Jairinho é acusado por homicídio qualificadoDivulgação/Brunno Dantas e Felipe Cavalcanti/TJRJ
O depoimento, que começou de forma tranquila, ganhou outros contornos quando Leila passou a ser confrontada sobre as diferenças entre o que relatou na delegacia em 2021 e o que afirmou agora, diante dos jurados. Em diversos momentos, a testemunha demonstrou dificuldade para lembrar detalhes e alternou versões sobre fatos considerados centrais pela investigação, o que provocou uma sequência de discussões entre acusação e defesa.
O principal ponto do depoimento girou em torno de Henry na tarde que antecedeu sua morte, no dia 7 de março. Em juízo, a ex-funcionária afirmou repetidas vezes que não viu o menino mancando e que, para ela, Henry "andava normalmente". "Ele saiu do quarto andando normal", respondeu a testemunha ao ser questionada.
Segundo Leila, a informação de que a criança estaria mancando teria partido da babá, Thayná de Oliveira Ferreira, que trabalhava diretamente com a criança. "Quem falou que ele estava mancando foi a babá. Ela falou que ele estava mancando e até filmou para mandar para a Monique. Eu não vi ele mancando".
A declaração chamou atenção porque o conteúdo apresentado pela acusação mostrava que, em depoimento prestado anteriormente à polícia, Leila havia mencionado que Henry aparentava estar mancando e que parecia assustado depois de sair de um quarto onde havia permanecido com Jairinho.
Questionada sobre a divergência, ela hesitou diversas vezes, afirmou que já se passaram mais de cinco anos desde os fatos e disse que não se recordava de vários trechos específicos.
Em determinado momento, pressionada sobre o conteúdo do depoimento policial, respondeu: "Se está escrito no depoimento, eu confirmo." Pouco depois, voltou a negar que tivesse visto Henry mancando.
A oscilação provocou reação imediata no plenário. Enquanto a acusação insistia que a testemunha esclarecesse qual versão deveria prevalecer, a defesa acusou o Ministério Público de pressionar Leila para que confirmasse declarações que ela dizia não recordar.
O clima ficou ainda mais tenso quando surgiu outro ponto sensível: o estado emocional de Henry naquele dia. Em depoimentos anteriores, Leila havia dito que a criança parecia "assustada" ao sair do quarto. Nesta quinta, voltou a demonstrar incerteza. Primeiro disse não se lembrar de ter usado a expressão "apavorado"; depois admitiu que Henry poderia estar "assustado", mas negou ter percebido pânico. "Apavorado eu não vi. Assustado… pode ser. Mas eu não vi ele apavorado", declarou.
A testemunha também relembrou um episódio citado desde o início da investigação: Henry teria sido chamado por Jairinho para ir até o quarto ver algo que ele havia comprado. Segundo Leila, foi a única vez em que viu a criança entrar sozinha no cômodo com o então padrasto.
Ela contou que estava trabalhando na cozinha e na área de serviço e viu o menino ir até o quarto após ser chamado por Jairinho. Depois, segundo ela, a criança reapareceu normalmente.
Leila afirmou que, no período em que trabalhou no apartamento, a criança aparecia pouco nas áreas comuns da casa e costumava permanecer no quarto com a babá ou com Monique. "Eu o vi poucas vezes. Três ou quatro vezes no colo da Monique. Ele não costumava sair muito do quarto."
Outro momento importante do depoimento envolveu a relação da testemunha com a família de Jairinho antes mesmo de começar a trabalhar no apartamento do casal.
A testemunha falou que já prestava serviço havia cerca de um ano para a família de Jairinho. Trabalhava como passadeira e fazia serviços domésticos. Segundo ela, foi justamente Manuela, mãe de Jairinho, quem a indicou para o apartamento onde o vereador e Monique haviam acabado de se mudar.
Ela relatou que Jairinho aparecia pouco na casa da mãe e que sabia dele apenas por comentários de familiares e funcionários. "Falavam que ele era médico, que era um bom profissional. Eu nunca fui de procurar saber da vida particular de ninguém."
A ex-funcionária também confirmou que, após a morte de Henry, Monique entrou em contato com ela. Disse que recebeu uma ligação por volta de 9h30 e ouviu da própria mãe que a criança havia morrido. "Perguntei o que aconteceu. Ela falou que depois me explicava." Mais tarde, segundo Leila, ela foi até o apartamento e encontrou Monique chorando.
Conversas entre a funcionária e Monique depois do crime
A acusação ainda apresentou mensagens trocadas entre Leila e Monique dias depois da morte do menino. As conversas mostravam a testemunha avisando que havia sido chamada pela polícia para depor e mencionando contato com Talita, irmã de Jairinho, além de referência ao advogado André, ligado à defesa do casal.
Anteriormente, a ex-funcionária disse que não tinha conversado com a mãe de Henry antes de seu depoimento. Confrontada com as mensagens, ela confirmou parte dos contatos e disse que chegou a ir a um escritório de advocacia antes de prestar depoimento.
A sequência de contradições e lembranças fragmentadas transformou o depoimento em um dos mais tensos do julgamento até agora. Em várias ocasiões, a juíza precisou intervir para conter discussões entre o assistente de acusação e os advogados de defesa sobre a condução das perguntas e a insistência em determinados pontos.
Apesar do embate, Leila foi enfática ao negar ter presenciado qualquer episódio direto de agressão contra Henry enquanto trabalhou no apartamento. Ela também disse que nunca viu comprimidos misturados em taças ou qualquer situação que indicasse violência física na sua presença.
O depoimento é o quarto desta quinta-feira (28). Mais cedo, o júri ouviu Natasha de Oliveira Machado, também ex-namorada de Jairinho, filha dela, Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, de 18 anos, e Débora Mello Saraiva, também ex-namorada de Jairo. As três relataram episódios de agressões envolvendo o ex-vereador.
Jairo Souza Santos é acusado de homicídio triplamente qualificado e tortura pela morte de Henry Borel. Monique Medeiros é acusada de homicídio por omissão e por descumprimento do dever de proteção do filho. Os dois negam as acusações.




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