanta gente se desloque tanto todos os dias. No Centro tem muito emprego e pouca moradia. Na Zona Oeste, muita moradia e pouco emprego. Tem que criar moradia onde tem emprego e emprego onde tem moradia. O Centro tem que virar um bairro. Tem que ter gente morando. O prefeito só pensou nas empresas, eu quero pensar nas pessoas. Dá para reaproveitar prédio, casarão e sobrado. Temos que fazer isso em grande quantidade, com a iniciativa privada. O que mantém ruas cheias como acontece no Boulevard são atividades culturais. Ruas e praças cheias geram emprego, renda e segurança.
O senhor fala muito na participação da sociedade. De que forma isso se daria?
Antigamente era feito em assembleias, hoje pode ser feito com aplicativo de celular, para o cidadão saber qual posto de saúde tem pediatra disponível. O celular é uma arma que precisamos usar. Temos que governar com inteligência e usando a tecnologia da informação.
Com o estagiário Caio Sartori




