Arte para crônica
Arte para crônica "O tesouro do riso", de Ana Carla GomesArte: Kiko
Por ANA CARLA GOMES
Num desses dias, ao selecionar um álbum da saudosa sambista Beth Carvalho no aplicativo de música, os versos de 'Quero Alegria', de autoria de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, começaram a ecoar pela caixinha de som: "Eu já sei por que choras, palhaço. Eu já sei que alguém não te quer...". Lembrando que até essa figura que marca o nosso imaginário infantil e tem o seu dia festejado na próxima quinta-feira pode ter também os seus instantes de lágrimas.

Choro e sorriso marcam a nossa trajetória. Choramos ao nascer e fazemos nossos pais derramarem lágrimas, em meio a sorrisos, neste instante em que a magia da vida se revela. E vamos experimentando, nos ciclos da nossa caminhada, momentos em que as duas emoções se revezam, inexistem ou até se complementam.

Chorar de felicidade é um registro lindo demais de se ter gravado no coração. É como se o riso tivesse escolhido o olhar para representá-lo em ocasiões muito especiais.

O personagem de maquiagem forte no rosto e bola vermelha no nariz tem o encanto de arrancar o riso fácil dos pequenos e permeia nossa memória infantil. Mas será que, em algum momento, o homem que dá vida a essa fantasia já não guardou seu pranto nos bastidores para cumprir sua missão de nos transmitir alegria? Admiramos essa figura de aura lúdica e, quando aprendemos a rir de nós mesmos, descobrimos o encanto de lidar melhor com nossos problemas e fraquezas.

Mas como fazer graça quando a aridez da vida teima em ser uma visita demorada demais para nós? O que pode motivar nossos sorrisos, mesmo que contidos? Talvez eles possam encontrar alguma razão quando resgatamos uma lembrança boa, acenamos para um amigo ou vemos uma mensagem no celular e rimos, sozinhos, somente com a cumplicidade da tela.

Nunca sabemos como as emoções vão surgir no nosso percurso. Um só dia pode reunir algumas delas. Nosso trajeto é sempre feito de felicidades e tristezas: as nossas, as de quem amamos e as de pessoas mais distantes, mas que nos fazem ser empáticos e solidários.

Em momentos tão ruidosos, as alegrias simples parecem se revelar como verdadeiros tesouros para o coração.