Ligue 180 recebe denúncias de violência contra mulher Joédson Alves/Agência Brasil
O avanço aparece também em crimes específicos. Os registros de estupro passaram de 4.128 vítimas em 2015 para 5.068 em 2025, aumento de 22,8%. Já a importunação sexual apresentou uma alta ainda mais expressiva: saltou de 610 vítimas para 2.723 no mesmo período, crescimento de 346,4%.
O cenário recente ajuda a dimensionar a diversidade das situações enfrentadas pelas vítimas. Na última semana, um homem foi preso em flagrante suspeito de estuprar uma adolescente de 17 anos dentro de um ônibus na Zona Norte do Rio. Segundo a Polícia Civil, a jovem dormia durante a viagem quando o suspeito teria praticado o ato sexual. Uma passageira percebeu a situação, alertou a adolescente e ajudou a interromper a violência.
Dias antes, um homem foi preso em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, por estupro de vulnerável contra a neta da ex-companheira. Segundo a investigação, os abusos teriam ocorrido outras vezes e a vítima teria sido orientada a manter silêncio. O caso foi descoberto quando o pai da menina flagrou o homem praticando atos de natureza sexual contra ela.
Para especialistas, entretanto, o aumento dos registros não pode ser interpretado de maneira automática como um crescimento da violência na mesma proporção. A professora de Direito da FGV Maíra Fernandes ressalta que os números policiais representam apenas os casos que conseguiram chegar ao conhecimento do Estado.
"Importante fazer um primeiro destaque: aumento dos registros não significa, automaticamente, aumento da violência na mesma proporção. Os dados policiais mostram aquilo que conseguiu atravessar várias barreiras até chegar ao conhecimento do Estado. E a violência sexual continua sendo um crime marcado por uma enorme subnotificação. Por isso, provavelmente estamos diante de dois movimentos simultâneos", ressalta.
Segundo Maíra, a ampliação da rede de atendimento, dos canais de denúncia e da capacidade de reconhecimento da violência pode ter contribuído para que mais casos chegassem às autoridades. Ela destaca ainda uma mudança cultural na forma como determinados comportamentos passaram a ser identificados.
“De um lado, houve uma ampliação da capacidade de reconhecer e denunciar essas violências. Hoje existe uma rede maior de atendimento, mais canais de denúncia, delegacias especializadas, Ministério Público, Defensoria Pública, serviços de saúde, o Ligue 180 e mecanismos digitais. Também houve uma transformação cultural importante", pontua.
A professora Maíra Covre, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero (Nuderg), da Uerj, também pondera que a melhora nos registros pode explicar parte do aumento, mas afirma que esse argumento não seria suficiente para explicar o cenário atual.
"As pessoas estão mais informadas e estão denunciando mais. Esse é um ponto. Mas, por outro lado, os feminicídios também estão aumentando. As minhas fichas são as seguintes: existe um debate sobre isso, mas eu entendo que, hoje, a mulher não é a mesma mulher dos anos 1970. As mulheres estão trabalhando mais, estudando mais, estão mais presentes no mercado de trabalho e estão mais informadas sobre os seus direitos. A mulher avançou na sociedade", explica.
A professora Felícia Picanço, do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, resume que não é possível estabelecer uma única causa para o crescimento dos indicadores.
“A gente não tem muito como atribuir o que a gente chama de causalidade. Você tem que acumular mais pesquisas, ter mais dados ao longo do tempo para tentar descobrir um pouco mais se existem efeitos mensuráveis em relação ao aumento do feminicídio. Não tem uma causa só, são múltiplas causas.”
A avaliação da pesquisadora também aborda a transformação do papel social das mulheres. Com maior participação no mercado de trabalho e autonomia financeira, relações baseadas em modelos tradicionais de gênero são colocadas em xeque.
“Há uma transformação no papel social da mulher. E a transformação vai em qual direção? Vai na entrada das mulheres no mercado de trabalho, vai na direção de, portanto, elas produzirem alguma autonomia, inclusive financeira. Então, essa dimensão produz um desequilíbrio naqueles valores tradicionais de gênero, onde os homens e as próprias mulheres, muitas são criadas dentro desse valor: o homem tem a propriedade sobre a mulher", afirma.
A professora de Direito da UFF Carla Appollinario, que atua na Comissão Permanente de Equidade de Gênero da universidade, responsável pelo acolhimento de vítimas de violência, afirma que a procura pela rede de atendimento também tem aumentado.
Para a docente, a violência contra a mulher não costuma começar necessariamente pela agressão mais grave. O controle, a humilhação e outras formas de violência podem aparecer antes de uma agressão física ou sexual e, muitas vezes, não são reconhecidos pela própria vítima como sinais de uma relação abusiva.
“A violência contra mulher dificilmente começa na forma mais gravosa, que seria o feminicídio. Normalmente, existem outros sinais que são dados na relação e, muitas vezes, as mulheres não percebem.”
Violência também ganha espaço no ambiente digital
As especialistas também apontam que a violência sexual e de gênero passou a incorporar novas formas de atuação no ambiente virtual. O Dossiê Mulher 2026, do ISP, dedicou pela primeira vez uma análise específica à violência contra mulheres na internet. Em 2025, 19.224 meninas e mulheres foram vítimas de algum tipo de violência em ambiente virtual no estado.
Maíra Fernandes destaca que perseguição, chantagem sexual, divulgação não consentida de imagens íntimas, manipulação de imagens e aliciamento passaram a fazer parte desse cenário. “A tecnologia não criou a misoginia, mas ofereceu a ela novas ferramentas, maior velocidade e uma plateia potencialmente ilimitada.”
A pesquisadora ressalta, porém, que a internet também pode ser utilizada como ferramenta de proteção e informação, permitindo que mulheres compartilhem experiências e encontrem redes de apoio.
"A internet também permitiu que mulheres compartilhassem experiências, formassem redes de apoio, identificassem padrões de abuso e encontrassem canais de denúncia. Muitas mulheres descobrem que aquilo que vivenciam tem nome justamente ao ler o relato de outra mulher", pondera.
Violência física atinge 43,3 mil mulheres; feminicídio chega a 104 casos
A violência sexual faz parte de um cenário mais amplo. Segundo o ISP, 43.309 mulheres foram vítimas de violência física em 2025, representando 118 casos por dia no Rio de Janeiro. A categoria reúne feminicídio, homicídio doloso, lesão corporal dolosa, tentativa de feminicídio e tentativa de homicídio.
No mesmo ano, o estado registrou 104 feminicídios. Segundo levantamento divulgado a partir do Dossiê Mulher 2026, 83,8% ocorreram dentro de casa e 51,4% foram cometidos por companheiros. Mais de 70% das vítimas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas não tinham feito denúncia formal.
Felícia Picanço afirma que o aumento dos registros precisa ser analisado em conjunto com a transformação das relações entre homens e mulheres e com a permanência de valores tradicionais.
“A gente tem uma desestabilização desse modelo de uma família tradicional do homem provedor, com a mulher cuidadora da casa e, eventualmente, provedora de um pouco da renda ou uma renda dita como complementar", destaca.
Para Carla Appollinario, a existência de uma rede de proteção fortalecida é fundamental para interromper a escalada da violência. "Para que a Lei Maria da Penha tenha efetividade, os Estados têm que se comprometer com o fortalecimento dessas redes de apoio, os dispositivos que compõem as redes.”
Violência psicológica lidera registros e chega a 59,7 mil vítimas
A violência psicológica foi a forma de violência contra a mulher com maior número de registros no estado em 2025. Segundo o ISP, 59.743 mulheres foram vítimas, aumento de 6,3% em relação a 2024. A categoria inclui crimes como ameaça, constrangimento ilegal, perseguição e violência psicológica contra a mulher, entre outros.
O próprio instituto aponta que a violência psicológica foi a forma mais frequente de agressão contra mulheres pelo quinto ano consecutivo. Maíra Fernandes chama atenção para comportamentos que podem aparecer antes de situações ainda mais graves.
“Existem comportamentos que merecem atenção justamente porque indicam controle e perda progressiva de autonomia. Muitas vezes, eles aparecem antes da primeira agressão física: controlar roupas, amizades, telefone ou redes sociais; exigir senhas; monitorar localização; tentar afastar a mulher da família e dos amigos; humilhá-la; ridicularizar sua capacidade intelectual; controlar dinheiro; impedir que trabalhe ou estude", lista a professora.
Segundo ela, a própria Lei Maria da Penha reconhece formas de violência que não deixam necessariamente marcas físicas. "Humilhação, isolamento, vigilância constante, perseguição, manipulação e controle também podem constituir violência psicológica."
No ambiente virtual, o ISP registrou 3.417 vítimas de violência psicológica em 2025, alta de 20,6% em relação às 2.834 vítimas de 2024.
Rede de proteção pode ajudar a romper ciclo de violência
Para as especialistas, reconhecer os sinais e buscar ajuda são passos importantes, tanto para as vítimas quanto para pessoas próximas. Carla Appollinario explica que os Centros Especializados de Atendimento à Mulher (Ceams) são uma das portas de entrada da rede de proteção e oferecem serviços como assistência psicológica, jurídica e social, além de encaminhamentos para outras políticas públicas.
"São dispositivos em que as mulheres encontram assistência psicológica, jurídica, assistência social… Também é possível realizar encaminhamentos questões relacionadas à educação dela, dos filhos. Há ainda apoio para ruptura do ciclo de violência e também algumas ações para buscar autonomia econômica."
Maíra Fernandes ressalta que a saída de uma relação violenta nem sempre ocorre de maneira imediata. "Existe o chamado ciclo da violência: períodos de agressão podem ser seguidos de arrependimento, promessas de mudança e reconciliação. Isso ajuda a compreender por que sair de uma relação violenta raramente é uma decisão simples ou imediata", explica.
A professora também aponta situações que podem indicar risco elevado, como ameaças de morte, acesso a armas, escalada da frequência ou gravidade das agressões, perseguição após a separação e descumprimento de medidas protetivas. Felícia Picanço reforça a importância de observar relações marcadas por controle excessivo.
"Falta de respeito, controle. Se você perceber que a pessoa está controlando demais, não existe controle por amor. Controle é sempre controle. É sempre uma forma de afirmar uma relação de poder, e a violência contra as mulheres são crimes", conclui.
Carla lembra que, diante de uma violência em andamento, é possível acionar a polícia pelo 190. Para orientação e denúncias relacionadas à violência contra a mulher, também existe o Ligue 180, canal nacional mencionado pelas especialistas.
A rede, segundo Carla, precisa funcionar de maneira integrada para que a vítima tenha condições não apenas de denunciar, mas também de reconstruir a própria vida. “O Rio tem o cartão Mulher Carioca, mas que também não dá conta do sustento da mulher. É uma porta de entrada e tem que interseccionar com outras políticas para que essa mulher consiga autonomia financeira.”
A professora Maíra Covre resume o desafio como uma questão que vai além da punição dos autores e passa pela prevenção e pela transformação cultural. "Não é falta de punição; é falta de educação. Falta de respeito, controle.”
Carla Appollinario destaca que a lei ajudou a estruturar uma rede especializada de atendimento, mas ainda há desafios na oferta de serviços. “Para que a Lei Maria da Penha tenha efetividade, os Estados têm que se comprometer com o fortalecimento dessas redes de apoio”, afirma. Segundo ela, é necessário ampliar os mecanismos de acolhimento e proteção para que mulheres em situação de violência tenham condições de romper o ciclo e conquistar autonomia.

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