Fiscalização apreendeu produtos vencidos em clinica de estética, em LaranjeirasReprodução
Decon investiga cirurgias feitas em clínica de estética na Zona Sul
Delegacia do Consumidor identificou sete casos de complicações, incluindo a morte de uma mulher que realizou procedimento no abdômen
Rio - A Delegacia do Consumidor (Decon) investiga sete casos de complicações, ocorridos depois de cirurgias estéticas em uma rede de saúde, em Laranjeiras, na Zona Sul. Um deles é a morte de uma mulher, que fez um procedimento na região do abdômen no mês de junho.
Ao DIA, o delegado Wellington Vieira contou que os agentes receberam uma denúncia anônima, há cerca de três meses, relatando que uma pessoa teve o corpo deformado após uma cirurgia - realizada por um médico da República Dominicana - em uma unidade do Grupo Celita Toledo, localizada na Rua Soares Cabral.
A partir da informação, a especializada iniciou a apuração e identificou outros casos semelhantes, incluindo a morte de Isabely Viana, que fez um procedimento estético no abdômen. De acordo com o delegado, todas as complicações investigadas aconteceram em cirurgias feitas por médicos estrangeiros, que ainda estariam em pós-graduação.
"Felizmente, essa denunciante se apresentou na delegacia e confirmou tudo que havia dito na denúncia anônima. Ela prestou depoimento e foi encaminhada para exame de corpo de delito. Todas as cirurgias denunciadas foram feitas por médicos estrangeiros. A gente está apurando qual a regularidade desses médicos, se tinham supervisão, se participavam de pós-graduação, se a clínica aproveitava do motivo acadêmico para explorar os médicos", contou.
Por conta das denúncias, a Decon realizou uma ação, na última terça-feira (4), na rede de saúde. No local, Adriano Silva do Nascimento se apresentou como um dos donos de um dos estabelecimentos do grupo. Ao realizar buscas, as equipes encontraram medicamentos vencidos, o que gerou a prisão em flagrante do proprietário por crimes contra a relação de consumo. Adriano foi liberado após pagar fiança.
"A gente pede que as pessoas que tiverem informações procurem a delegacia para que a gente esclareça os casos, o mais rápido possível, e impeça que outras mulheres sejam vitimas", completou o delegado.
A causa da morte de Isabely segue sendo investigada. Os agentes irão analisar o prontuário médico para esclarecer o caso.
A vistoria da última terça contou com equipes da Vigilância Sanitária e do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio (Cremerj). Em nota, o Cremerj informou que os dados da fiscalização estão sendo depurados e reiterou que permanece em contato com órgãos competentes para as devidas apurações e providências cabíveis.
Defesa
A Decon identificou que o Grupo Celita Toledo é formado por, ao menos, três unidades: a Clínica de Estética Celita Toledo, o Laranjeiras Plastic Day Hospital e o Hospital Ênio Serra.
As unidades são vinculadas à candidata à deputada federal Celita Toledo (Republicanos). Em postagens nas redes sociais nesta quarta-feira (5), a mulher comentou sobre as reclamações apuradas.
"Tem muita menina reclamando de intercorrência. A gente já operou mais de 8 mil pessoas. Eu vou ter intercorrência, é óbvio. Todas as pessoas que estão fazendo reclamações vão ter que provar do que é proveniente a intercorrência dela. Tem câmeras no hospital inteiro. Tenho vídeos de pessoas chegando de moto, com o dreno pendurado, ou indo tirar o ponto e fumando lá fora", destacou.
Sobre o material vencido, Toledo destacou que os produtos estavam em área de descarte e que a clínica segue funcionando normalmente.
A reportagem enviou um e-mail, às 10h10, para o Projeto Celita Toledo pedindo um posicionamento sobre as apurações da Decon, mas ainda não teve retorno. O espaço está aberto para manifestação.
Exercício ilegal da medicina
A Regional Rio da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP-RJ) afirmou que o Estado do Rio concentra quase um terço de casos de exercício ilegal de medicina registrados no país, o que leva à grande quantidade de pacientes vítimas de procedimentos estéticos invasivos conduzidos por pessoas sem habilitação técnica e autorização legal.
Segundo um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), em um período de 11 anos, de 2012 a 2023, 937 casos de exercício ilegal da medicina foram registrados em delegacias do estado.
Ao DIA, o cirurgião plástico Guilherme Miranda, presidente do SBCP-RJ, ressaltou que a Medicina e os treinamentos cirúrgicos são feitos de forma intensiva durante, ao menos, 12 anos. Quando se forma, o médico tem um conjunto de experiência, que o auxilia a cuidar de intercorrências. Contudo, quem não possui esse conhecimento não consegue resolver complicações criadas.
"A questão é de saúde pública. Quando profissionais de saúde tomam para si a responsabilidade de realizar procedimentos para os quais tiveram treinamentos precários, eles assumem o risco de causar um problema sério nos pacientes. Ninguém está livre de ter complicações. Quando há, o cirurgião bem informado estará apto a resolvê-la ou minimizá-la da melhor maneira possível. Profissionais que não tenham essa formação dificilmente terão essa possibilidade de resolver. O risco acaba sendo grande e pode ser irreversível", diz.
A SBCP-RJ destacou que procedimentos invasivos (estéticos ou não) exigem avaliação clínica, indicação adequada, conhecimento anatômico, domínio técnico, planejamento anestésico, além de capacidade de reconhecer e tratar complicações. Quando são realizados por pessoas sem formação e sem habilitação profissional, os riscos aumentam para infecções, deformidades permanentes, perda funcional e morte.
Ainda de acordo com a sociedade, tais procedimentos só podem ser realizados em espaços preparados para reduzir a possibilidade de complicações, oferecendo condições adequadas de cuidado e garantindo acesso a instrumentos de suporte à vida. A instituição afirma que consultórios e clínicas de estéticas não reúnem as características.
"A SBCP-RJ reafirma seu compromisso com a excelência técnica, a segurança dos pacientes e o respeito à ética, bem como sua responsabilidade na prevenção aos danos causados por pessoas que, inadvertidamente, realizam atos para os quais não estão preparados. Neste sentido, coloca-se à disposição para contribuir com ações que, efetivamente, protejam os bens mais valiosos de qualquer brasileiro: a saúde e a vida", destaca.
Desde maio, médicos podem registrar relatos de pacientes que enfrentam danos causados por atendimentos realizados por pessoas não formadas. A plataforma Medicina Segura funciona como mecanismo de coleta de denúncias e relatos de problemas gerados por atendimentos irregulares. Todas as informações são recebidas pelo Conselho Federal de Medicina, que faz a distribuição para os Conselhos Regionais dos estados onde os casos aconteceram.
Os CRMs, após analisarem cada caso, encaminharão as denúncias recebidas e processadas às autoridades e entidades públicas competentes, como a Polícia Civil, o Ministério Público, a Vigilância Sanitária e o Procon, para que esses órgãos tomem medidas visando a responsabilização dos autores dos danos.





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