Guilherme Fernando da Conceição Gomes foi preso por engano e solto nesta quarta-feira (13)Acervo pessoal

O motoboy Guilherme Fernando da Conceição Gomes, de 33 anos, deixou a Cadeia Pública Paulo Roberto Rocha, no Complexo de Gericinó, na manhã desta quarta-feira (13), carregando o alívio de reencontrar a família e o peso de ter passado dez dias preso por um crime que afirma não ter cometido. Em entrevista exclusiva ao DIA, pouco depois de ganhar liberdade, ele descreveu como “surreal” a experiência de ter sido preso após um reconhecimento fotográfico posteriormente considerado ilegal pela Justiça.


“É um sentimento surreal. Nem era para eu estar lá, na verdade. Eu estava há 13, 14 dias e parecia que eu estava há 10 anos na cadeia”, afirmou.

Guilherme foi preso no dia 3 de maio, enquanto buscava atendimento médico no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul. Segundo a defesa, ele havia sofrido uma queda de moto horas antes e procurou ajuda por causa das dores no braço. No mesmo horário, ocorria uma tentativa de assalto a um policial militar na Tijuca, Zona Norte.

De acordo com o relato do motoboy, ainda dentro do hospital, um policial tirou uma foto sua sem maiores explicações.

“Cheguei para um atendimento porque sofri um acidente de moto. Um policial tirou minha foto e me mostrou um papel dizendo que outro rapaz tinha o mesmo endereço que eu. Depois falou que eu tinha passagem e o outro não tinha. Fiquei sem entender o que tinha a ver com isso”, contou.

Segundo Guilherme, pouco depois ele foi levado para a delegacia e acabou preso sem conseguir se defender.

“Foi uma sensação de impotência gigante. Eu mostrava minha inocência e mesmo assim me ignoraram. Me prenderam sem nem me escutar”, disse.

A prisão ocorreu após familiares do policial, vítima da tentativa de assalto, apontarem Guilherme como um dos suspeitos ao verem a fotografia tirada no hospital. A própria vítima, segundo a defesa, inicialmente não o reconheceu.

O motoboy relatou o impacto psicológico de ser apontado como criminoso por pessoas que nunca tinha visto antes.

“Eu pensei: ‘Que isso, cara?’. Eu nunca vi essas pessoas me julgando, me apontando”, afirmou.

Guilherme também falou sobre o constrangimento de voltar ao sistema prisional, já que havia cumprido pena anteriormente por outro caso. Segundo ele, a antiga passagem pela polícia não poderia justificar a nova acusação.

“Eu reconheci meu erro no passado, paguei, aprendi. Daquele tempo para cá é só trabalho, filho, casa... Eles interromperam isso em mim”, declarou.

Ao deixar a prisão, o primeiro desejo foi reencontrar a família, especialmente o filho de três anos.

“Foi uma coisa surreal. Ficamos eu e ele se olhando. Eu falei: ‘Cheguei, é o papai’. Foi um reencontro emocionante”, contou.

Ele também lamentou ter passado o Dia das Mães longe da família por causa da prisão.

“Agora vai ser comemorado com mais gosto, com mais força”, disse.

Apesar do trauma, Guilherme afirmou que pretende reconstruir a vida e buscar reparação judicial.

“Vou correr atrás dos meus direitos. Quero arrumar um emprego, reconstruir minha vida e cuidar dos meus filhos como sempre fiz”, afirmou.

Justiça anulou reconhecimento fotográfico

A liberdade de Guilherme foi determinada após o juiz Marcello de Sá Baptista rejeitar a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro e considerar ilegal o reconhecimento fotográfico realizado pela polícia.

Na decisão, o magistrado criticou a condução da investigação e apontou descumprimento do artigo 226 do Código de Processo Penal, que estabelece regras para reconhecimento de suspeitos.

“É lamentável que, após anos de jurisprudência consolidada do STJ, fique exteriorizado o despreparo de agentes de segurança pública”, escreveu o juiz.
O caso, revelado inicialmente pelo DIA, aconteceu no domingo (3). A investigação começou após uma tentativa de assalto ocorrida na Rua Pareto, na Tijuca, na manhã daquele domingo. Segundo o registro de ocorrência, dois homens em uma motocicleta tentaram roubar um policial militar que estava com a família dentro do carro. Houve troca de tiros e um dos suspeitos morreu após cair próximo à UPA da Tijuca. O outro conseguiu fugir.
A defesa de Guilherme sustenta que ele estava no Rio Comprido, a caminho do Hospital Miguel Couto, no momento do crime. Imagens de câmeras de segurança mostram o motoboy caminhando com a esposa em direção a um ponto de ônibus às 11h34, minutos antes da tentativa de assalto, registrada por volta das 11h45.

Além das imagens, a defesa apresentou registros de celular mostrando buscas por rota até o hospital e mensagens pedindo dinheiro para um carro de aplicativo porque o ônibus demorava.

A advogada Yara Moraes afirmou que Guilherme nunca foi ouvido formalmente pela polícia antes da prisão e que a investigação ignorou provas importantes.

Segundo ela, outro homem baleado teria dado entrada no mesmo hospital após o confronto na Tijuca e seria o verdadeiro envolvido no crime investigado.

Mesmo após a decisão judicial reconhecer a ilegalidade da prisão, Guilherme afirma ainda tentar processar tudo o que viveu nos últimos dias.

“Até agora estou tentando encaixar esse quebra-cabeça. Ainda sem acreditar que isso aconteceu comigo”, completou.