Familiares de Betty Louella estiveram no IML para realizar a liberação do corpoÉrica Martin/Agência O DIA

Rio - A venezuelana Betty Louella Ford Moreno, que morreu ao ser atingida por um andaime em uma das áreas mais movimentadas de Copacabana, na Zona Sul, era camelô e estava trabalhando no momento da tragédia. A O DIA, o marido Abraham Diaz revelou que os dois estavam juntos, mas que ele conseguiu sair a tempo.

"Minha esposa era uma mulher muito alegre, muito empática com as pessoas. Ela se dava bem junto com todas as pessoas, gostava de ajudar, resolver problemas tanto dela como de outras pessoas. Quando aconteceu eu estava do lado dela, só que eu consegui sair e ela não. Foi tudo muito rápido, quando eu estava sentado do lado dela, eu percebi que estava caindo o andar", contou.


Abraham e a família estiveram no Instituto Médico Legal do Centro na manhã deste domingo (8) para realizar a liberação do corpo. No local, ele explicou que a barraca onde vende souvenir, cangas e entre outras coisas, costuma ficar cheia, mas que por sorte não havia clientes na hora da queda da estrutura.

"Como é a temporada do Carnaval tinha muita gente passando nessa calçada. A barraca sempre fica cheia, tem muitas pessoas comprando. Um pouco antes, a gente estava atendendo só uma pessoa, um colombiano. Eram três mulheres e um menino. Aí, depois que a gente atendeu, eles foram embora. Você imagina se tivesse caído nesse mesmo momento? Quando a gente estava atendendo essa pessoa? Não ia ser só ela, ia ser ser também um dos turistas que estavam aí", afirmou.

A estrutura, segundo o viúvo, estava na calçada há cerca de quatro meses. "Esse andaime estava desde o ano passado, por aí em outubro, setembro. Só que quando eu cheguei para armar barraca, eu perguntei para os caras se iam desmanchar o andaime ali, mas eles disseram que não, que iam tirar na parte que estava perto da banca do jornal e como a gente fica um pouco mais na esquina, ali ainda ficaram alguns, porque iam dar continuação na obra na parte da frente da rua", ressaltou.

Na ocasião, Betty teria comentado que a retirada do andaime iria facilitar a passagem de pedestres. "Ela até fez um comentário às pessoas que estavam trabalhando para tirar, porque sinceramente o andaime ficava muito perto da barraca, atrapalhava a passagem da gente", frisou o marido.

Ainda no IML, um amigo da família, André Oliveira, 46 anos, contou que conhece o casal desde a chegada deles no Brasil, há cerca de oito anos.

"Ele é uma pessoa muito querida. Ela nem se fala, a alegria dela sempre contagiava. E a gente está muito chocado com esse acidente lá. Copacabana está sempre tendo esses acidentes e não tem providência. É uma perda muito grande", acrescentou.

André afirmou que Betty estava sentada próxima a barraca quando tudo aconteceu. "De uma hora pra outra veio esse andaime pra cima deles e o marido correu, conseguiu sair e ela como estava mais baixa não teve como levantar e o andaime veio todo pra cima dela. Ela era uma pessoa extrovertida, alegre, sempre sorrindo, vai deixar muita saudade", disse.

O amigo frisou que a tragédia podia ser ainda maior. "Infelizmente foi ela, podia ser mais gente, poderiam machucar muita gente. Graças a Deus que foi uma, podia ser mais de 100 pessoas passando na hora. Aquela estrutura de ferro é muito grande. Foi uma coisa de horror, as pessoas ficaram chocadas", afirmou.
A família tenta realizar os trâmites para cremação. Por enquanto não há informações sobre o velório.
Na manhã deste domingo (8), a esquina da Rua Constante Ramos com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que chegou a ser interditada, foi liberada. Não há mais andaimes no local.
Relembre o caso
Os Bombeiros foram acionados por volta das 10h40 para a ocorrência. Além da mulher, os militares informaram que encaminharam um homem com ferimentos moderados ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea. Ele recebeu alta na tarde deste domingo (8).
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra os destroços deixados pela queda da estrutura metálica. Informações iniciais apontam que o andaime estaria sendo utilizado por uma obra na unidade da rede Drogasmil localizada na esquina das vias.
Por meio do perfil do Centro de Operações do Rio, Eduardo Paes afirmou que as informações sobre as licenças da obra serão enviadas à Polícia Civil, que investigará o caso. "É inaceitável. Estamos levantando todas as licenças dessa obra. O responsável por essa obra tem que responder por esse crime, esse absurdo", disse.
Em nota, a Prefeitura do Rio lamentou o ocorrido e se solidarizou com a família das vítimas. O órgão frisou ainda que a obra não é de responsabilidade do município.

"Por não se tratar de alteração ou acréscimo no imóvel, a obra não exigia licenciamento junto ao município. No entanto, é responsabilidade do edifício contratar empresa ou engenheiro técnico responsável para o acompanhamento da obra. A Prefeitura do Rio acompanha a apuração das responsabilidades e o desfecho do caso", explicou.
O caso é investigado pela 13ª DP (Ipanema). Funcionários e o engenheiro responsável pela obra já prestaram depoimento. A perícia foi realizada no local, e análises complementares ainda serão feitas. Agentes verificam imagens de câmeras de segurança e realizam outras diligências para esclarecer as circunstâncias da queda do andaime.
Crea determina fiscalização
Após a tragédia, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea) determinou a apuração imediata das circunstâncias da queda. Ainda no sábado (7), a fiscalização constatou que as duas empresas que atuam na obra têm responsáveis técnicos registrados no Conselho e possuem as Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) emitidas e vigentes. No entanto, ainda não é possível informar as causas do acidente, uma vez que não há conclusão do trabalho de perícia.
A equipe apurou ainda que a empresa responsável pela obra estava fazendo a movimentação do andaime desde novembro. O Crea vai oficiar o condomínio e a Polícia Civil para ter o relatório da perícia.
Em caso de irregularidades, poderá haver suspensão cautelar de registros das empresas no Conselho, assim como de seus responsáveis técnicos.
"A Gerência da Fiscalização do Crea ressalta a importância de toda obra ou serviço de Engenharia ter sempre um responsável técnico para o projeto e execução da montagem de andaimes e que eles têm o dever de calcular e acompanhar a montagem desses equipamentos, considerados de extrema sensibilidade, uma vez que, frequentemente, são utilizados em vias públicas e com cargas de pessoas trabalhando neles", explicou em comunicado.
Caso semelhante
Em junho do ano passado, uma marquise de um prédio em Copacabana, na Zona Sul, também desabou. Na ocasião, um homem com ferimentos leves foi atendido no local e liberado em seguida.

O acidente ocorreu na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Rua Miguel Lemos. No local, também estava sendo realizada uma obra com o uso de andaimes.
*Colaboração Érica Martin