Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, ex-vereador do Rio de JaneiroTomaz Silva/Agência Brasil

Rio - O depoimento da cabeleireira Teresa Cristina dos Santos, que atendeu Monique Medeiros semanas antes da morte do menino Henry Borel, foi o penúltimo no quarto dia de julgamento, nesta quinta-feira (28), no Tribunal de Justiça do Rio.

Diante dos jurados, a testemunha relatou conversas que disse ter presenciado dentro de um salão de beleza e reproduziu frases atribuídas a Henry que chamaram a atenção no plenário.

A fala mais impactante do depoimento veio quando Teresa afirmou ter ouvido Henry dizer: "O tio disse que eu atrapalho." Segundo a cabeleireira, o menino também chamou pela mãe enquanto ela era atendida: "Mamãe, vem pra casa."

De acordo com a cabeleireira, o encontro aconteceu em 12 de fevereiro de 2021, pouco mais de um mês antes da morte de Henry, que faleceu na madrugada do dia 8 de março. Monique permaneceu no salão por mais de duas horas e, durante esse período, recebeu ligações de Dr. Jairinho.

A testemunha contou que ouviu parte de uma dessas conversas. Segundo ela, Jairinho teria falado sobre demitir a babá de Henry. Monique, ainda de acordo com o relato, reagiu dizendo que não queria dispensá-la porque a funcionária cuidava bem do filho.

Na sequência, Teresa afirmou que ouviu Monique comentar que Jairinho disse que iria "quebrar tudo". A resposta de da mãe do menino, de acordo com a cabeleireira, foi imediata: ela teria dito que ele "já estava acostumado a fazer isso".

O depoimento avançou e Teresa voltou a citar Henry. Ela afirmou que ouviu o menino reclamar de dores e dizer que estava mancando porque o "tio" havia lhe dado "uma banda", expressão popularmente usada para rasteira ou empurrão.

A testemunha também lembrou que Monique aparentava estar emocionalmente abalada durante parte do atendimento. "Ela parecia estressada e preocupada", resumiu.

Outro trecho mencionado no tribunal foi a lembrança de Teresa de que Monique comentou naquele dia sobre a intenção de comprar câmeras de segurança para instalar dentro de casa.

A defesa de Jairinho tentou confrontar a versão apresentada pela cabeleireira e exibiu imagens do circuito interno do salão de beleza. A estratégia foi questionar a dinâmica narrada pela testemunha e a possibilidade de ela ter ouvido com clareza os diálogos que descreveu. Mesmo pressionada durante o interrogatório, Teresa manteve os principais pontos do depoimento.

Em determinado momento, o clima no plenário ficou ainda mais tenso e houve discussão envolvendo a magistrada e a testemunha durante a condução das perguntas. Segundo a juíza, a testemunha a respondeu de forma ríspida.
Com a fase de testemunhas ainda em andamento, a expectativa é que o julgamento prossiga com novos depoimentos antes dos interrogatórios dos réus e, posteriormente, os debates finais entre acusação e defesa diante do conselho de sentença.

Relembre o julgamento e caso

O júri popular de Monique Medeiros e Dr. Jairinho começou nesta segunda (25), e reuniu depoimentos considerados centrais para a reconstrução dos últimos meses de vida da criança, que morreu aos 4 anos.

Ao longo dos primeiros dias, os jurados acompanharam o depoimento de familiares, profissionais que conviveram com a criança e ex-funcionários do apartamento onde Henry morava com a mãe e frequentava com Jairinho.

Nesta quarta, antes da cabeleireira, também prestou depoimento a ex-funcionária Leila Rosângela de Souza Mattos, que trabalhou por menos de três meses na casa do casal. A oitiva foi marcada por contradições entre declarações prestadas anteriormente à polícia e o que foi dito em plenário, gerando embates entre acusação e defesa.
Mais cedo, o júri ouviu Natasha de Oliveira Machado, ex-namorada de Jairinho; a filha dela, Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, de 18 anos; e Débora Mello Saraiva, também ex-namorada de Jairo. As três relataram episódios de agressões envolvendo o ex-vereador.
Jairo Souza Santos é acusado de homicídio triplamente qualificado e tortura. Já Monique Medeiros é acusada de homicídio por omissão e por descumprimento do dever de proteção do filho. Os dois negam as acusações.