Instrutores e alunos questionam fim de aulas práticas de direção

Declaração de Bolsonaro pega donos de autoescolas e futuros condutores de surpresa

Por Juliana Pimenta

O instrutor Duck com a turma na autoescola, no Centro:
O instrutor Duck com a turma na autoescola, no Centro: "Reduzir aula é diminuir a capacidade da pessoa melhorar no trânsito" -

Rio - O fim de aulas práticas de direção para tirar carteira de habilitação, conforme defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, pegou proprietários e instrutores de autoescolas e futuros condutores de surpresa. Para o segmento, a intenção poderá ter impactos diretos na segurança do trânsito, aumentando o número de mortes em acidentes, além de provocar desemprego no setor.

O vice-presidente do Sindicato dos Empregados em Autoescolas, Delfin Neto, destacou que atual o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) não permite entregar um veículo a uma pessoa que não é habilitada. "É difícil pensar em um cenário sem autoescolas", disse.

Segundo Neto, mesmo que ocorra mudança, os interessados em tirar a carteira vão continuar procurando instrutores para treinamento. "Somos profissionais e as pessoas precisam treinar. Se no Brasil, com aula de direção, já está essa violência no trânsito, imagina sem", destaca.

A declaração de Bolsonaro foi mais uma polêmica depois de já ter proposto o aumento de pontos para motorista infrator perder a carteira e a extinção de radares em estradas. O presidente defendeu que seriam suficientes uma prova prática e uma avaliação escrita para ter a CNH. O argumento de Bolsonaro é que ele mesmo, aos dez anos de idade, dirigia trator em fazenda no interior de São Paulo.

Mário Luiz, conhecido como Duck, é instrutor de autoescola e ficou assustado com a declaração do presidente. "É claro que eu sou contra o alto custo que o aluno paga, mas reduzir aula é diminuir a capacidade da pessoa melhorar no trânsito, que não está bom. Isso é uma jogada errada, uma má influência. O que o povo precisa é de educação", afirmou.

Aluno de uma autoescola no Centro do Rio, Matheus Ramos questiona o papel do governo na proteção dos motoristas. "Eu concordo que fazer autoescola é caro, mas é melhor do que negligenciar a educação. Se fosse barato, seria o mundo ideal, mas prefiro pagar caro do que aprender de qualquer forma e deixar o trânsito mais caótico do que já é", explicou.

EXPERIÊNCIA PESSOAL

André Mello, dono de autoescola, não vê com bons olhos os argumentos do presidente, apesar de reconhecer os problemas no sistema vigente.

"O Bolsonaro falou de uma experiência pessoal dele numa fazenda. O trânsito não é uma fazenda. Ele tratou de uma maneira simplista. As mortes no trânsito trazem prejuízo aos cofres públicos. Eu concordo que devemos desburocratizar o processo, mas os Centro de Formação de Condutores (CFCs) são importantes", destaca.

Ensinando em autoescola há cinco anos, Márcio Albernaz afirma que a formação de condutores é complexa. "Há alunos que já aprenderam a dirigir, como o presidente falou, mas não sabem regras. Se a gente pegar um macaco, consegue treinar ele para dirigir. Mas não vai observar a sinalização e não vai aprender valores de cidadania no trânsito. O papel da autoescola é esse", disse Albernaz.

Mais uma inspiração nos EUA

Como tem acontecido em outras áreas do governo, o presidente Jair Bolsonaro se inspirou, mais uma vez, em um modelo norte-americano. Apesar de também exibir um alto índice de acidentes de trânsito, alguns estados dos EUA dispensam as aulas com profissionais treinados para novos condutores. Para Caio Mendonça, programador de 26 anos e aluno de autoescola, não há como se inspirar em outro país em um caso desses.
"O brasileiro está sempre pensando em cortar tempo e, às vezes, a gente quer ir pelo lado mais fácil, sem aprender direito as coisas. A redução do custo não compensa. A gente vai ter ainda mais condutores inexperientes que não vão estar capacitados no trânsito".
A estudante de Jornalismo Gabrielle Oliveira, 18 anos, é colega de Caio na autoescola e corrobora a opinião do amigo. "Eu acho que o Bolsonaro tem se baseado muito nos EUA. Mas, nós somos brasileiros e temos outra cultura. Mesmo com a autoescola, o trânsito está perigoso agora imagina sem. Imagina eu aprendendo com o meu avô, que já tem todas as manias e todo o jeito dele no trânsito. E ele vai acabar me passando o estilo dele. Eu sei que pelo lado financeiro, é melhor, mas não acho que valerá a pena podendo piorar as agressões no trânsito. Às vezes o barato sai caro", destaca. 

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