Universitária denuncia preconceito racial ao ser acusada de roubo em loja na Saara

Vanessa Coelho e uma amiga, ambas negras, deixavam a Unistar Presentes, localizada na Rua da Alfândega, quando uma funcionária disse a ela para 'devolver a carteira que estava na bolsa'. 'Só ocorreu por se tratar de duas mulheres negras', acusa

Por ADRIANO ARAÚJO

Vanessa Coelho denuncia preconceito racial em loja na Saara após ser acusada de roubo
Vanessa Coelho denuncia preconceito racial em loja na Saara após ser acusada de roubo -
Rio - Uma universitária denuncia ter sofrido preconceito racial dentro de uma loja na Saara, no Centro do Rio, nesta terça-feira, ao ser acusada de roubo. Vanessa Coelho e uma amiga, ambas negras, deixavam a Unistar Presentes, localizada na Rua da Alfândega, quando uma funcionária disse a ela para "devolver a carteira que estava na bolsa".

Vanessa contou ao DIA que a amiga já tinha estado no local e a chamou para conhecer a loja, que vende bolsas, bijuterias e outros artigos para presente. Como não gostaram de nada, decidiram ir embora. Ela carregava uma sacola de verduras, onde a funcionária acusou que a estudante de direito tinha escondido uma carteira que era vendida no local.

"Saindo da loja, a funcionária que fica na porta veio e falou bem no meu ouvido, baixinho: 'Devolve a carteira que está na sua bolsa'. Pedi para ela repetir, e ela não repetiu", contou.

A estudante disse que depois foi chamada pela mesma funcionária, que mudou a versão e falou que não dito nada daquilo, mas no fim reconheceu o erro. "Ela veio contando que não tinha falado aquilo, que apenas estava indicando que a carteira era R$ 15. No fim assumiu que tinha errado, que tinha se confundido e pediu desculpas, que poderia assumir o que falou, mas que não envolvesse a loja", disse Vanessa.

Indignada com o episódio, a estudante fez um desabafo nas redes sociais sobre a "confusão", como a funcionária nomeou o episódio. "Confusa se eu tinha furtado ou não. Não vamos deixar que nos confundam mais com MARGINAIS. Já fomos confundidos, escravizados, humilhados, acoados, subjugados por 300 anos oficialmente", escreveu. A postagem teve vários compartilhamentos e comentários em apoio a Vanessa.

A vítima disse que a gerente da loja tentou abafar a história e pediu desculpas, justificando que "tentaria um treinamento melhor" para os funcionários. Para Vanessa, o caso é nitidamente a materialização do preconceito, pois só ocorreu por se tratar de duas mulheres negras.

"O racismo é materializado ali. Ela não perguntou, ela simplesmente pediu para tirar da minha bolsa algo que não tinha", disse, ressaltando que casos como esses acontecem diariamente com negros e causa traumas. "É difícil mensurar a dor, a indignação, a impotência diante dessa marginalização. Foi um choque muito grande, não consegui dormir direito", falou.

PM diz que não atende 'esse tipo de conflito'

Após a abordagem racista relatada por Vanessa, ela ligou para o 190 da Polícia Militar para pedir ajuda, mas a resposta por telefone era de que a corporação não atendia "esse tipo de conflito", sendo orientada a procurar uma delegacia.
A Secretaria da Polícia Militar disse que não consta descrição de injúria racial feito pela vítima à Central do 190. "Foi relatado um desentendimento entre uma cliente e um funcionário da loja, sendo a parte reclamante orientada a ingressar com uma ação cível", diz a nota. Questionada, a corporação não respondeu porque não atendeu o chamado, independente do tipo de crime relatado pela vítima.
Vanessa esteve na noite desta quarta-feira na 5ª DP (Mem de Sá), mas houve recusa de tipificar o crime como injúria racial, sendo registrado como calúnia. Antes, a estudante procurou a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), mas não conseguiu denunciar o que acredita ser um crime racial, sendo orientada a procurar a distrital do bairro. "O sistema continua falho para questões raciais", lamentou.  
Procurada, a Polícia Civil disse que, durante o atendimento na Decradi, não foram apresentados elementos que configurassem o crime de injúria racial, sendo a vítima orientada a registrar o caso na 5ª DP. O crime de calúnia será investigado pela 4ª DP (Praça da República). 
O crime de injúria racial está previsto no artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal, e acontece quando o autor ofende a dignidade ou o decoro de um indivíduo, utilizando elementos de raça, cor, etnia, religião, condições de pessoas idosas e portadores de deficiência. A pena prevista é de um a três anos e multa.
Já o crime de racismo é previsto na Lei n.º 7.716, de 1989, e ocorre quando as ofensas atingem toda uma raça, etnia, religião ou origem. A lei prevê uma série de situações, fazendo a pena variar, além de ser inafiançável e imprescritível.
Funcionária dispensada da loja

A reportagem entrou em contato com a loja, que pertence a cidadãos chineses. Uma gerente da Unistar Presentes, identificada como Julia Ji, disse que a funcionária que abordou Vanessa estava em período de experiência e trabalhava no local há cerca de 10 dias. Ela foi dispensada após o episódio, segundo a administradora do estabelecimento.

Ji lamentou o episódio e disse que orienta os funcionários a não fazer esse tipo de abordagem sem ter "100% de certeza". "Tem que primeiro olhar a câmera, checar bem para ter certeza e depois falar com a pessoa", explicou.
Racismo e agressão na Pedra do Sal

Na madrugada do último sábado cinco jovens negros afirmam terem sofrido agressões racistas por parte de seguranças e pelos donos de um bar próximo a Pedra do Sal, no bairro da Saúde, Região Central do Rio.

Entre os denunciantes, além de três mulheres e dois homens, está a integrante do coletivo artístico Slam das Minas Andrea Bak, que relatou o caso em suas redes sociais. Na publicação, Bak conta que ela e os amigos foram linchados depois que foram impedidos de usar o banheiro do estabelecimento que seria destinado a clientes brancos.

Ela diz que os agressores usaram barras de ferro e tacos de beisebol, além de socos e ameaças com arma de fogo. A confusão teria atraído pessoas para o local, que também lincharam o grupo. "Foi uma agressão gratuita ao nosso grupo e só queremos justiça e que eles não façam isso com mais ninguém."

A Pedra do Sal faz parte da região chamada de Pequena África, na Zona Portuária do Rio. Símbolo da cultura negra, o local abriga uma tradicional roda de samba às segundas-feiras. O lugar era ponto de encontro de africanos e baianos no Rio no início do século XIX, e é considerado o berço do samba de roda no Rio, com nomes como Donga, Pixinguinha e João da Baiana.
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