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Preso por pedofilia no Cachambi se comunicava na deep web em cinco idiomas
Investigações da Operação Black Dolphin revelam rede especializada em sequestro e tráfico de crianças para fins de exploração sexual, até mesmo com práticas de tortura
Delegada da Polícia Federal e Coordenadora do Grupo de Repressão aos Crimes Cibernéticos no Estado do Rio de Janeiro Doutora Paula Mary. Daniel Castelo Branco
Por Bernardo Costa
O material apreendido na casa de um morador do Cachambi, na Zona Norte do Rio, preso em flagrante, nesta quarta-feira, por armazenamento e compartilhamento de conteúdo pornográfico envolvendo crianças, mostra que ele se comunicava em diferentes idiomas em grupos da chamada "deep web", um ambiente da internet de difícil acesso e rastreabilidade. Além do português, no material apreendido com o homem, de 50 anos, havia mensagens em inglês, espanhol, russo e alemão. Em russo, se podia ler "Recebeu um novo comentário sobre seu trabalho". Já em alemão: "Seria um trabalho dos sonhos comigo, sozinha, em um iate". Segundo a delegada da Polícia Federal, Paula Mary, que coordenou, no Rio, a Operação Black Dolphin, as mensagens mostram as conexões internacionais dos envolvidos e apontam para a necessidade de investigações envolvendo polícias de diferentes países.
"Num primeiro momento, essas mensagens parecem indicar comentários entre os criminosos diante dos materiais compartilhados, um criminoso, digamos, elogiando a atuação do outro", diz a delegada Paula Mary, chefe do Grupo de Repressão aos Crimes Cibernéticos (GRCC) da Polícia Federal do Rio: "Agora, a partir do farto material apreendido, vamos buscar identificar as organizações em que esse homem está envolvido e a localização das pessoas com quem se comunica. Podemos pedir apoio à Interpol e à Europol, pois a maioria dos servidores onde esse tipo de conteúdo está armazenado fica em países do Leste Europeu".
Policiais federais na casa do homem preso em Cachambi: Operação Black DolphinDivulgação/Polícia Federal
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Os policias chegaram até a casa do acusado após rastrearem uma organização criminosa em 20 grupos voltados para a exploração sexual de crianças na deep web e analisar 10 mil contas de e-mails. O homem tido como o líder da organização foi preso na cidade de São José do Rio Preto (SP). Segundo a polícia, ele é especializado em segurança cibernética, e sua responsabilidade na organização é criar os ambientes virtuais, na deep web, para o comércio de material pornográfico envolvendo crianças.
"Além dessa expertise, ele também é o contato de muitas pessoas que compartilham desse mesmo interesse", disse a delegada, revelando que o homem tem um filho de 5 anos, mas que não há evidências de que a criança tenha sofrido abuso. Ele também foi descrito pelos investigadores como um homem machista, autoritário e possessivo.
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SEQUESTRO DE CRIANÇAS
As investigações apontam para uma organização criminosa em formato de pirâmide, com atuação não apenas no compartilhamento e compra e venda de material pornográfico infantil, mas também sequestro e tráfico de crianças para fins de exploração sexual.
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Além de especialistas em segurança cibernética e técnicas de anonimato na internet, há especialistas em pagamentos por criptomoedas e em diversas outras funções relacionadas diretamente com a prática dos crimes. Segundo a delegada Paula Mary, é comum que, ao entrar na organização, o criminoso tenha que demonstrar o que é capaz de fazer e, dependendo do seu grau de atuação, consegue ascender na pirâmide, que movimenta altas quantias em dinheiro.
Delegada da Polícia Federal e Coordenadora do Grupo de Repressão aos Crimes Cibernéticos no Estado do Rio de Janeiro Doutora Paula Mary. Daniel Castelo Branco
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"Quanto mais o criminoso demonstra do que é capaz, do grau de violência que é capaz de praticar contra crianças, e até mesmo atos de tortura, ele acessa grupos diferentes, como num rankeamento. Nos deparamos com casos de crianças sendo abusadas amarradas, amordaçadas, ensanguentadas... Em alguns casos, não conseguimos saber se a criança que está sendo abusada está viva ou morta. É realmente estarrecedor. E as investigações precisam correr contra o tempo, pois, neste momento, pode haver criança sofrendo essa violência absurda, inclusive no Rio", disse a delegada Paula Mary, que detalhou algumas das funções dos envolvidos na organização criminosa:
"Há pessoas que identificam crianças que possam ser sequestradas, outras que realizam o sequestro. Tem os que traficam essas crianças, os que facilitam esse tráfico, os que cometem os estupros e produzem fotos e vídeos enquanto cometem o crime... Essas pessoas atuam em uma organização altamente especializada e com planejamento. Eles, inclusive, são conhecedores de técnicas médicas para que os estupros não deixem marcas nas crianças e elas possam ser abusadas por mais tempo", disse a delegada.
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BUSCA POR MATERIAL EXCLUSIVO
Segundo a delegada, o gatilho para a prática criminosa é o dinheiro, movimentado em altas quantias na deep web. Ela não revelou valores, mas disse que o maior interesse é por material inédito, exclusivo, o tipo de conteúdo pelo qual se paga mais caro:
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"A grande base da pirâmide são os consumidores desse tipo de conteúdo, que estão espalhados pelo mundo e chegam a encomendar o que querem ver: tipo de abuso praticado contra determinado tipo de criança, com características como idade, nacionalidade e fisionomia".
A delegada Paula Mary chama atenção para a importância das denúncias por parte da população:
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"Às vezes, as pessoas tendem a minimizar o compartilhamento e acesso a esse tipo de material, mas esse tipo de atuação é o elo de uma imensa e especializada cadeia de criminosos que vendem, traficam e escravizam crianças sexualmente".