Morte de trabalhador mostra rotina perigosa de funcionários de concessionárias

Rapaz foi atingido quando entrava em comunidade de São Gonçalo pela Cedae. Light registrou 118 ocorrências contra seus trabalhadores entre janeiro de 2017 e de 2018

Por NADEDJA CALADO e RAFAEL NASCIMENTO

Família de jovem prestador de serviços da Cedae assassinado chega ao IML de Tribobó para liberar o corpo
Família de jovem prestador de serviços da Cedae assassinado chega ao IML de Tribobó para liberar o corpo -

Rio - A morte de Rômulo Farias Silva, 24, morto a tiros na tarde de quarta-feira, quando prestava serviços para a Cedae em São Gonçalo, trouxe à tona os perigos da atuação de trabalhadores das concessionárias de serviços públicos em áreas de risco no estado. Segundo um colega de Rômulo, que também presta serviços para a Cedae e pediu anonimato, atualmente a empresa não pode entrar em boa parte de São Gonçalo. "Temos de fazer só manutenção nessas áreas. E os funcionários que fazem os trabalhos são aqueles que moram e conhecem os locais", afirmou o técnico.

Outra concessionária que atua em outros municípios fluminenses, a Light, registrou 118 ocorrências contra seus trabalhadores, entre janeiro de 2017 e de 2018, entre elas agressões físicas, sequestros e ameaças de morte. "Profissionais precisam atuar em condições de segurança. Quando há atendimento em áreas de risco, a empresa procura manter contato com associações de moradores e a polícia", afirmou a empresa em nota. De acordo com a concessionária, 20% dos seus clientes moram em áreas de risco.

Rômulo, que havia começado no emprego havia apenas três dias, seguia com um colega para cortar a água de uma casa na região, mas a dupla foi abordada por criminosos, ordenando que parassem o serviço. Ao tentar fugir, na Estrada de Paciência, com a Rua Eucaliptos, no bairro Maria Paula, foi baleado ao menos duas vezes e caiu em seguida.

Desse momento em diante, as versões das testemunhas e do Corpo de Bombeiros se desencontram. Uma testemunha contou que o socorro foi acionado e um bombeiro disse que não poderia fazer o resgate, alegando estar sem ambulância e sem equipamento adequado, e que só entraria na comunidade com o apoio da PM, já que o local onde o corpo estava não era seguro.

Minutos depois, PMs em duas motocicletas chegaram, e um policial teria dito que não tinha "condições de prestar auxílio naquele momento". A discussão prosseguiu: "Quando eu pedi uma maca para tirá-lo da comunidade o bombeiro me deu voz de prisão. Foi muita negligência, um abuso de autoridade", disse a testemunha, que filmou trecho da discussão.

Ambulância

Em nota, o Corpo de Bombeiros informou que os bombeiros se deslocavam em viatura para outra ocorrência, e que acionaram uma ambulância, que seria o veículo adequado para socorro; e que a equipe negou ter dado voz de prisão à testemunha. Procurada, a PM informou que policiais foram ao local e que Rômulo "não tinha como ser socorrido pelas motopatrulhas".

Na discussão sobre as responsabilidades, quem mais sofre são familiares e amigos de Rômulo, que acreditam que a vida do trabalhador poderia ter sido salva se o socorro tivesse sido mais rápido. Dona Danielle, mãe do jovem, reconheceu o corpo do filho nesta quinta no IML de Tribobó.

Parentes criticam PM por omissão de socorro

A falta de socorro em áreas de risco também pode ter contribuído para a morte de um policial militar no domingo, também em São Gonçalo. A família do cabo Samuel Ribeiro acusa a polícia de omissão de socorro. Segundo familiares, eles tiveram a informação de que o PM tinha sido sequestrado por bandidos e levado para o Complexo do Salgueiro.

O irmão do policial disse que chegou a ligar para o 7º BPM (São Gonçalo), mas o oficial de dia responsável pelo plantão teria dito que os policiais da unidade não teriam como entrar na comunidade durante a noite. O oficial foi preso administrativamente no início da semana.

O corpo do PM foi encontrado carbonizado na segunda-feira dentro do próprio carro dele. A suspeita é que traficantes da mesma região tenham reconhecido e executado o cabo. A investigação é conduzida pela Delegacia de Homicídios de Niterói e aponta que o traficante Thomaz Jhayson Vieira é suspeito de ter dado a ordem para matar o policial militar.

Demora no atendimento

Familiares e amigos de Rômulo disseram que o impasse sobre atender ou não o jovem no local do crime pode ter custado a vida do rapaz. "Acredito que se o socorro tivesse chegado rápido, ele poderia estar vivo", afirmou Rafael Sales, de 28, amigo de infância do estudante. "É preciso priorizar a vida, e não o protocolo", completou.

Uma testemunha contou que, após a discussão com bombeiros e PMs que teriam se negado a ir até onde Rômulo estava caído, foi ela e outras pessoas da região que retiraram a vítima baleada na maca do Corpo de Bombeiros e a levou até perto da ambulância.

O Corpo de Bombeiros negou e justificou que a primeira viatura a aparecer apenas passava pelo local do crime e que era necessária uma ambulância, que chegou em 20 minutos, para prestar o devido socorro ao baleado. "Diferente dos policiais que acessam locais de risco durante um conflito armado, os bombeiros somente acessam essas localidades após o conflito ter cessado ou avaliarem o melhor momento para acesso", informa o Corpo de Bombeiros. O órgão disse que classifica as áreas de risco como áreas de conflitos previsíveis (conflito acontecendo) e imprevisíveis (probabilidade de ocorrer). Já a PM negou ter omitido socorro e disse que acionou a ambulância do Corpo de Bombeiros e uma patrulha, e que a vítima foi socorrida e levada para o Hospital Alberto Torres.

Rapaz de 24 anos queria ser advogado

Morador do bairro Santa Catarina, em São Gonçalo, Rômulo cursava o 7º período de Direito na Universidade Salgado de Oliveira, e sonhava em se formar e em abrir um escritório de advocacia. "Nossos amigos que advogam sempre o incentivaram e apoiaram muito", lembrou o montador de vidraças Rafael Sales, 28, amigo dele.

O jovem tinha acabado de se formar no curso de bombeiro hidráulico. Antes de trabalhar no Consórcio Módulo, que presta serviços para a Cedae, ajudava o pai em uma serralharia no bairro Boa Vista.

Ele também gostava muito de veículos. "O carro era a paixão dele", conta Gabriel Meireles, 23. Quando foi morto, Rômulo estava em uma Yamaha Crosser 150.

Rômulo será sepultado nesta sexta-feira, às 13h, no Cemitério de Marui, no Barreto, em Niterói. De acordo com os amigos, ele foi baleado no abdômen. "Isso não pode ficar assim. Um cara sonhador, batalhador e que perde a vida assim. O meu amigo estava uniformizado. Estava com a roupa da empresa", completou Rafael Sales. A empresa informou que presta auxílio à família.

Galeria de Fotos

Família de jovem prestador de serviços da Cedae assassinado chega ao IML de Tribobó para liberar o corpo Estefan Radovicz / Agência O
Rômulo foi morto por traficantes enquanto prestava um serviço para Cedae, em São Gonçalo Reprodução Facebook

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